Ouvintes:
Principais ouvintes:
TunetRádio Cultura Primeiro
today02/08/2026 26 1 5
Um mito urbano sobre um concerto improvisado dos Police nos anos 80 levou a direção do festival CLIT – Cinema em Locais Inusitados e Temporários a quebrar a sua regra de não usar salas tradicionais, agendando para hoje a exibição de um documentário sobre Stewart Copeland no Cinema Ideal, em Lisboa.
A revelação foi feita à TunetRádio pelo fundador e diretor do festival, Luís Humberto Teixeira, que justificou a migração do evento de Setúbal para a capital com a necessidade de encontrar “locais inusitados” que dialogassem diretamente com a programação de obras documentais deste ano.
O pretexto para a incursão pelo Bairro Alto prende-se com o percurso de Stewart Copeland, o ex-baterista dos Police retratado no documentário “Copeland”, de Pablo Aragüés. Trata-se de uma obra que aborda a faceta de multi-instrumentista do músico e a sua vasta diversidade criativa, que inclui desde a música africana à folk italiana, passando por bandas sonoras de cinema e de videojogos.
“Procurámos qual era a ligação dele com Portugal e encontrámos apenas Lisboa, onde foram os concertos dos Police. Havia um mito urbano a circular, partilhado por pessoas que viveram os anos 80, de que a banda, antes do mítico concerto no Estádio do Restelo, teria feito um mini concerto improvisado no Bairro Alto”, explicou o responsável.
Apesar de a transformação urbanística e comercial do Bairro Alto nos últimos 40 anos ter apagado o eventual local exato desse concerto informal, a organização decidiu que a zona seria o palco ideal para a sessão única do filme. Para contornar a regra interna do festival de rejeitar salas clássicas de cinema, a direção encontrou uma justificação na própria carreira do músico.
“Pensámos no Cinema Ideal. Como as nossas regras dizem que não fazemos exibições em salas clássicas, justificámos a decisão a nós próprios pelo facto de Copeland ter composto várias bandas sonoras para cinema. Não queríamos perder a oportunidade de fazer uma sessão ali, dada esta história dos Police”, confessou Luís Humberto Teixeira.
Para a conversa que se segue à projeção de domingo à noite, a organização reuniu dois comentadores ligados ao universo da bateria e do rock experimental. O primeiro convidado a aceitar o desafio foi Vítor Rua, ex-membro dos GNR, cujo percurso musical mais vanguardista a organização considera espelhar a carreira do músico norte-americano.
“Era engraçado termos alguém ligado aos GNR, sendo um ex-GNR que, além do nome que remete para a autoridade, tem um percurso experimental muito interessante e parecido com o de Stewart Copeland. Identificar-se-ia de certeza com o filme e aceitou logo no momento”, destacou o diretor.
A fechar o painel de convidados estará o norte-americano Michael Lauren, radicado na capital portuguesa e fundador da Academia Internacional de Bateria em Lisboa. Apontado pelo diretor do festival como “a melhor pessoa para comentar a obra”, o baterista aceitou de imediato o convite para analisar o impacto técnico e cultural de Copeland na evolução do instrumento.
Espaços informais e cinema de proximidade marcam arranque do festival CLIT em Lisboa e na Moita
O arranque da sexta edição do festival CLIT ficou marcado pela exibição do documentário “Lindo”, de Margarida Gramaxo, num pátio da Galeria Monumental, em Lisboa, e pela presença contínua de realizadores internacionais que elogiam o formato “descontraído” e itinerante da iniciativa.
O diretor do festival explicou que o processo de escolha para a sessão de abertura inverteu as regras habituais, partindo primeiro da seleção do espaço (gerido por Ana Maria Pereirinha e Manuel Sampaio) para depois encontrar a obra ideal.
“A Galeria Monumental tem um pátio muito interessante, com um limoeiro e uma parede que permitia enquadrar muito bem a tela. Quando conversávamos com os responsáveis sobre quem morava ali ao lado, descobrimos que era a realizadora Margarida Gramaxo. O filme dela tinha tudo a ver com as preocupações ambientais do festival”, recordou.
O documentário “Lindo”, que acompanha um antigo caçador de tartarugas na Ilha do Príncipe transformado em protetor da espécie, foi o décimo filme português mais visto nos cinemas no ano de lançamento, um feito que o diretor considera “muito bom para um documentário com o ritmo lento de São Tomé”.
A sessão de abertura gerou um ambiente informal que, segundo o responsável, captou a atenção de públicos de várias idades, incluindo crianças. Entre os espectadores encontrava-se o realizador norte-americano John Alexander — que assina a obra de encerramento do festival —, descrito por Luís Humberto Teixeira como a “presença mais assídua” do evento desde 2022.
“O John Alexander desenvolveu uma relação muito boa com o festival porque adorou o conceito. Já referiu em entrevistas internacionais que, apesar de ter estado em grandes certames como o Raindance, o CLIT é o seu festival favorito pelo ambiente descontraído e pela oportunidade de conhecer sítios novos em Portugal”, destacou.
Luís Humberto Teixeira reforçou que o festival nasceu no pós-pandemia, em 2021, com o propósito de levar as obras até ao local onde as pessoas se encontram, funcionando simultaneamente como um estímulo para o regresso às salas tradicionais.
“O objetivo é que as pessoas recuperem o gosto pelo cinema fora de casa. Ver um filme numa sala ou num espaço partilhado com dezenas de desconhecidos, a captar as mesmas emoções ao mesmo tempo, proporciona uma experiência e conversas completamente diferentes do consumo doméstico”, afirmou o diretor, estabelecendo a ponte com a sessão comunitária que se seguiu no Pátio da Freguesia da Moita.
CLIT desafia público com sessões sob pistas na Mouraria e celebra Louis Armstrong em Lisboa
O festival entra na reta final com propostas que desafiam o público a descobrir os locais das exibições através de pistas subtis e com uma homenagem exclusiva ao músico norte-americano Louis Armstrong.
O conceito das sessões secretas, acessíveis através de pistas disponibilizadas no site oficial, abrange as projeções de segunda e terça-feira, distinguindo o certame de outras iniciativas ao ar livre no país. “Há festivais em sítios fantásticos, mas não dão pistas. Aqui há esta componente de tentar ir à procura do local”, explicou Luís Humberto Teixeira.
Para a noite de segunda-feira, o festival reserva na Mouraria a exibição de “Onde as oliveiras choram”, de Zaya e Maurizio Benazzo. A dupla de realizadores é já repetente no festival, tendo vencido o Prémio do Público numa edição anterior com o documentário “A Sabedoria do Trauma”. O novo trabalho aborda o conflito na Palestina sob a perspetiva das mulheres locais e conta com o contributo do médico especialista em trauma Gabor Maté.
A programação de segunda-feira inclui ainda uma ‘masterclass’ com o realizador norte-americano John Alexander no Espaço atmosfera m, uma sessão que a organização confirmou estar “esgotadíssima” com 70 inscritos. O cineasta vai partilhar os bastidores da criação de “Little Satchmo”, documentário focado na filha que Louis Armstrong nunca assumiu publicamente e que conquistou um prémio Emmy após passar pelo festival.
O encerramento oficial do evento acontece na terça-feira, 4 de agosto, precisamente no dia em que se assinalam os 125 anos do nascimento de Louis Armstrong. A organização agendou para a tarde uma matiné cinematográfica num café histórico de Lisboa, fundado na década de 1950, cujo local exato também terá de ser desvendado pelo público.
A escolha do formato de matiné num dia útil foi uma aposta estratégica para aproveitar o período de férias de verão, que abrange “entre 30% a 40% das pessoas nesta altura do ano”. Depois de ter passado por concelhos da Península de Setúbal, como Sesimbra e a Moita, a obra sobre o ícone do jazz estreia-se em Lisboa numa sala que a organização antecipa “bastante composta”.
Com o fecho desta sexta edição na capital, Luís Humberto Teixeira remete o futuro do festival itinerante para o próximo ano, sublinhando que “para o ano logo se vê onde é” a próxima paragem do cinema inusitado.
Escrito por TunetRádio
Bairro Alto CLIT John Alexander Lindo Little Satchmo Louis Armstrong Luís Humberto Teixeira Michael Lauren Onde as oliveiras choram Pablo Aragüés Stewart Copeland The Police Vítor Rua
Comentários da publicação (0)