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    TunetRádio Cultura Primeiro

CRÓNICAS

No Destino do Poema

today02/12/2025 3

Fundo
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As memórias são seletivas e não sabemos como vão sendo criadas, nem sequer armazenadas. Algumas são feitas de imagens, outras de cheiros e sensações, e poucas conseguem ser expressas por palavras.
O poema vive num lugar semelhante ao das memórias. Chamaram-lhe poema porque sim, mas antes da escrita sempre existiram formas de poesia.
Nem toda a poesia pode ser expressa. É afinal impossível forçar a poesia. Mas não é inútil persegui-la.
Uma amiga dizia-me há dias que muitas vezes só quando desistimos de querer expressar algo, é que surgem as palavras certas. Estávamos a falar da vida, mas também estávamos a falar de poesia.
Não vale a pena forçar a poesia. Quando forçamos a poesia ela esvai-se por entre os poros da matéria para um lugar qualquer. Mas vale sempre a pena tentar perseguir a poesia e perceber os seus porquês.
Existir também é desistir.
Vivemos alienados no tempo. Um dia somos o funcionário da sobrevivência, no outro o patrão da soberba. A tecnologia digital veio acelerar e acentuar estes papéis, sufocando o nosso imaginário de visões que insistem em forçar a poesia. E a alma.
As instruções são declarativas e chegam até nós por servidores, data centres, dispositivos, sistemas operativos, aplicações, plataformas, linguagens várias e conteúdos.
A poesia esconde-se.
Quando forçamos a poesia ela esvai-se por entre os poros da matéria para outro lugar qualquer.
Fazemos amigos, marcamos encontros, criamos projetos, redes e comunidades dentro de um script que querem que acreditemos ser nosso, mas não há volta a dar ao sofrimento e à ignorância com que nos deparamos sempre que somos confrontados com a existência real.
Não vale a pena forçar a vida de poesia, pois a poesia é livre e, como a natureza, segue o curso das coisas simples tomando conta de tudo e de todos.
A poesia não morreu.
A poesia não morre nunca. Ela é parte do mistério da vida e da morte.
Um amigo meu teve um acidente de automóvel e, quando capotou, experienciou num segundo o flashback de toda a sua vida. Já a minha mãe me havia relatado o mesmo. Dizem que a sensação dura um segundo, mas é larga e bela o suficiente para conter todas as boas e más memórias de uma vida.
Tão bela é a vida nos seus altos e baixos, que queremos ficar.
Talvez as memórias sejam transformadas por nós em poesia. Talvez a poesia esteja escondida nas imagens, cheiros e sensações que estoicamente permanecem imutáveis, fiéis e invisíveis ao nosso lado enquanto vivemos a vida em flash forward.
Natureza das coisas impossíveis de serem expressas por palavras, mas apenas passíveis de serem perseguidas em consciência.
Como os poemas.
Que quando forçados se esvaem pelos poros da matéria para outro lugar qualquer.

Mme Matos, 29.11.2025

Escrito por Filipa Matos

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