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    TunetRádio Cultura Primeiro

CRÓNICAS

Nascer Gigante ou Crescer Devagar

today04/09/2025 2

Fundo
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Toda a banda carrega um destes destinos: nascer gigante ou crescer devagar. Algumas entram no mundo com a violência de quem abre o céu ao meio; outras precisam de errar, sangrar e envelhecer até encontrarem a própria voz. A questão não é quem toca melhor — é quem grava o momento em que a vida inteira cabe num só disco. Algumas bandas chegam ao primeiro álbum como quem entra num campo de batalha: armas afiadas, olhos incendiados, sem pedir licença nem negociar o futuro. Como se soubessem que só teriam uma oportunidade de fazer barulho antes de o mundo fechar todas as portas. O primeiro grito pode ser bênção ou condenação. É a maldição da estreia: nascer gigante e passar o resto da vida a fugir da própria sombra. Os Nirvana ainda tinham ensaiado um “Bleach”, mas o verdadeiro nascimento aconteceu em “Nevermind”. A história da música nunca mais foi a mesma. É curioso pensar que esse disco, hoje consensual, foi no início recebido com reservas, como se fosse apenas mais um filho do grunge de Seattle. Na verdade, era a explosão que arrastaria toda uma geração. O riff inicial de “Smells Like Teen Spirit” não abriu só um álbum: abriu uma era, abriu uma ferida, abriu um túnel para onde todos se atiraram. Nunca mais se voltou a ouvir a inocência e a fúria na mesma respiração.

“In Utero”, de que aliás gosto mais, pode ter sido artisticamente mais radical, mas o mito já estava selado no grito inaugural. Os Nirvana viveram sempre aprisionados pelo impacto de “Nevermind”: a maldição não porque fosse impossível repetir, mas porque nunca mais seria possível nascer. O mesmo se passou com “Ten”, dos Pearl Jam. “Once”, não soa a abertura de álbum: soa a batismo. Eddie Vedder despeja a própria história como se fosse lenda e a banda constrói um altar de riffs, imediatamente, reconhecíveis em qualquer parte do mundo, ou não fosse o disco de “Alive”. Um álbum de pura melodia e espiritualidade. Foi tão completo, tão redondo, que ficou a impressão de que tudo o que veio depois era continuação ou fuga. A crítica torceu o nariz, chamou-o de bombástico, melodramático. Mas o tempo mostrou que aquele era o manifesto definitivo. Décadas depois, os Pearl Jam continuam a tentar escapar do labirinto de “Ten”, um disco tão completo que pareceu destinar a sua própria história logo no princípio.

Os Van Halen também não pediram licença. “Runnin’ With the Devil” abre o primeiro disco como se fosse um rapto: a voz de David Lee Roth a cortar o escuro, a banda inteira a soar como um manifesto em carne viva. Eddie, o meu primeiro herói musical, a cuspir faíscas de uma guitarra que já não obedecia às leis conhecidas. Reinventou a guitarra elétrica como quem constrói uma nova gramática para toda a humanidade do rock. A cada faixa, despejava-se a descoberta, sem gordura, só músculo, só pólvora. Um álbum de estreia que já antecipava o triunfo final, um relâmpago gravado na pele do mundo. “Van Halen II” foi quase uma continuação direta, mas as canções pareciam apenas mais rápidas. Depois disso a intensidade só regressaria em 1984. No período com Sammy Hagar, também conhecido como “Van Hager”, 5150 ainda tentou recriar o gesto inaugural, mas o raio já tinha caído. É a prisão do relâmpago: quando o primeiro disco é tão absoluto, não há céu que se repita.

Com os Beatles, a história foi outra. “Please Please Me” não foi uma explosão definitiva, mas apenas um retrato juvenil da sua era inicial: rock’n’roll de sobrevivência, melodias que vinham de um tempo de clubes apertados de Hamburgo ou Liverpool. O que espanta neles não é a estreia, mas a mutação. Nenhum outro grupo ensinou tanto sobre o que significa crescer com a pressão do público. De “Rubber Soul” a “Revolver”, de “Sgt. Pepper’s” a “Abbey Road”, cada disco era uma pele nova. Os Beatles não sofreram a maldição da estreia porque nunca nasceram prontos: reinventaram-se ano após ano, até se despedirem como deuses. Os Rolling Stones também seguiram esse caminho. O primeiro álbum não é lembrado como auge, mas como ensaio. O verdadeiro corpo só apareceu mais tarde, moldado pela estrada, pelo excesso, pela decadência. “Let It Bleed” e “Exile on Main St.” não são debuts, são conquistas tardias. É o oposto da maldição: é a dádiva do amadurecimento. Isto claro, se considerarmos que o último grande disco dos Stones é muito provavelmente de agosto de 1981 e o enorme “Tattoo You”.

Há ainda as bandas que só se tornaram elas mesmas muito depois. Os Deep Purple só encontraram identidade num estrondoso “In Rock” e o início da era conhecida como “Mark II”, já com Ian Gillan e Roger Glover. Os The Who, que já tinham faíscas no início, mas bem longe ainda da maturidade criativa de “Tommy” e “Who’s Next”. E por falar em The Who, continuo a tentar encontrar uma secção rítmica que supere a dos The Who dentro do género.

Algumas bandas não explodem na primeira respiração — precisam de tempo, de erros, de estrada. E há os que a morte interrompeu. Jimi Hendrix, com “Are You Experienced?” Já parecia ter reescrito a história, mas ainda tinha mais a oferecer. O génio arrebatador surgiu só em “Electric Lady Land”, mas com “Band of Gypsys” apontava uma outra direção: mais negra, mais densa, mais funk. A maldição da estreia, no caso dele, confundiu-se com a maldição da vida breve. O mesmo aconteceu com os Doors: já tinham tudo dito no álbum inaugural. Sim! Por mais que custe acreditar, mas “The End” é do álbum inaugural. Mas a morte de Morrison transformou essa primeira porta arrombada em lápide. E, no entanto, há quem veja em “L.A. Woman” o último fôlego maior, o apogeu de uma arte que só se revelou por inteiro na hora da despedida. Nestes casos, a maldição não é apenas estética — é biográfica, é destino. A crítica, claro, quase nunca vê o milagre no momento. “Nevermind” foi descartado como moda, “Ten” acusado de grandiloquente, “Van Halen I” visto como virtuosismo passageiro. Um grande álbum inaugural é sempre mais do que música: é um idioma novo. E todo idioma exige tempo para ser aprendido.

Talvez por isso o que mais me fascina não seja apenas o som, mas o silêncio que o antecede. O silêncio antes da agulha pousar em “Runnin’ With the Devil”. O silêncio logo antes do riff de “Smells Like Teen Spirit”. O instante suspenso antes de Morrison ordenar “Break On Through To The Other Side”. Esse vazio é o verdadeiro palco da maldição, porque nunca mais se grava um primeiro disco. Nunca mais se enfrenta o mundo sem contrato, sem dívidas, sem público. O primeiro álbum é a única vez em que a música respira sem consciência de si mesma. Como também não existe a condescendência de moldar a música ao gosto do público ou ao veredicto da crítica. E é por isso que tantas vezes se torna condenação: não porque seja impossível repetir, mas porque nunca mais será possível nascer.

Tiago Pereira da Silva

Imagens de capa com direitos reservados Nirvana/Geffen Records/Universal Music e Pearl Jam/Epic Records/Sony Music.

Escrito por Tiago Pereira da Silva

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