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    TunetRádio Cultura Primeiro

CRÓNICAS

Porque a Dave Matthews Band nunca toca a mesma canção

today08/02/2026 4

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Há seguramente várias formas de olhar para a Dave Matthews Band, mas para quem os ouviu como contemporâneos, como a banda que pontuou o relógio das nossas próprias décadas, o olhar é inevitavelmente mais profundo. E há por isso mesmo quem veja neles os herdeiros de uma linhagem que aconteceu de forma quase litúrgica entre Bruce Springsteen e a E Street Band, algures entre 1980 e 1984, aquele momento em que o virtuosismo se ajoelhava perante a canção. Ou talvez a memória nos leve até aos The Band, no final dos anos 60, onde a coesão era tão densa que a individualidade se dissolvia num propósito comum. Esta é a chave-mestra para entrar no universo da DMB sem cair na caricatura fácil da “música de campus” ou na leitura técnica do jazz-rock. Pertencem à linhagem rara das bandas que entendem o palco como um organismo vivo. Quando Julia Roberts subiu ao palco para induzir a Dave Matthews Band no Rock and Roll Hall of Fame, em 2024, falou precisamente desse organismo sem recorrer a teoria ou erudição musical. Disse que a banda começou de forma “simples, quase banal, nada electrizante”, em Charlottesville, em 1991, e que foi esse crescimento orgânico, sem atalhos nem pressa, que a transformou em algo “fenomenal, magnífico”. Falou como fã, não como celebridade. Alguém que acompanhou a banda ao longo de uma vida toda e que entende que aquelas canções nunca pertencem apenas a um disco.

John Mayer, outro devoto confesso da banda, definiu o fenómeno como procura: “a liberdade de saber que uma canção não termina só porque foi gravada”. E tudo começa, na verdade, com a arquitectura de Steve Lillywhite. Foi ele quem, nos anos 90, entendeu que o som daquela Charlottesville quase mística precisava de uma moldura que não a sufocasse. Lillywhite não se limitou a produzir, esculpiu a tensão entre a rítmica percussiva da guitarra de Dave e o caos controlado da banda. Em discos como Before These Crowded Streets, captou a “sujidade sofisticada e elegante” do seu som, a escuridão e a expansão que faziam da DMB algo muito mais perigoso do que a rádio deixava transparecer. O estúdio, sob a mão de Lillywhite, era apenas o parto. Por isso, a ideia de uma playlist “definitiva” é um exercício de futilidade. Mergulhar no arquivo dos Live Trax é aceitar que temas como “Warehouse”, “Bartender”, “Jimi Thing” ou “41” possuem múltiplas vidas. Se pegaros por exemplo em “Warehouse” nunca foi uma faixa estática. É uma estrutura aberta, cujas introduções e interlúdios mudam conforme a humidade da sala ou a electricidade entre Carter Beauford e Dave. O “N” de versões não é um detalhe estatístico, é a essência ontológica de uma banda que se recusa a ser um museu de si mesma.

A minha relação com a Dave Matthews Band começa em 1999. Lembro-me com nitidez do sítio e do momento em que me confrontei com a banda pela primeira vez. Estava no Algarve, na passagem do milénio, com amigos, e um deles tinha dois discos que circularam como objectos de revelação: Before These Crowded Streets e Dave Matthews & Tim Reynolds – Live at Luther College. Dois discaços. Um, o da banda em plena expansão e sombra; o outro, um exercício de despojamento absoluto de Dave e Tim, cordas, silêncio e respiração. Aquilo ficou-me para sempre gravado na memória. Depois, já nos idos de 2000, 2001, em plena faculdade, dei por mim com o Crash e com o Live in Chicago, e com a sensação clara de estar magnetizado por algo que não se explicava facilmente. Vieram as trocas de CDs com colegas e até com professores, quase como pedidos de desculpa: “desculpa, tens mesmo de ouvir isto”. Foi assim que a Dave Matthews Band entrou na minha vida, não como moda, mas como permanência.

Antes de tudo, há um elemento absolutamente central para compreender a Dave Matthews Band: a relação quase tribal que construiu com os seus fãs. Nos Estados Unidos, sempre foi evidente a dimensão gigantesca do fenómeno, apesar de uma estranheza inicial quase institucional. O próprio Dave Matthews admitiu em várias entrevistas que a banda nunca se deu particularmente bem com as rádios. Talvez porque não cabia em nenhuma categoria confortável: misturava rock and roll, jazz, blues e bluegrass, com violino eléctrico, sopros e uma secção rítmica que parecia vir de outro lugar. Era, e continua a ser, uma banda multiétnica e multicultural, liderada por um sul-africano branco, com uma identidade sonora que recusava a homogeneidade. Isso confundia o mercado, mas criava comunidade. Com o tempo, surgiram muitas bandas a ocupar esse território híbrido, como os Bela Fleck and the Flecktones a projectos mais recentes como os Goose ou os Vulfpeck músicos de um virtuosismo impressionante, por vezes reféns de um certo elitismo autoconsciente. Mas a Dave Matthews Band nunca caiu nessa armadilha. Creio que nem mesmo hoje em dia, quando se sente falta de uma certa alma em palco. Muito por mérito de um motor monstruoso chamado Carter Beauford, um dos verdadeiros pulmões da banda. E pela óbvia pulsão criativa do coração de Dave Matthews. A originalidade da sua guitarra é inquestionável. A escrita densa de canções como “Bartender” ou “Don’t Drink the Water”, também. E depois tem aquele carisma em palco ao alcance de poucos, de humor quase lennoniano, espontâneo, desarmante. Matthews tem a rara capacidade de escrever canções imediatas, quase ordinárias no melhor sentido da palavra. Canções que entram com facilidade e permanecem, servindo de porta de entrada para um universo artístico muito mais profundo.

Não escrevo isto com o deslumbramento de um novato. O meu mapa de escuta foi traçado em muitos palcos: vi o vigor dos AC/DC, a resistência do Boss, o génio de McCartney, o virtuosismo de Van Halen ou Satriani, o carisma transcendente dos Pearl Jam, a elegância de Rosa Passos, a grandeza literária de Chico Buarque e a inteligência melódica de Caetano Veloso. E, no entanto, o concerto de Maio de 2007, em Portugal, permanece como um ponto de rutura. Há concertos que impressionam e há outros que nos reorganizam por dentro. Aquele período, entre o final dos anos 90 e aquele último sopro de 2007, foi o despir final de uma identidade artística completa, um equilíbrio raro entre sofisticação complexa e urgência humana.

E aqui chegamos ao centro do silêncio: LeRoi Moore. Falar de LeRoi não é nostalgia de fã. É reconhecer uma ausência que tem peso físico. Era o narrador interno, o segundo cantor da banda. Onde o seu sucessor, Jeff Coffin, é um atleta extraordinário do instrumento, mais técnico, mais enérgico, mais prodigioso, LeRoi era o poeta da contenção. Compreendia o que Miles Davis chamava “o espaço entre as notas”. O seu saxofone tinha uma qualidade vocal, quase humana. Não competia com a melodia, iluminava-a. O fraseado de LeRoi tinha fôlego sem hesitação, sabia quando entrar e, mais importante, quando se calar para deixar a canção respirar. Jeff Coffin constrói catedrais de notas. Vão lá ouvir o solo de Coffin em Warehouse do Live in Rio. Avassalador. Mas a que a questão é que com LeRoi a banda soprava, uma espécie de fumo em orvalho. A perda de Moore não foi apenas a perda de um timbre, foi a perda de uma certa bússola criativa e emocional da banda. Algo na direcção mudou. Tornou-se mais fluido, talvez mais técnico, mas menos inevitável. É por isso que registos como Listener Supported ou Live in Chicago continuam a ser o nosso solo sagrado. Ali, beleza e perigo caminhavam juntos, sob um controlo que roçava o abandono.

A canção, na Dave Matthews Band, era um contrato em aberto. Uma promessa de que, naquela noite, tudo poderia ser diferente. Pode haver erro ou pode haver o sublime. Voltamos sempre a eles porque nunca entregam exactamente o mesmo. O arquivo que ficou é um monumento à liberdade. Aquele concerto de 2007 ensinou-nos que a música pode crescer connosco, envelhecer e mudar sem nunca se trair.

Isto é daquelas bandas que no seu “plateau” eram de um campeonato completamente à parte. Quando sais da sala, percebes que o disco não foi o alinhamento que leste no palco. O disco foi o que aconteceu dentro de ti enquanto eles tocavam. Julia Roberts resumiu isso de forma desarmante ao terminar a sua introdução no Hall of Fame: “não somos apenas fãs — somos devotos, pessoas que atravessam o país para estar ali”. É essa devoção que explica porque a Dave Matthews Band nunca toca a mesma canção da mesma maneira. A canção não acaba no estúdio. Para a Dave Matthews Band, dá-se lá apenas o seu nascimento. E é aí que ela começa a viver.

Tiago Pereira da Silva

Escrito por Tiago Pereira da Silva

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