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    TunetRádio Cultura Primeiro

MÚSICA

Rock in Rio Lisboa: O triunfo histórico do hip hop nacional

today25/06/2026 6

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Ficaram muitas dúvidas, legítimas, sobre o regresso dos Linkin Park ao Rock in Rio Lisboa com a nova vocalista, Emily Armstrong. O som do Palco Mundo esteve longe de estar no ponto ideal para uma estreia desta magnitude em solo português. Há uma máxima artística incontornável: quando morre um vocalista tão “icónico e insubstituível” como Chester Bennington, a banda tem todo o direito de seguir em frente, mas talvez devesse fazê-lo sob outro nome. O exemplo histórico dos Joy Division, que após a trágica perda de Ian Curtis decidiram renascer e trilhar um caminho de sucesso rumo aos New Order, continua a ser a melhor bússola moral. Claro que a generalidade dos fãs mais devotos discordará desta visão, mas resta a questão artística: que raio têm os novos temas em comum com os hinos geracionais de outrora?

No caso dos “lendários” Sepultura, a história é ligeiramente diferente, uma vez que a célebre cisão dos anos 90 foi motivada por fraturas internas ligadas a Gloria Cavalera. Ainda assim, a história do metal dita que há um período claramente demarcado antes e depois da saída de Max Cavalera. Munido de um som avassalador e pesado, este concerto de “despedida” juntou em palco os norte-americanos P.O.D. e os Sepultura. Foi um momento de simbiose metálica e união de estéticas que se prevê irrepetível nesta digressão e que deixou o público em êxtase.

Os Cypress Hill trouxeram poucas novidades ao seu habitual alinhamento, mas exibiram a competência q.b. que se exige a lendas do hip hop na gestão de clássicos obrigatórios, na apresentação de alguns temas mais recentes e até em momentos puros de scratch e medleys de “giradisquismo” proporcionados pelo exímio DJ Lord. Quem optou por ficar em casa a acompanhar a transmissão televisiva pela SIC Radical ou pelo YouTube perdeu a verdadeira “bojarda” e pressão sonora do concerto ao vivo. Em contrapartida, esses telespetadores ganharam “cores” e dinâmicas visuais que os ecrãs do Palco Mundo, por questões de produção e realização, teimaram em não exibir. A interpretação de “Bombtrack”, hino dos “icónicos” Rage Against The Machine (via Prophets of Rage), assumiu-se como um dos momentos mais altos e celebrados de toda a atuação.

Ricky Wilson foi, sem qualquer margem para dúvidas, o verdadeiro “homem do dia”. O carismático vocalista dos Kaiser Chiefs revelou-se incansável desde o primeiro minuto, entregou literalmente todos os grandes singles do catálogo da banda a um público que os cantou em uníssono e ainda teve a audácia física de trepar acima da estrutura da régie e das torres de iluminação do recinto para interpretar o clássico “I Predict A Riot”. Além dos hinos antigos, o álbum mais recente do grupo, “Kaiser Chiefs’ Easy Eighth Album”, demonstrou que merece uma audição atenta por parte dos seguidores de indie rock britânico.

Para o público português, o panorama do rock nesta edição podia ter sido substancialmente diferente se os Pretty Reckless não tivessem sido obrigados a cancelar o concerto no festival Nos Alive, aquando do episódio do deslizamento do palco — um incidente que ocorreu antes das atuações planeadas de 30 Seconds To Mars e dos Chemical Brothers. No Rock in Rio, a banda entregou um rock honesto, direto e poderoso, com Taylor Momsen a mostrar uma garra tremenda e a justificar plenamente a aposta da organização na “contratação”. No polo oposto da sensibilidade rock, e apesar de o vocalista não ter propriamente a melhor voz do mundo, os Grandson souberam transportar com enorme eficácia para a atualidade a sonoridade política e contestatária dos Rage Against The Machine. O espetáculo foi pautado por menções artísticas a Bob Dylan, uma sentida e aplaudida homenagem ao “amigo” Oliver Tree (recentemente falecido num trágico choque de helicópteros no Brasil) e muitas palavras de ordem acesas contra Donald Trump e o crescimento da extrema-direita global.

Sam The Kid, acompanhado de forma magistral por uma Orquestra e pelos amigos Orelha Negra, foi o responsável pelo melhor espetáculo de todo o primeiro fim de semana do Rock in Rio Lisboa — e esta afirmação nem sequer se limita a catalogá-lo como o melhor concerto do seu dia específico. O palco transformou-se numa celebração de pioneiros, juntando “os pais” fundadores do movimento, o histórico Mundo Segundo, a voz de NBC e uma série de outros convidados de relevo. Acompanhado pelos pais e sempre num crescendo emocional e com um som imaculado (o Palco Music Valley tem demonstrado possuir, de longe, a melhor qualidade acústica e equilíbrio de frequências de todo o festival), Sam atravessou com mestria os quase 30 anos de uma carreira absolutamente ímpar no panorama da música nacional. Antes da “consagração”, uns “veteranos” Dealema sem quaisquer concessões comerciais já tinham deixado uma excelente impressão no mesmo palco. Recomenda-se vivamente a escuta do mais recente trabalho do coletivo, “96 ao Infinito”, de fio a pavio.

Sejamos totalmente honestos: apesar de ter registado lotação esgotada, o primeiro dia do Rock in Rio Lisboa tinha muito pouca coisa de relevo substancial, musicalmente falando. Depois de terem protagonizado concertos em nome próprio para largos milhares de pessoas no Estádio da Luz, em Lisboa, e no Estádio Municipal de Braga, os Calema aproveitaram a montra do Palco Mundo para efetuar um “sampler generoso” dos seus êxitos, uma estratégia calculada para manter acesa a chama da popularidade junto das massas. Logo a seguir, Pedro Sampaio distribuiu leques, trouxe um forte contingente de bailarinas e apresentou uma percentagem elevadíssima do espetáculo em formato pré-preparado e gravado; ali não há qualquer espaço para o improviso orgânico ou para aquilo a que podemos chamar de música com “M” maiúsculo. Mas sim, em termos de festa coreografada, houve recordes de “cavalinhos” por todo o recinto.

Num campeonato artístico completamente diferente, as atuações de Zarko, de Bárbara Bandeira e, muito em especial, de Nena e dos Napa funcionaram como uma autêntica e necessária lufada de ar fresco no festival. Estes projetos provaram com distinção que a música contemporânea portuguesa pode perfeitamente conter elementos pop e rock escorreitos e apelativos sem ter de recorrer a fórmulas gratuitas, gastas, fáceis ou básicas. Nena chegou mesmo a citar os Xutos & Pontapés no final do alinhamento e os Napa, a espaços e com uma envolvência instrumental densa, lembraram a sonoridade dos Morphine.

Em sentido inverso, Charlie Puth foi simplesmente chato. Muito chato. Já a norte-americana de ascendência sul-coreana Audrey Nuna surpreendeu pela positiva com uma abordagem fresca à pop. Quanto a Katy Perry, o veredicto é claro: já a vimos em palcos nacionais em muito melhor forma (e não estamos a falar do físico). É verdade que a cantora fez questão de recordar que é “24% portuguesa”, provou de forma divertida que o vestido que usou no seu primeiríssimo concerto em Portugal ainda lhe serve perfeitamente (agora, após ter perdido alguns quilos) e manteve viva alguma da sua piada natural. Contudo, quando um concerto desta dimensão no Palco Mundo fica gravado na memória coletiva apenas por causa de uma garrafa de água de proporções bíblicas, que é elevada por dançarinos e passeada pelo recinto com a cantora lá dentro, algo está estruturalmente errado com a proposta artística. As mais de 90 mil pessoas que tornaram o recinto pouco circulável mereciam mais substrato artístico.

O festival arrancou a 11.ª edição com uma “impressionante” moldura humana de 200 mil pessoas, vindas de mais de 125 países diferentes, segundo os dados oficiais revelados pela organização. O Rock in Rio Lisboa regressa no próximo fim de semana com um cartaz multifacetado. No dia 27 de junho, o Palco Mundo e os palcos secundários recebem as “lendas” Rod Stewart, Cyndi Lauper, o ritmo de Shaggy, o pop rock nostálgico dos 4 Non Blondes, os Xutos & Pontapés (que trazem a curadoria “Classe de 79” acompanhados por Jafumega, UHF e GNR), a soul de Joss Stone e a eletrónica orgânica dos Bateu Matou. Já no dia 28 de junho, o fecho do festival faz-se ao som de Karetus, Carlão, da escrita interventiva de Valete, do trap internacional de 21 Savage, da estrela britânica Central Cee e da voz de CeeLo Green.

Escrito por Filipe Pedro

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