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TunetRádio Cultura Primeiro
Na noite de quarta para quinta-feira no festival Músicas do Mundo, o emblemático palco do Castelo de Sines vibrou com várias performances épicas – assisti a três delas – as suficientes para garantir que o FMM é ponto de passagem obrigatória a cada verão que passa. Lena d’Água abriu o coração dos presentes à tarde com canções que marcaram e continuam a marcar gerações. Julieta Venegas trouxe a sofisticação emotiva do trovadorismo moderno (sim, tem álbum de 2022, “Tu Historia”, e continua doce como sempre). Youssou N’Dour selou a festa com ritmos explosivos do Senegal antes de Bonga fechar a noite de atuações no Castelo. Três vozes, três universos, uma só celebração musical.
Lena d’Água subiu ao palco pouco depois das 18h00, envolta numa aura de intimidade e alegria contagiante. Disse-nos que estava tão feliz de estar ali e isso foi tão bom de sentir. A veterana pop portuguesa entregou versões renovadas dos seus clássicos (‘Vígaro Cá, Vígaro Lá’, ‘Demagogia’, ‘Robot’, ‘Dou-te um Doce’), com uma banda que soube equilibrar eletricidade e suavidade. A sua voz, ainda firme e cheia de carisma, emocionou a assistência e despertou aplausos espontâneos. Ouvimos ‘Hipocampo’ e ‘Pop Toma’, temas que têm dando um bom “empurrão” para a cantora voltar ao lugar onde pertence – as luzes da fama.
Houve quem não gostasse de a ouvir defender o fim do cruel transporte de animais vivos a partir do porto de Sines para Israel, mas isso não a impediu de continuar com os seus hinos veganos e tão pop que mesmo quem não tem sensibilidade para as questões ambientais e animais, não resiste a entoar ‘Carne Vegan’, do álbum do ano passado.
À noite o palco foi de Julieta Venegas, fina, muito menina, com tudo preparado para acolher a cantora mexicana como deve ser – afinal, foi a sua estreia em Portugal e eu, que a ouvia nas tardes de verão de sexta-feira depois de sair da faculdade Marginal fora, nunca pensei que a chegasse a ver ao vivo. São desses tempos ‘Limón Y Sal’ e ‘Me Voy’, a penúltima da noite a antecipar a sua despedida.
Envolta em acordes de acordeão e baixo suave, Julieta apresentou uma mistura refinada de temas mais conhecidos e músicas mais recentes do álbum de 2022, com arranjos que realçam a sua delicadeza lírica. Dos momentos altos destacam-se ‘Caminar Sola’, com a cantora a misturar a sua voz com as teclas, e ‘La Nostalgia’ que nos apresenta como uma canção do tempo em que a adolescência nos permitia sonhar sem limites, tudo embrulhado numa harmonia vocal contemplativa, como se conseguíssemos visualizar o que nos conta.
Julieta proporcionou uma interligação emocional, alternando entre o português e o espanhol (diz-nos, a sorrir, que “portunhol” vai ser a língua do futuro), num entendimento elegante com o público português. Cada canção foi acompanhada por uma simplicidade instrumental que deixou em evidência a sua voz delicada mas poderosa – perfeita para a acústica histórica do Castelo.
Com bastante atraso, o senegalês Youssou N’Dour tomou conta do palco e assumiu-se como um autêntico agitador de almas. Desde o primeiro minuto, os seus ritmos dominaram o palco, contagiando o público com batidas percussivas e harmónicas. A sua presença enérgica trouxe dança, cor e alegria, numa fusão cultural de rara intensidade.
O concerto de N’Dour destacou-se também pela prestação da sua backing vocal feminina que ecoou com bravura e expressão vocal. E portou-se lindamente a fazer as vezes de Neneh Cherry no eterno ‘7 Seconds’. A interacção com a plateia não foi muita, mas isso não impediu os presentes de erguer os braços, cantarolar e partilhar sons que cruzaram fronteiras linguísticas.
Em termos de produção, os concertos seguiram um crescendo natural: da nostalgia de Lena, ao intimismo de Julieta, culminando na euforia global de Youssou N’Dour e Bonga. A iluminação e cenografia acompanharam bem as transições.
Fica no ar a certeza de que, mesmo no final da 25.ª edição, Sines continua a cumprir a sua missão: aproximar culturas e ritmos globais num local mágico. E, numa só noite, ofereceu-nos vários ícones que escreveram história, de Portugal ao México, até ao Senegal – um claro reflexo do poder universal da world music.
Fotografia de capa por Mário Pires/FMM Sines.
Escrito por Daniela Azevedo
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