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TunetRádio Cultura Primeiro
Há dias do Rock in Rio que vivem da novidade. Outros vivem do rock. O terceiro dia do Rock in Rio Lisboa conseguiu algo mais raro: mostrou que a nostalgia só faz sentido quando continua viva. O chamado Legend’s Day não foi apenas uma sucessão de nomes históricos. Foi uma demonstração de que há artistas que desafiam o tempo porque nunca deixaram de saber subir a um palco. Entre o rock, o reggae, o soul e a pop, Lisboa assistiu a uma autêntica viagem por várias décadas de música, conduzida por cantores que continuam a fazer aquilo que muitos mais jovens ainda procuram aprender: comunicar com uma multidão. Talvez só Shaggy se tenha perdido um bocadito neste propósito.
Os 4 Non Blondes (na fotografia de capa) abriram a tarde perante um Palco Mundo já muito composto, sinal de que havia quem não estivesse disposto a perder um minuto daquele alinhamento. Linda Perry continua a ser uma figura de personalidade avassaladora, intercalando momentos de introspeção com explosões de energia bem forte à moda dos 90’s. Ao longo do concerto ouviram-se temas como ‘Train’, ‘Spaceman’ e ‘Drama Queen’, mas toda a atuação caminhava inevitavelmente para o instante que todos aguardavam. Quando chegaram os primeiros acordes de ‘What’s Up?’, o recinto transformou-se num gigantesco coro. Perry desceu à plateia para cantar literalmente rodeada pelo público e, num dos momentos mais inesperados da tarde, chamou ao palco o filho Rhodes, de apenas 11 anos, para interpretar o refrão consigo. O gesto teve tanto de familiar como de simbólico: uma canção lançada em 1993 continua a passar naturalmente de geração em geração. E ele fez um ótimo papel.
Enquanto isso, o recinto dividia-se entre dois universos completamente distintos. No Super Bock Stage, The Wailers recordavam porque continuam a ser os guardiões mais legítimos da herança de Bob Marley. ‘Is This Love’, ‘Jamming’, ‘Could You Be Loved’ e ‘One Love’ foram recebidas quase como património coletivo – tudo a celebrar um passado tão presente.
No Music Valley, os UHF confirmaram porque permanecem entre os pilares do rock português. António Manuel Ribeiro continua a possuir uma voz imediatamente reconhecível e toda a banda é uma presença que dispensa grandes artifícios cénicos. A abrir com ‘Bora Lá’, rapidamente seguiram para ‘Matas-me Com o Teu Olhar’, ‘Cavalos de Corrida’ e ‘Menina Estás à Janela’, num alinhamento que cruzou diferentes fases da carreira sem perder coerência. A estreia “absoluta” de ROCKinRIO.PT, escrita especialmente para esta edição do festival e inspirada na curadoria “Classe de 79”, foi também um momento divertido da atuação.
A prestação de Shaggy foi uma festa de dança, com uma energia contagiante que fez o público cantar e dançar do início ao fim. ‘Boombastic’, ‘Angel’, ‘It Wasn’t Me’, ‘Hey Sexy Lady’… toda uma festa pegada e com alguns momentos de stand-up pelo meio em que brincou com os temas ‘Turn Down for What’, ‘Jump Around’, ‘Three Little Birds’ e ‘Bad Boys’ – todos tocados menos de 30 segundos, claro.
Quando os GNR subiram ao Music Valley, o recinto já estava muito preenchido e a expectativa fazia justiça ao estatuto da banda. “Rei” Reininho continua a ser uma figura impossível de replicar no panorama português: irónico, teatral, imprevisível e sempre com aquele timbre inconfundível que transforma qualquer verso numa assinatura. Longe de se limitarem a desfilar êxitos, os portuenses conseguem sempre pôr letras inusitadas em cima daquelas que tantas vezes já cantámos. ‘Vídeo Maria’, ‘Sub-16’, ‘Pronúncia do Norte’, ‘Dunas’ e a arrebatadora versão de ‘Quero Que Vá Tudo Pró Inferno’ mantiveram o público permanentemente ligado à atuação, num alinhamento onde o rock se cruzou com a pop. Entre músicas, Reininho deixou também espaço para o humor e para uma “homenagem” a Pedro Abrunhosa, brincando que os óculos escuros que usava em palco tinham sido oferecidos pelo músico portuense pouco antes. Houve ainda, claro, brincadeiras e trocadilhos com a Colômbia – com quem Portugal jogou nessa noite no terceiro jogo da primeira fase do Mundial.
Mais tarde, com o sol a pôr-se, Joss Stone ofereceu um dos concertos mais elegantes e emocionalmente ricos do dia. A britânica continua a impressionar pela naturalidade com que alterna soul, blues, jazz e gospel sem nunca parecer forçada. ‘Super Duper Love’, ‘Right To Be Wrong’ e ‘Tell Me ‘Bout It’ revelaram uma voz tecnicamente irrepreensível. As vozes que a acompanham são absolutamente soberbas e Joss Stone, toda sorrisos, acabou a atuação a distribuir girassóis. Uma energia tão bela que merecia estar no palco principal por onde já passou noutras edições.
No Palco Mundo, Cyndi Lauper recordou que as verdadeiras estrelas não vivem apenas dos êxitos que escreveram, mas também da personalidade que continuam a transportar para o palco. Aos 73 anos, entrou com um visual exuberante, cabelo azul, uma poupa à prova de sismo e uma energia tão intensa que rapidamente anulou qualquer discussão sobre idade. O outfit giríssimo, cheio de personalidade e cores que sim, não combinam, e a piada é essa (malta, não levem o que se passa em palco tão a sério que só vos faz mal). Todo o tempo a cantora foi acompanhada uma banda super top, quase exclusivamente feminina, com “um” backing vocal. A atuação percorreu alguns dos maiores clássicos dos anos 80 como ‘She Bop’, ‘I Drove All Night’ (escrita originalmente para Roy Orbison), ‘Time After Time’, ‘True Colors’ e, naturalmente, ‘Girls Just Want to Have Fun’, mas houve espaço para muito mais do que música. Num dos momentos mais marcantes da noite, ergueu o punho e gritou “We will not go back!”, numa mensagem clara em defesa dos direitos das mulheres. Não soou a discurso político; soou a coerência artística a que ela é fiel e talvez por isso muitas críticas de “vestida às escuras que não canta nada” lhe tenham sido injustas. Poucos artistas conseguem integrar uma posição pública dentro de um espetáculo sem quebrar o ritmo. Lauper conseguiu-o com uma naturalidade admirável, tal como Linda Perry já tinha feito nesse mesmo palco horas antes.
O encerramento pertenceu a Rod Stewart, e foi talvez aí que o conceito de “lenda” encontrou a sua definição mais evidente. Aos 81 anos, integrado na digressão “One Last Time”, o britânico continua a subir ao palco com uma vitalidade que nos deixa boquiabertos. Depois de algumas questões de saúde o terem perturbado nas semanas anteriores ao concerto, Stewart apareceu sorridente, dançou, correu, brincou com o público, trocou de roupa, apresentou-se com quatro visuais e cantou praticamente durante duas horas sem deixar que a voz denunciasse a sua idade. O repertório foi uma sucessão de clássicos: ‘Tonight I’m Yours’, ‘Forever Young’, ‘Young Turks’, ‘Maggie May’, ‘The First Cut Is the Deepest’, ‘I’d Rather Go Blind’, ‘Da Ya Think I’m Sexy?’ e ainda uma emotiva interpretação de ‘Sailing’, cantada em uníssono por milhares de pessoas. Acompanhado por uma banda irrepreensível, com harpa em palco (quem, mas quem?) e por um grupo de bailarinas/cantoras/instrumentistas lindas e maravilhosas que acrescentou dinamismo visual e harmonia vocal sem roubar atenções ao protagonista – ele próprio a fazer questão de as deixar brilhar. Que vozes excelentes a cantarem ‘Jolene’ e ainda no lugar (insubstituível, é certo) de Tina Turner em ‘It Tkaes Two’. Rod Stewart demonstrou aquilo que distingue um veterano de um simples sobrevivente: continua a divertir-se em palco e brinca com ele próprio muitas vezes; numa delas a fingir-se de muito piegas a ouvir as suas baladas. E não faltou o discurso de apoio à Ucrânia – também o papel social a ser ativado por um artista gigante.
O terceiro dia do Rock in Rio Lisboa acabou por provar uma evidência frequentemente esquecida: as lendas não permanecem relevantes apenas porque o passado lhes foi favorável. Permanecem porque continuam capazes de oferecer concertos à altura da reputação que construíram. Num tempo em que a indústria vive obcecada pela novidade, pela imagem fútil e pelo conteúdo fácil foram precisamente artistas com quatro ou cinco décadas de carreira que deram uma das maiores lições deste festival: a música pode envelhecer, mas um grande e orgânico espetáculo nunca passa de moda.
Um lamento é que num país com tantos problemas por resolver, ainda haja quem esteja disposto a manifestar-se e a levar tão a sério a música que se dê ao trabalho de denegrir todos os que fizeram uma festa tão bonita como esta. Destilem menos ódio e aceitem, de uma vez por todas, que nós os fãs de música pop não somos tontinhos by default. Inteligência não se mede pelo estilo musical. Pop é só outra estética. E o gosto musical de cada um não é o resultado de um teste de QI.
Escrito por Daniela Azevedo
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