play_arrow

keyboard_arrow_right

Ouvintes:

Principais ouvintes:

skip_previous skip_next
00:00 00:00
playlist_play chevron_left
  • play_arrow

    TunetRádio Cultura Primeiro

CRÓNICAS

1980: O Ano do Espírito e da Carne

today28/06/2025 1

Fundo
share close

1980. Van Morrison e Bruce Springsteen mostravam que a música podia ainda ser maior do que a própria vida. Um abriu-nos as veias. O outro, as portas do invisível. 1980, o mundo já rodava em alta rotação e eu mal tinha chegado para lhe captar o tom. Era a ressaca de uma década com a alma feita em cacos e a esperança vendida a crédito. Os punks tinham cuspido fogo sobre os palcos, Lennon ainda servia de farol para quem sonhava com um regresso impossível, o disco colapsava sob o peso do seu próprio espelho e a América afinava as armas para entregar o comando a um ex-cowboy de estúdio. Mas sobre os palcos do mundo, dois homens lideravam liturgias diferentes, cada qual com o seu evangelho: Bruce Springsteen com a E Street Band e Van Morrison com a sua banda-catedral em Montreux. Em 1980, se eu tivesse idade para escolher, teria seguido o rastro do som até ao lugar onde a verdade ardia. E lá estavam eles — Van e Bruce — a música antes de qualquer outra linguagem.

Springsteen, em plena digressão de «The River» era suor destilado em forma de rock. Não havia pose. Havia urgência. Um duplo álbum que era uma carta de amor e um grito de desespero, um retrato cru de vidas operárias que recusaram viver pequenas, mesmo quando o mundo lhes pedia silêncio. Ao vivo, a E Street Band tocava sempre como se fosse a última noite sobre a Terra: Max Weinberg a disparar como um relógio nuclear, Roy Bittan a salpicar piano com sabor a céu aberto, Garry Tallent a colar o chão ao groove, e Clarence Clemons, o Big Man, a libertar o seu saxofone como reservatório de alma. E Bruce… Bruce gritava “Is there anybody alive out there?!”. E a pergunta não era retórica. Era o chamamento de um pregador que acredita que a redenção está algures entre o verso e o refrão.

Springsteen não escolheu entre Elvis e Dylan. Adotou os dois. De Elvis herdou o corpo em combustão, o palco como libertação. De Dylan, a palavra como uma bala certeira, o verso como trincheira. Um incendiava o palco, o outro incendiava o sentido. Bruce cresceu entre os dois, aprendeu a suar como Elvis e a escrever como Dylan. E é nesse cruzamento que a E Street Band se torna uma religião: músculo e mente, dança e palavra, ferro e fábula. Sim, Bruce é esse tipo de intérprete. A dor com músculos e veias. Pelo menos, foi sempre assim que o vi – com aço e ternura na mesma garganta. Springsteen canta como se cada perda fosse uma promessa quebrada em frente a um espelho, mas sem lamúria. Há um orgulho na dor, uma dignidade que ele transforma em hino. E ele, justamente, também um filho da noite e suas criaturas. Mesmo quando canta “Drive All Night” ou “Stolen Car”, há uma força subterrânea, como se nos dissesse: “isto magoa, mas eu aguento. E tu também vais aguentar”. A América podia estar de joelhos, mas ali, naquela noite em Detroit, ou Londres, ou Berlim, havia uma catedral onde todos podiam entrar desde que soubessem o caminho até ao refrão de “The Promised Land”.

Mas a verdadeira epifania de 1980 talvez tenha ocorrido noutro palco: no Festival de Jazz de Montreux, a 10 de julho, quando Van Morrison subiu ao palco com uma das formações mais possantes de que há memória. Se Springsteen era corpo, Morrison era espírito, não aquele das catedrais, mas o das ruelas de Belfast, das tabernas soul de Memphis, dos becos da mente onde o tempo é circular.

A sua banda parecia saída de um sonho febril: Pee Wee Ellis, ex-diretor musical de James Brown, no saxofone tenor, um monstro de groove e sofisticação e Mark Isham, no trompete e sintetizadores, a levantar neblinas cósmicas como se soprasse para dentro do universo. Duas teclas em permanente combustão: John Allair, com o seu toque gospel, e Jef Labes, uma sombra harmónica discreta mas essencial. Na fundação, o baixo funk de Jerome Rimson e, como um coração bicéfalo, duas baterias: Peter Van Hooke e Dahaud Shaar. Leu bem, o seu famoso set de duas baterias. Um duo rítmico que parecia respirar por pulmões distintos, mas sincronizados. Era uma parede de som com alma, onde “Troubadours” se tornava uma invocação e “Ballerina” uma oração jazz em câmara lenta. Van, como sempre, era lacónico. Cantava como quem escava e murmurava como quem já sabia o segredo. Não sorria. Ele nunca sorri. Não precisava. Havia sopros suficientes a fazer isso por ele. Enquanto Bruce oferecia redenção pela catarse, Van entregava silêncio entre notas. Um era esperança com as janelas abertas, o outro, contemplação com as cortinas corridas. E ambos, à sua maneira, lembravam-nos que a música ainda podia ser maior que a vida.

O que nos deram, então, esses concertos de 1980?

Deram-nos a certeza de que a alma humana ainda podia ser traduzida em som. Que o palco era, em última análise, o último lugar onde a verdade não se escondia. E que entre um saxofone em Nova Jérsia e uma tempestade de metais na Suíça, existia um fio invisível a unir os que ainda acreditavam que a música podia, de facto, salvar-nos de alguma coisa. É por isso que Springsteen se sente tanto. Porque ele não pede piedade, oferece companhia. Uma mão suada no ombro. Um grito que te arranca do chão. Canta como se estivesse sempre a tentar salvar algo: uma memória, um amor, um lugar que talvez já só exista dentro dele. Mas não cede. Leva-nos com ele até à exaustão. A sua verdade é suada, urgente, física. Bruce abre-te a porta do céu à força de refrão.

Já Van Morrison é outra coisa. É a alma a vaguear entre mundos, a dançar com o invisível. Uma voz que flutua, que sussurra mais do que afirma, que implora mais do que grita. Às vezes parece que vai quebrar, mas nunca quebra. Ele canta o mistério. Não quer explicar nada. Só te guia, como um velho druida, para dentro do nevoeiro. Ambos cantam e tudo soa a verdade. Só que um fá-lo com calos nas mãos e o outro com os olhos fechados.

E agora, em 2025, numa era em que todos os cantores parecem gemer, como é bom mergulhar 45 anos para trás. E eu, quando o fim chegar, já sei quem vou procurar para entrar. Porque um te leva até ao céu. E o outro já está lá à espera.

Tiago Pereira da Silva

Escrito por Tiago Pereira da Silva

Rate it