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CRÓNICAS

Let it Bleed – Sangue & Slide

today26/10/2025 4

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Qualquer fã veterano dos Beatles ou dos Stones entende o ponto. O triste é ver esta nova geração chegar achando que “Let It Be” é o alfa e o ómega do rock, sem nunca ter encostado a agulha em “Let It Bleed”. Uma injustiça. E das grandes. Naquela gravação há uma espécie de liturgia profana: Jagger canta uma letra feita de carne e desejo, um evangelho lascivo que se arrasta como serpente profana — “yeah, we all need someone we can bleed on”. Depois, sem pudor, transforma o verso em desejo puro: “get it on rider… you can be my rider, you can cum all over me”.

O triste é ver esta nova geração chegar achando que “Let It Be” é o alfa e o ómega do rock, sem nunca ter encostado a agulha em “Let It Bleed”. Uma injustiça. E das grandes.

Ian Stewart, o pianista invisível dos Stones, mantém-se fiel à sua devoção — um piano sem protagonismo, mas que funda o tempo. E no centro, Keith Richards ergue a canção não como intérprete, mas como corpo. Primeiro a acústica, depois o slide em lâmina fabril que rasga caminho para as camadas elétricas. Cicatrizes sobre cicatrizes, até que a canção ganha espinha. Mas já lá iremos. Quando tudo vibra, Bill Wyman surge espectral sobre a harpa, quase inaudível, mas essencial. Ouvimos uma banda como os Stones desta fase e sentimos um rito. E depois há o coração rítmico: Charlie Watts, o monge zen do compasso. Nunca precisou de se exibir, pois era a própria definição de confiança. Economia sem fraqueza, elegância sem vaidade. Em Let It Bleed, entrega uma das suas performances mais clandestinamente brutais. Ao lado, Jimmy Miller, produtor-baterista, conhece a anatomia secreta da canção. Os dois sabiam quando apertar a veia e quando soltar o corpo. Charlie reconheceu-lhe o mérito por toda a vida: “ele fez de mim um melhor baterista de estúdio do que eu era”. A batida final, quase heavy metal primitivo, não é só energia: é martelo litúrgico. A bateria sela a canção ao chão, quando ela se entrega a voar.

Não sei se Keith Richards é ou não, a par de Clapton, o último guitarrista de uma era? Sei é que é sobretudo o último sacerdote de uma liturgia onde o altar é madeira e o sacramento dor. Os outros tocam para ser lembrados; ele toca porque é a única forma de continuar vivo.

Mas há algo de religioso em Keith Richards ter tocado “Let It Bleed” (daí a origem do título) literalmente até sangrar. Richards gravou-a com uma Gibson Hummingbird acústica e uma Maton Supreme Electric 777 em afinação aberta, provavelmente open D. O slide arranha o ar, metálico e impuro. Não há virtuosismo: há fricção, corpo. O som vibra como ferro contra madeira e é essa fricção que dá carne ao milagre. O corpo é a fiança que atravessa a porta onde o resto do mundo desiste. O sangue, aqui, não é colapso — é portal. Um eco quiçá de Robert Johnson: a guitarra como sacrário, corda bamba entre desintegração e milagre. “Let It Bleed” não é título. É instrução vital. Sempre que oiço aquele timbre sujo e luminoso, parece-me o coração a rachar as unhas para caber no corpo. Por trás do corsário ressequido que é Keith — profetizado morto quarenta vezes — não está a glória, mas a disciplina do animal que não abdica porque a música ainda não o deixou morrer. Muitos confundem longevidade com sorte. O que vejo é permanência como castigo sublime. Quem aguenta não é quem escapa, é quem regressa depois de pagar o preço. Se o rock é a sua religião, o riff é seu apóstolo. O dízimo, pago em sangue. Nada nele é decorativo: cada acorde custou-lhe um pedaço do corpo, uma fração da noite, um bocado da resistência. Quando acende o cigarro e dedilha a guitarra torta, não ouvimos música, assistimos a um organismo a manter-se vivo à força.

O mito de Keith costuma ser contado sempre pela metade: o pirata, o indestrutível, o corpo que se recusa a morrer. Mas o verdadeiro mito está no preço. O som só existe porque houve sangue antes da metáfora. É o que separa o gesto técnico do destino. O riff, nele, não soa a invenção, soa a osso, mandíbula, vértebra. A guitarra tornou-se âncora ontológica e enquanto houver som, há pulsação; enquanto houver riff, há presença. Por isso, aquele sangue não é romantismo boémio, é veracidade física. A prova de que a arte, quando é séria, não é ornamento. É só verdade. Não sei se Keith Richards é ou não, a par de Clapton, o último guitarrista de uma era? Sei é que é sobretudo o último sacerdote de uma liturgia onde o altar é madeira e o sacramento dor. Os outros tocam para ser lembrados; ele toca porque é a única forma de continuar vivo.

Tiago Pereira da Silva

Escrito por Tiago Pereira da Silva

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