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TunetRádio Cultura Primeiro
Tenho “Abbey Road” tatuado no braço. Não é uma metáfora. É tinta na pele, mapa emocional gravado com agulha. A mais reconhecível passadeira de peões do mundo, o vinil, a derradeira travessia. Porque “Abbey Road” não é só o meu disco preferido dos Beatles — é o disco da minha vida. Há álbuns que gostamos. Este escolheu-me muito por culpa do meu irmão André. De todos os discos dos Beatles que amo – o intitulado “Álbum Branco”, o “Revolver” ou o “Sgt. Pepper’s” só, este, fez-me chorar literalmente em três músicas diferentes. Já vão perceber porquê.
Apesar de ter passado a vida a adiar este momento, eis-me aqui: diante da missão solene — e algo aterradora — de escrever sobre “Abbey Road”. Porque, convenhamos, o que se pode acrescentar quando já tudo foi dito sobre o último suspiro colectivo dos Beatles? Como se escreve sobre um monumento sem cair na redundância ou na reverência vazia? E no entanto, a vontade persiste. Talvez porque “Abbey Road” não é apenas um disco — é um capítulo final com gosto de renascimento, uma despedida que soa a eternidade. Só em curiosidades, dava para escrever um tratado: a última vez que os Fab Four estiveram juntos em estúdio; a capa sem nome e a teoria da morte de Paul; o medley do lado B e a canção escondida depois do fim; a sessão fotográfica improvável na passadeira mais famosa do mundo; a ascensão silenciosa de George Harrison ao patamar dos génios; a gravação à parte de “The Ballad of John and Yoko”; o estúdio como quinta personagem. E ainda assim ficaria muito por dizer.
Creio que foi no interessantíssimo podcast A History of Rock Music in 500 Songs que ouvi uma coisa que, apesar de óbvia, me marcou. Se por um acaso fores melómano, então serás seguramente fã dos Beatles. Não tens como gostar de música e não ir lá parar. Eles inventaram, de certa forma, o jogo de escrever uma canção popular. Quando nos apaixonamos pelos Beatles, gosta-se primeiro do John. É natural. É o mais cool. O que tem óculos redondos, um humor negro afiado mais íngreme da terra e uma morte mártir. Depois, vai-se percebendo que o motor criativo, o maestro melódico e o multi-instrumentista da banda é Paul. E finalmente, quando a poeira assenta, quando se volta aos discos com mais idade nos ouvidos e no coração, percebe-se que quem está lá sempre — como uma oração discreta — é George. “Abbey Road” é a consagração desse percurso espiritual.
“Here Comes the Sun” é, talvez, a canção mais solar da história da música popular — e não é só pelo título. O que George Harrison escreveu naquele jardim da casa de Eric Clapton, com uma acústica ao colo e um alívio nos ombros por ter escapado a mais uma reunião da Apple, não foi apenas uma música. Foi um renascimento íntimo. Em estúdio, os engenheiros contam que Harrison ficou eufórico com o resultado. O riff de abertura — em 7/8, depois 11/8, depois 4/4 — engana com a sua simplicidade aparente, mas é puro génio matemático emocional: uma primavera em compassos quebrados. A melodia sobe como quem espreita por detrás das nuvens. E depois há a ponte, esse “sun, sun, sun, here it comes” com os sintetizadores Moog a entrarem como partículas de luz. O que se ouve é um homem cansado, finalmente a sorrir. Em “Here Comes the Sun”, Harrison canta “Little darlin’, I feel that ice is slowly melting” (a sua voz é de nos levar às lágrimas) e há ali um derreter real, físico, como se a frase, na sua voz, libertasse toda a tensão que a banda acumulava há anos. E, acredite-se ou não, é a canção mais ouvida dos Beatles em plataformas de streaming como o Spotify. Não é “Hey Jude” ou “Let It Be”, imagine-se só. Talvez porque “Here Comes the Sun” é o que todos procuramos, sempre: um começo novo, uma certeza de que a luz há de voltar.
Em “I Want You (She’s So Heavy)”, o lamento possessivo de Lennon é quase sufocante. Não tem refrão, não tem alívio — é uma obsessão que cresce sem controlo. Mas é naquela parte em que ele nos diz ao 01:30 “I want you so baddd”, arrastado, que tudo se torna insuportavelmente humano. Um grito íntimo. E o final abrupto da canção, como se alguém puxasse o cabo da realidade, deixa-nos no escuro. A obsessão de Lennon estendia-se também à parte técnica: pedia ao engenheiro que aumentasse o peso da guitarra. Mais fuzz, mais densidade. O que nasceu foi um hino proto-metal que antecipa Black Sabbath e talvez até o grunge. Há lá até uma voz oculta, soterrada na mixagem, que só se ouve com fones — ou febre. Detalhes assim não são comuns numa banda que já sabia que estava no fim.
“Oh! Darling”, por sua vez, mostra um McCartney como raramente se ouviu. Ele entrou dias a fio em Abbey Road para gravar a voz até esta soar suficientemente “rouca”, suficientemente sofrida para estar à altura do que estava a cantar. Queria que soasse como algo atravessado pela alma. Não era teatro: era disciplina emocional. A entrega é crua, quase blues. É McCartney num registo à la Ray Charles que nunca mais repetiria — uma performance soul/rock onde o controlo técnico e a emoção convivem no limite. Vão lá ouvir a parte em que ele nos canta “Oh Darling, please believe me, I’ll never Lettttt you down”. O que os outros meninos fazem lá atrás no background vocals também não vos irá deixar indiferentes. “Something” é outro caso raro. A composição de Harrison atinge (ou até supera) o nível da bitola Lennon/McCartney em “Abbey Road”. Frank Sinatra disse que era “a melhor canção de amor alguma vez escrita”. E era. George, o discípulo calado entre dois irmãos mais velhos, tornou-se mestre no momento certo. Deixou de ser o guitarrista com um tema por disco, para passar a ser uma das colunas que seguram o templo.
“Abbey Road” também é estrutura. Arquitetura pop. O lado A do disco abre com “Come Together”. O lado B fecha com “The End”. Ambos os lados começam com a palavra “Here come” — um acaso poético? Talvez. Ou talvez mais um sinal de que tudo em “Abbey Road” é pensado. Porque o disco é também uma construção: da faixa inicial ao medley final (que vai de “You Never Give Me Your Money” até “The End”), há uma narrativa disfarçada, uma ópera pop que atravessa géneros, humores e rupturas. A história já foi muitas vezes contada: “Let It Be” foi lançado depois, mas “Abbey Road” foi a última vez que os quatro estiveram em estúdio como banda, curiosamente com “I Want you” de Lennon. Com produção de George Martin e uma sensação constante de “isto é o fim”, o disco transforma-se num testamento artístico. E, no entanto, soa como um renascimento. Como um disco de primavera.
Há um vídeo no YouTube que analisa “Here Comes the Sun” e diz que é uma “gateway song” — uma canção-ponte, um chamamento universal para quem ainda não ama os Beatles. Não podia estar mais de acordo. É uma canção que parece existir fora do tempo, à espera de cada geração. E “Abbey Road”, no seu todo, tem esse poder: parece um adeus que nunca se despede, um último gesto que permanece no ar. Em 1991, quando “Nevermind” e “Ten” transformavam adolescentes em tribos, havia ainda quem, como eu, descobrisse “Abbey Road” como quem encontra uma carta escrita só para si. Esse miúdo tatuou o disco no braço. Para nunca se esquecer que, às vezes, uma canção é tudo o que precisamos para nos sentirmos vivos.
Tiago Pereira da Silva
Escrito por Tiago Pereira da Silva
Abbey Road Crónica The Beatles Tiago Pereira da Silva