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CRÓNICAS

Bilhete Único para Lugar Nenhum

today27/05/2025

Fundo
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Ontem fui ao cinema. Corte Inglês. Fui ver o filme dos Led Zeppelin — ou talvez fosse um funeral. Não da música, que resiste ao tempo, mas das bilheteiras. Onde antes havia uma mulher de colete vermelho e olhar cansado, que ainda arriscava um “boa noite”, agora ergue-se uma máquina. Fria, azulada, com voz de plástico. Chamam-lhe “kiosk”, como se o anglicismo pudesse suavizar a perda. O balcão transformou-se num altar digital. “Bilhetes & Bar”, anuncia o letreiro, como se o futuro fosse um menu, uma happy hour perpétua entre o lugar marcado e a pipoca XL.

De pé, fixei o reflexo do néon no chão e lembrei-me do quadro Gas, de Edward Hopper: um homem solitário numa bomba de gasolina, cercado por silêncio numa estrada sem rumo. Hopper pintava a solidão americana como ninguém, mas podia bem estar a retratar este centro comercial em Lisboa, 2025. Ali fiquei, como um viúvo de profissões extintas. Gente em fila, lado a lado, mas sem se tocar. Todos com os olhos cravados no ecrã do telemóvel, porque já nem olhamos uns para os outros. Sou do tempo em que se dizia “enche aí o depósito” a um homem chamado Zé, de boné da Galp, que conhecia o nosso carro melhor do que nós. Agora, falo com uma bomba saída de um filme de Kubrick — funcional, impessoal, quase ameaçadora. Tudo é máquina e urgência.

No supermercado, as caixas automáticas substituíram as raparigas tímidas e os velhos resilientes. Os poucos humanos que restam trabalham por três, recebem por meio. Perdemos o contacto humano e não ganhámos empatia em troca. Tocamos num ecrã com o polegar em movimento perpétuo, mas já não tocamos nos outros. Pelo contrário. Nunca houve grandes conversas nas caixas do supermercado, mas havia alguém a quem podíamos lançar um protesto ou um sorriso. Agora, quando há erro, o erro és tu. As redes sociais prometeram proximidade, mas multiplicaram a distância. Ligam-nos para melhor nos separarem.

E pergunto: quem nos roubou a bilheteira?

E por favor não me venham dizer que foi a inteligência artificial. Talvez tenha sido a nossa pressa. A conveniência. Pagámos menos, perdemos mais. E foi talvez ali, entre o zumbido constante do ar condicionado e o tilintar de uma moeda que ninguém apanha, que me caiu a ficha — essa também já extinta — de que há profissões que desapareceram sem aviso prévio. Como se nunca tivessem existido.

Por quanto tempo mais teremos varredores de rua com nome e rosto? O revisor que sabe em que estação devemos descer? O carteiro que traz cartas, mas também o mundo lá fora? Hoje há drones, apps, algoritmos que te dizem o que ver, o que ouvir, o que comer. Já não escolhes — apenas deslizas. A inteligência tornou-se artificial. E a nossa humanidade, acidental. Com os trabalhos, evaporam-se também os pequenos rituais. Já não se pede um bilhete, imprime-se um QR code. Já não se deseja bom dia. Já não há troco, há sempre um beep. E outro. Até a espera mudou: antes, esperava-se numa fila. Agora, espera-se por uma notificação a vibrar no bolso. E ali estou eu, diante da máquina, enquanto à minha direita discutem o crescimento da extrema-direita nas últimas eleições. Subiu como um sintoma: num mundo desumanizado, cresce quem promete “ordem” e “identidade” como se fossem produtos na prateleira cinco, ao lado de algo sem glúten.

No quadro Nighthawks, também de Hopper, há um casal num bar às três da manhã. Estão juntos, mas não se veem. Hoje, cruzamo-nos nos mesmos lugares — centros comerciais, cinemas, autocarros — mas vivemos isolados. Esta cidade tornou-se um arquipélago da classe média. A “classe operária” tornou-se um conjunto de ilhéus periféricos, orbitando à margem de tudo. Já poucos lhes dizem que são bem-vindos. Mas toda a gente prefere que estejam assim — invisíveis. Em motas, à porta de restaurantes. Em fardas, nas sombras dos centros comerciais. Hopper pintava pessoas sós em espaços comuns. Bolas, fomos ainda mais longe do que isso: tornámo-nos comuns em espaços solitários. E talvez, quando as últimas profissões forem levadas pela maré de silício, como a minha – os professores, os condutores, os jornalistas — restem apenas os influencers e os cães de terapia. Um para entreter, outro para consolar. Mas não há cão que console o desaparecimento do humano.

No fim do filme, a guitarra de Page soou como um trovão. Um som antigo, de carne e osso, gritando que houve um tempo em que éramos presença, suor e barulho.
Agora, somos silêncio e touch screen.

Tiago Pereira da Silva

Escrito por Tiago Pereira da Silva

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