play_arrow

keyboard_arrow_right

Ouvintes:

Principais ouvintes:

skip_previous skip_next
00:00 00:00
playlist_play chevron_left
  • play_arrow

    TunetRádio Cultura Primeiro

MÚSICA

Malammore traça um retrato “profundo” da identidade em “Aurora”

today02/01/2026 4

Fundo
share close

Aurora” é o disco de estreia de Malammore, nome artístico de Sandro Feliciano, cantor, compositor e produtor nascido em Lisboa, com lançamento a 16 de janeiro. O trabalho é uma narrativa autobiográfica e um testemunho sobre a experiência de ser um jovem negro em Portugal, abordando a “dificuldade de pertencimento e a resistência cultural no seu próprio país”.

É um testemunho da experiência negra em Portugal, do pertencimento e da alienação. Do amor e da perda. – Malammore

As letras exploram temas como amor, adoção, reflexões sobre a humanidade e a forma como o artista observa o seu lugar no mundo. “A ideia do álbum surgiu a partir de um caderno meu repleto de poemas, histórias e a forma como eu vejo-me neste mundo. É um testemunho da experiência negra em Portugal, do pertencimento e da alienação. Do amor e da perda”, explica.

Nascido em 2005, Sandro viveu dois anos sob a tutela do Estado português, até ser adotado em 2008 (ano que dá nome à segunda música do disco), momento que marcou um ponto de mudança em sua vida. Em “Aurora”, o músico utiliza como um dos conceitos centrais a ressignificação da imagem do “buraco negro”, invertendo-a para “buraco branco do mundo”, representação de um universo que apaga identidades. Ao preenchê-lo com a ideia de negritude, desafia narrativas dominantes e reestrutura o olhar sobre os corpos negros na sociedade.

O som funde hip hop, rap, trap e spoken word, a música falada, rompendo fronteiras estilísticas. Malammore traz como inspiração para o tom político presente nos temas figuras como Malcom X, Muhammad Ali, Angela Davis e Fela Kuti. O álbum foi gravado na Lisbon Sound Society, com produção, mistura e masterização de No Icon (Rodrigo Fernandes).

A ideia é que este álbum que sai da minha cabeça é como um perfume que vai borrifando rimas e conceitos para quem ouve. – Malammore

A arte da capa, intitulada “Pulverizador de Visões”, é do artista Marcos Barreira, e busca retratar o artista com um frasco de perfume. “A ideia é que este álbum que sai da minha cabeça é como um perfume que vai borrifando rimas e conceitos para quem ouve”, divide Malammore.

Faixa a faixa por Malammore

“Inter”: “No interlúdio, apresento-me enquanto artista, explorando o impacto que a arte tem em mim e as influências que me moldaram. É um percurso solitário e tumultuoso, narrado num tom político, revolucionário e intempestivo. Admito que preferia o amor ao ódio, mas o interlúdio termina com a sensação de que um conflito sem precedentes se avizinha.”

“2008”: “Essa música relata a história do meu processo de adoção. Fala sobre o desconhecimento de um bebê adotado e as questões que vão surgindo ao longo dos anos: a origem, as raízes, a identidade. É um mergulho profundo num processo psicológico repleto de memórias falsas e reconstruções inconscientes.”

“Reflexo”: “Aqui coloco-me no centro do mundo e observo tudo o que me rodeia. É o espelho da sociedade através do meu corpo. ‘Aos meus olhos, a arca de Noé virou jaula, à semelhança de todos nós dentro da sala de aula’. Esse é um dos meus versos favoritos, pois reflete como um espaço que deveria ser seguro e estimular o pensamento muitas vezes se transforma numa prisão, uma forma de boicote à identidade.”

“Não Quero Que Chores”: “Uma homenagem aos meus pais, por tudo o que me deram – cultura, educação, proteção. Durante 15 anos, conseguiram me blindar contra uma sociedade racista, permitindo que eu crescesse sem que a minha cor definisse todas as minhas vivências. Esta música reflete o momento em que a independência chegou e, com ela, a constatação de que a minha negritude se tornava o foco da minha existência, se sobrepondo a qualquer outra característica minha.”

“Dia 26”: “O dia 26 marca o fim de um relacionamento. Nessa canção relato um amor interrompido pela necessidade de me encontrar. Fala sobre uma experiência de prazer e felicidade que nunca chegou a ser plena, levando-me a uma decisão inevitável.”

“Tudo Passa”: “Um conjunto de reflexões sobre mim e sobre o impacto do mundo nas minhas ações. Luto diariamente para não ceder ao populismo e para encontrar um distanciamento dos media, numa busca renascentista por um pensamento mais livre. Esta canção é um alerta para uma sociedade cada vez mais entorpecida e incapaz de valorizar a arte.”

“Olhar Assim”: “Uma nova fase. Um olhar mais sorridente. Alguém novo entrou na minha vida e trouxe paz, preencheu um vazio. Ao mesmo tempo, essa canção é uma crítica a quem se incomoda com a felicidade dos outros e à banalização da intromissão na vida alheia. Vivemos numa exposição constante, onde a inveja e o ódio muitas vezes se sobrepõem à empatia.”

“Bela Cinderela”: “Uma conversa íntima que culmina numa saída à noite para a Tasca da Bela, em Alfama. Uma canção sobre desejos, peculiaridades e declarações de amor.”

“Raging Bull”: “Uma homenagem ao filme de Martin Scorsese e à música ‘La chanson des vieux amants’, de Jacques Brel. Tal como essas obras, a canção fala sobre o amor como um jogo de sorte e azar – um casino a céu aberto, onde se aposta o futuro de um casal.”

“Aurora”: “Uma reflexão póstuma sobre a minha primeira experiência com a morte. Como lidamos com a perda? Como ela nos molda ao longo da vida? Aurora é um lamento, mas também um renascer. Representa a aceitação das contradições da existência, o fim de um ciclo e o início de outros que virão.”

Malammore é o projeto musical de Sandro Feliciano, artista nascido em Lisboa em 2005. Filho biológico de pais desconhecidos até hoje, viveu os primeiros anos sob a tutela do Estado, até ser adotado em 2008 — um marco decisivo na sua identidade. Cresceu entre o Forte da Casa e a Póvoa de Santa Iria, onde encontrou na arte um espaço de pertencimento e reconstrução pessoal.

Iniciado no teatro aos sete anos, o artista integrou o Grémio Dramático Povoense até os catorze, seguindo depois para a Escola Profissional de Teatro de Cascais. Aos dezesseis, foi selecionado para a peça Casa Portuguesa, encenada por Pedro Penim no Teatro Nacional D. Maria II, onde fez a sua estreia num dos palcos centrais da cena portuguesa.

O teatro consolidou-se como um eixo da sua formação artística, sempre em diálogo com a escrita, que o acompanha desde a infância. Começou com pequenos textos e poemas influenciados por Fernando Pessoa, evoluiu para exercícios de autoconhecimento e, a partir dos dez anos, tornou-se uma prática contínua. Aos catorze, essas palavras passaram a ser musicadas, dando origem ao universo onde poesia e som se encontram em Malammore.

O primeiro passo oficial do projeto aconteceu em agosto de 2024, com o single Dia 26, seguido por NQQC, Rating Bull e Tudo Passa em 2025. Esses lançamentos anunciaram o caminho até “Aurora”, o primeiro álbum autoral de Malammore.

Fotografia de capa por Beatriz Silvestre.

Escrito por TunetRádio

Rate it