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    TunetRádio Cultura Primeiro

CRÓNICAS

Trump e o regresso do fascismo

today24/01/2025 1

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A política é, sempre e sempre, um reflexo do tempo em que vivemos. Já tenho dito diversas vezes, aqui, que o fascismo parece estar na moda. O neorreacionarismo gritante que tomou conta de certos sectores da sociedade é cada vez mais legitimado pela amálgama em que se converteram todas as direitas no mundo (a democrática e a extremista). Este cenário reflete uma preocupante ascensão de discursos que antes eram marginalizados e que agora ganham espaço na política actual. Avançados que estamos na terceira década deste novo milénio, que é como quem diz passado o primeiro quarto de século, nunca, como agora, tantas mulheres, migrantes e minorias em geral foram decadentemente perseguidas por essa tal direita neorreacionária. Não sei se por se sentirem ameaçados… sei é que a nossa diferença é muito mais de constatação moral e cívica, do que politica. Qualquer progressista que se cuide, a nossa luta não vai ser sempre bonita e veio parar durar.

O inesquecível Primo Levi tem uma passagem de que gosto particularmente e quem diria, reflete um pouco daquilo a que muitos já chamam uma quase repetição da história: «os monstros existem, mas são muito pouco numerosos para que sejam verdadeiramente perigosos. Perigosos são os homens comuns, os funcionários dispostos a acreditar e a obedecer sem discutir”. Nem vos preciso dizer em quem é que estou a pensar, pois não?

A ascensão de Trump só foi surpreendente para quem anda distraído com a política. Com seu estilo provocador e sua habilidade em manipular a narrativa, trouxe à tona uma nova forma de mediocridade: a mediocridade do espetáculo, onde a forma se sobrepunha ao conteúdo e a performance se tornava mais relevante do que a substância.

Há uma fotografia do dia da tomada de posse de Donald Trump que é bastante elucidativa da primeira frase deste texto, que agora ganha forma. Na imagem vêem-se quatro, dos cinco homens mais poderosos do mundo. Pelo menos um deles, Elon Musk, emerge no cenário político, não apenas como empresário de gigantesco destaque, mas também como influente actor político. Trump, que prometeu na campanha inaugurar “uma era de ouro” para o país, ao aliar-se aos oligarcas mais “temidos” do mundo (conhecidos também por seu apoio financeiro a líderes da extrema-direita na Europa) ao mesmo tempo que persegue politicamente os mais vulneráveis, a franja mais frágil da sociedade – como os migrantes – parece com isso querer dizer ao mundo que pouco lhe importa a erosão dos valores democráticos. É a aceitar para si mesmo a mediocridade e o mal disfarçado de populismo e inovação. A aliança entre poder político e influência empresarial, exemplificada pela relação entre Trump e Musk. Quando líderes que deveriam zelar pelo bem comum se associam a figuras que promovem divisões e preconceitos, toda a sociedade parece estar ameaçada numa certa medida. O problema é que uma certa esquerda, que preferiu abraçar o wokismo e a sua agenda paternalista e moralista, que ocupam hoje, muito do espaço que era ocupado pela direita conservadora dos anos 1960 do século passado, deixaram demasiados eleitores órfãos.

Como diria o sempre actual Frédéric Gros «Aceitámos o inaceitável». Howard Zinn ou Wilhelm Reich diriam agora: «a verdadeira questão não é sabermos o motivo porque as pessoas se revoltam, mas porque não se revoltam». Mas estes autores falavam de como a fome e as injustiças sociais deveriam ter provocado muito maior agitação cívica. Os actores políticos de hoje, transformaram a insubordinação em medo, em mediocridade, em loucura. Entenda-se o rumo catastrófico que uma certa desobediência cívica, pelos homens e as mulheres de hoje, À luz de certos construtos políticos, deu origem a ataques a instituições democráticas sagradas como se viu recentemente em Brasília ou na América Trumpista com o ataque ao Capitólio. Aliás o mesmo Trump que é absolutamente implacável com os tais milhares de imigrantes desesperados e que precisariam de apoio na integração, e, totalmente predulário e condescendente com os seus apoiantes, criminalmente acusados no ataque ao Capitólio. É a tal normalização de gestos e retóricas extremistas na suas múltiplas vidas.

Tiago Pereira da Silva

Imagem de capa por Hoekstrarogier.

Escrito por Tiago Pereira da Silva

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