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TunetRádio Cultura Primeiro
Começa hoje na cidade alemã de Hamburgo “a maior live performance” do conjunto português de ‘black metal’, como convidados especiais dos suecos Orbit Culture, naquele que é “um grande passo em frente” na ainda curta vida da banda, criada em 2016.
Em entrevista exclusiva à Tunetrádio, o vocalista dos Gaerea contou como surgiu a hipótese de fazerem parte da apresentação do novo álbum [Death Above Life] dos suecos, que também vão ter como conjunto suporte a banda Atlas, da Finlândia, ao longo de 30 concertos.
“Somos grandes amigos dos Orbit Culture já há alguns anos, já estávamos aqui a tentar fazer alguma coisa há algum tempo e esta nem foi a primeira tentativa de irmos em tour juntos. Sempre gostaram da nossa cena, nós também já gostávamos da cena deles há alguns anos e ficámos amigos de nos conhecermos em festivais. É malta mais ou menos da nossa geração, são putos a curtir a vida e a tocar por aí”, começou por dizer.
Depois, deu conta do que podem esperar os fãs da Alemanha, Polónia, República Checa, Áustria, Suíça, França, Reino Unidos e Escandinávia, locais onde será realizada a “maior” exibição “a nível de timeline e projeção”, após o lançamento de um EP (homónimo, em 2016) e de quatro álbuns (“Unsettling Whispers”, de 2018, “Limbo”, de 2020, “Mirage”, de 2022, e “Coma”, de 2024), sempre editados no estrangeiro. O quinto CD será lançado em 20 de março de 2026.
“Estamos a começar a promover o lançamento do próximo álbum [Loss], a promover o novo single [Hellbound], a começar as pré-vendas do novo disco, temos uma série de detalhes na nossa live performance que vão ser bastante diferentes na nossa turnê e, para todos os efeitos, é a maior que fizemos a nível de ‘timeline’ e projeção. Vamos estar a tocar em cidades em que nunca tocámos e algumas em que já tocámos, mas em sítios muito maiores, como o Bataclan [em Paris] e em salas bastante míticas. Para nós é um grande passo em frente e estamos bastante contentes de poder fazer finalmente”, revelou.
A atravessar uma “fase de metamorfose”, os Gaerea conseguem “tocar nos dois extremos”, ou seja, “no lado mais emotivo da performance, mas também no lado bastante extremo e agressivo da música” que produzem, segundo explicou.
“Estamos numa fase de metamorfose daquilo que sempre fizemos, não somos uma banda tão extrema, somos uma banda que tocamos um bocadinho mais do interior dos nossos próprios sentimentos, emoções e o álbum vai trazer muito disso, como já se notou no primeiro ‘single’ que lançámos em agosto, o ’Submerged’. O próximo tema também é bastante íntimo, mas também mais agressivo. Hoje em dia somos uma banda que consegue tocar nos dois extremos, no lado mais emotivo da performance, mas também no lado bastante extremo e agressivo da música que fazemos. Ir em tour com uma banda como Orbit Culture, que tem estes dois pólos bastante bem cimentados, faz desta tour um excelente pacote”, contou.
Embora reconheça que Gaerea e Orbit Culture são diferentes em muitos pontos, acredita que os fãs da banda sueca vão gostar do trabalho apresentado pelo conjunto luso.
“A partir do minuto em que anunciámos, a malta realmente diz ‘isto faz todo o sentido’, apesar de serem duas bandas diferentes, de países diferentes, cenas diferentes, vêm de um background diferente, têm muitos fãs que já gostam das duas [bandas] e que vão passar a gostar das duas. O nosso segundo objetivo é que os fãs deles passem a gostar de nós. É a tour deles, do álbum deles e para nós é incrível, porque vamos poder tocar para muita gente que não nos conhece”, declarou.
Atingir um “patamar de banda internacional” é fruto de muito trabalho de um conjunto que não caiu “nas altas graças de ninguém” e que não acreditava poder fazer esta tour há um ano atrás.
“Há coisa de um ano, se nos dissessem que íamos fazer esta tour, eu não acreditava. Trabalhámos muito para fazer todas estas coisas acontecer e a nossa banda não é de ter caído nas altas graças de ninguém. Nunca tivemos isso e tudo isto que vai acontecendo com a banda é algo que vamos planeando, mas retrospetiva não. Nunca achei que iríamos tocar no Bataclan, nem em teatros nos Estados Unidos com os Zeal & Ardor. Apesar de dar muito trabalho, quando realmente acontece, sabe bem. Não há muitas bandas a fazer em Portugal, nem por aí fora. Estamos agora num patamar de banda internacional que passou além-fronteiras e traz-nos esse gosto e orgulho de podemos trazer um bocadinho de nós e da portuguesice, digamos, ao resto do mundo. Dá-nos orgulho em ser uma banda portuguesa”, expressou.
Agora nas ‘mãos’ da editora alemã Century Media, após terem trabalhado com a italiana Everlasting Spew, a indiana Transcending Obscurity, chegando mais tarde a uma das maiores editoras de metal a nível mundial, a Season of Mist, o vocalista dos Gaerea não tem dúvidas de que, agora, há mais “liberdade para fazer muitas outras coisas” que nunca puderam fazer, mas deixou claro que, apesar de “outro tipo de projeção”, não dá para relaxar e “enjoy de ride”.
“[A editora] abre possibilidades para fazer ainda mais trabalho para estarmos mais ocupados e ter ainda mais responsabilidades. É bom e tem outro tipo de projeção, mas não que a gente possa sentar-se para trás e ‘enjoy de ride’. Cada vez mais a pressão está lá, temos de fazer bons discos, fazer boa música, música em que acreditamos. A Century Media traz-nos liberdade para fazermos muitas outras coisas que nunca podemos fazer, é uma editora que apoia totalmente os artistas que têm e vê-se isso nos artistas como os Lorna Shore, os Orbit Culture e Electric Callboy. Não somos a primeira banda portuguesa na Century Media”, lembrou.
E continuou, falando da amizade com os compatriotas de metal gótico Moonspell, uma “banda grande, extremamente inteligente e que abriu caminho”.
“Isto é um caminho que os Moonspell já traçaram há 30 anos. Foram das primeiras bandas na Century Media e é engraçado, porque somos bastante amigos dos Moonspell e para nós é um orgulho podermos fazer um bocadinho desses passos que já fizeram. Traz-nos possibilidade de termos mais trabalho, estamos muito convencidos que é uma excelente casa para os próximos anos, porque nos apoiam bastante. Nunca escondemos que temos um grande orgulho de termos uma banda como Moonspell em Portugal. Não é só uma banda grande, é extremamente inteligente, perceberam muito bem o que fazer desde muito cedo, numa altura que não havia sequer GPS para andar por andar aí fora e eles já iam com mapas. Abriram este caminho, como uma espécie de Vasco da Gama para nós e para outras bandas que tentam fazer. Aprendemos com eles, somos bastante amigos e partilhamos ideias. Nós tentamos ajudar em algumas coisas que fazemos e eles ajudam-nos também bastante. É tudo uma aprendizagem que podemos tirar destas bandas, não só deles, mas de outras bandas da altura deles e que tudo é possível com trabalho, muito sacrifício, aquele acreditar na tua música e não deixar para trás aquilo em que acreditamos para fazer as coisas acontecer. O início de banda é sempre muito complicado”, argumentou.
A vida em turnê para os Gaerea não se traduz só em tocar, mas também em conviver com os fãs locais, reconhecer o mundo em que a banda está inserida e “cultivar a alma”.
“É complicado, nem sempre dá para fazer. Hoje em dia conseguimos chegar a um ponto e estar nos sítios de manhã cedo. As tours na Europa são de tour bus, conseguimos chegar cedo aos sítios, estar às 10:00 da manhã já na cidade e ver uma pastelaria ou algo dos género. Ter um bocadinho de normalidade às vezes traz um bocadinho de calor à alma, nem que seja pegarmos em alguns fãs que estão connosco e eles próprios fazerem algum roteiro connosco. Ficam sempre contentes por nos levarem àquele sitio onde vão normalmente e tentamos fazer ‘listening sessions’ ou ir a lojas de discos das cidades. Sempre que dá para fazer um bocadinho de reconhecimento deste mundo em que nos inserimos e de conhecer um bocadinho do mundo das pessoas que nos seguem. Quando dá, vale a pena um bocadinho por estas coisas, não só por tocar, mas cultivar a alma, vermos outros países e tentarmos esse reconhecimento das coisas”, declarou.
Por último, falou dos concertos agendados para Portugal no final do ano, mais concretamente nos dias 04 e 05 de dezembro, no Hard Club, no Porto, e no Lisboa ao Vivo, respetivamente, duas exibições que se esperam bastante emotivas e com um ”nível de produção” que ainda não apresentaram em solo luso.
“Estamos a preparar algo bastante diferente, mesmo a nível de produção vamos fazer muitas coisas que nunca pudemos fazer em Portugal. Se há coisa que retirámos do concerto do Evil Live é que realmente estava a tardar este regresso, fazermos algo em casa, que foi sempre algo muito, se calhar contra nós, decidimos não fazer tanto, porque em Portugal o público demora muito tempo a reconstruir e não queríamos estar sempre a ‘melgar’ as pessoas com concertos iguais. Percebemos que isto vale a pena se realmente trouxermos algo diferente cada vez que viermos e, para uma banda como nós, é a cada dois ou três anos. Este regresso a casa, como estamos a chamar a estas performances, vai ser algo bastante emotivo para nós e de certeza que vão haver alguns momentos de recaída ali, que é o que estamos à espera com os nossos fãs em Portugal. Para nós é uma felicidade podermos voltar a Portugal em salas maiores com este calor que temos sentido com os fãs em Portugal de voltarmos a casa e fazermos algo importante. Sabe bem colher um bocadinho deste calor das nossas pessoas, porque há algum tempo que nos temos sentido um pouco emigrantes, se bem que muitos de nós nunca saíram do país. Sentimos sempre que Portugal estava a faltar aqui com algo realmente importante para nós e, desta vez, vamos fazer acontecer”, terminou.
Fotografia de capa cedida pela banda Gaerea.
Escrito por António Correia
Black Metal Gaerea Moonspell Orbit Culture