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TunetRádio Cultura Primeiro
Durante mais de uma década, o nome de Valter Rolo foi sinónimo de solidez nos bastidores da música portuguesa. Dos arranjos para as baladas de Bárbara Tinoco à direção musical do fado visceral de Sara Correia, o pianista e compositor foi o arquiteto de sucessos alheios. Agora, com o lançamento de “O Som da Palavra · Vol. 1“, o músico de Palmela assume o protagonismo, num disco que rejeita a “urgência do imediato” e celebra a maturação artística.
O álbum de estreia, que chega agora ao público, é o culminar de um processo que teve o seu início em 2012. Em entrevista à TunetRádio, Valter Rolo explica que este hiato entre as primeiras composições e a edição final não foi fruto do acaso, mas de uma dedicação quase absoluta aos projetos de outros artistas.
Eu comecei a fazê-lo em meados de 2012-13. Fui sempre pondo de lado umas canções um bocadinho diferentes. Sempre compus para outras pessoas, para a Sara Correia, para a Anabela, fiz coisas para musicais… fui fazendo música de forma muito eclética. Sempre que surgiam temas que eu achava que tinham a ver comigo, ia encostando.
A decisão de priorizar o trabalho de estúdio e a produção de nomes como Carolina Deslandes ou Paulo de Carvalho acabou por empurrar o projeto a solo para o fim da lista de prioridades. “O meu disco ia ficando sempre em último lugar. Aparecia sempre o álbum para produzir, os arranjos para fazer… punha-me sempre em segundo, terceiro, quarto e quinto lugar”, admite, sublinhando que foi apenas no ano passado que sentiu ter os “condimentos todos” para fechar a obra, incluindo o apoio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
O Piano como Identidade e a Palavra como Som
No centro deste universo está o piano, o “instrumento de eleição” que Valter Rolo nunca abandonou, apesar de incursões juvenis pelo saxofone ou pelo acordeão. Para o músico, o piano não é apenas uma ferramenta de trabalho, mas uma extensão da sua própria voz. “Conheço grandes amigos músicos que procuram sempre outros amores, outros instrumentos… Eu não. O piano e os seus derivados, como o órgão Hammond ou os sintetizadores, foram sempre a minha eleição”, afirma.
O título do álbum, “O Som da Palavra”, levanta o véu sobre o processo criativo de Rolo. Ao contrário de muitos instrumentistas que compõem música abstrata, o pianista confessa que a sua escrita musical nasce sempre ancorada numa narrativa textual, mesmo que esta ainda não exista no papel.
As palavras aqui tiveram um papel central. Sempre que compus, imaginei o texto em cima daquilo que compunha. Desde a primeira hora que imagino sempre o texto em cima da música. Sou fascinado pelo som da palavra do português. Há pessoas que têm fascínio por compor para inglês, eu não. É em português e é por isso que o disco se chama assim.
A Colaboração com “A Garota Não” e a Dimensão Cinematográfica
Um dos destaques do disco é o tema “Noite de Verão Fantasia”, que conta com letra de Cátia Oliveira (A Garota Não) e a voz de Beatriz Nunes. A canção, que Valter Rolo descreve como tendo uma “atmosfera cinematográfica”, tem uma origem profundamente pessoal: foi composta há cerca de 13 anos como uma canção de embalar para a sua filha.
A primeira vez que a compus, o sentimento foi o de fazer uma canção de embalar alguém que está a dormir. Fiz de facto dedicada à minha filha, para ser uma canção de relaxamento, para estar lá presente quando alguém tem um mau sonho.
Sobre a colaboração com Cátia Oliveira, o compositor é profuso em elogios, comparando a capacidade narrativa da letrista à de vultos da música lusófona. “A Cátia escreve incrivelmente bem. As letras dela fogem ao senso comum. Ela constrói pequenas histórias, com princípio, meio e fim, em que descreve um estado de alma, um lugar, um cheiro ou uma viagem. Faz lembrar aquele tipo de histórias à Chico Buarque ou como fazia o José Carlos Ary dos Santos”, aponta, referindo-se à capacidade de “concentrar a história num determinado ponto”.
O Futuro: Volume 2 e o Palco
Apesar de ter demorado 13 anos a lançar o primeiro volume, Valter Rolo garante que o público não terá de esperar tanto tempo pela continuação. O músico revelou à TunetRádio que o “Volume 2” já está em marcha: “Já comecei a fazer o segundo volume, está quase feito. Comecei a gravá-lo no início deste ano, dentro dos mesmos moldes, com uma secção de cordas grande e vários convidados”.
Quanto à apresentação ao vivo de “O Som da Palavra”, o pianista prevê uma digressão que se moldará à geografia das salas portuguesas, alternando entre a crueza do “piano e voz” e a densidade das orquestrações.
Vou fazer muitos espetáculos em piano e voz, porque acho que o projeto sobrevive perfeitamente nesse registo intimista. Mas também posso fazê-lo de uma forma muito cinematográfica, consoante o espaço. Será, essencialmente, um espetáculo de sala.
Com este lançamento, Valter Rolo deixa de ser apenas o homem que ajuda os outros a encontrar a sua voz para afirmar a sua própria sonoridade: uma mistura de fado, jazz e música contemporânea onde, finalmente, o tempo corre ao ritmo das teclas.
Escrito por Daniela Azevedo
A Garota Não Dimensão Cinematográfica O Som da Palavra · Vol. 1 Valter Rolo