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Cascais compra duas pinturas de Paula Rego

Escrito por em 02/08/2022

A Câmara de Cascais vai comprar este ano duas obras de Paula Rego (1935-2022), intituladas “Day” e “Night”, para o acervo da Casa das Histórias, dedicada à divulgação da obra da artista, revelaram hoje fontes ligadas a esta entidade.

Contactado pela Lusa, o presidente da Fundação D. Luís I, Salvato Teles de Menezes, membro da comissão paritária responsável pela atividade da Casa das Histórias Paula Rego (CHPR), em conjunto com Nick Willing, filho da pintora, precisou que a negociação com a família da artista decorria há algum tempo.

De acordo com Teles de Menezes, estas serão as primeiras obras de pintura adquiridas pela autarquia para o acervo da CHPR, inaugurada em 2009 para acolher, preservar e divulgar a obra da artista plástica portuguesa, composto atualmente por cerca de 600 gravuras e desenhos, contando com o universo inicial e doações posteriores da pintora – um acervo protegido pelo protocolo fundador, renovado até 2029.

“Há algum tempo que a câmara tem vindo a manifestar a intenção da aquisição à família de Paula Rego, e deverá ser concretizada até à inauguração da próxima exposição dedicada à obra da artista”, uma das mais conceituadas pintoras portuguesas, falecida em junho, em Londres, aos 87 anos.

Prevista para inaugurar a 27 de outubro, a exposição terá por título ”Histórias de Todos os Dias: Paula Rego – Anos 70”, com obras da pintora, provenientes de Londres e do acervo da CHPR, em paralelo com outra mostra, em diálogo com obras da artista Salette Tavares (1922-1994).

Contactado pela Lusa, Nick Willing confirmou a negociação com a Câmara Municipal de Cascais, e que as duas obras em causa, “de grandes dimensões, criadas nos anos 1950, são emblemáticas” do percurso de Paula Rego. Disse ainda que, embora tenham sido pintadas em Londres, estiveram expostas nas paredes da fábrica do pai da artista, em Lisboa.

“O nosso interesse é vender algumas obras a preços mais acessíveis ou doá-las a instituições que as acolham com as melhores condições, e que nos garantam que serão expostas ao público. Esse é o nosso principal objetivo”, disse o realizador, acrescentando que a família de Paula Rego quer “tentar também, sempre, que as obras vendidas sejam expostas na Casa das Histórias”.

Paula Rego morreu a 08 de junho, em casa, rodeada pelos filhos e, nesse mesmo dia, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, depois de manifestar pesar pelo desaparecimento da pintora, destacou a importância da compra de obras da artista pela Fundação Calouste Gulbenkian, pedindo ao Estado e privados que completassem essa iniciativa.

Em janeiro deste ano, a Gulbenkian tinha anunciado a aquisição das obras de Paula Rego “O Anjo”, de 1998, e “O Banho Turco”, de 1960, duas das mais emblemáticas do percurso da pintora, tornando-se a instituição privada com “o maior e mais significativo acervo da artista, constituído por 37 obras”, sublinhou, na altura.

No último fim de semana, o semanário Expresso noticiou que o futuro da CHPR estaria “em risco”, porque as pinturas que se encontravam em empréstimo têm estado a ser “gradualmente retiradas”, e recordou um alerta feito em 2020 pelo colecionador de arte Francisco Capelo, sobre um “esvaziamento progressivo” da casa dedicada à obra da pintora.

Questionado pela Lusa sobre estes alertas, Salvato Teles de Menezes disse que, de acordo com o protocolo da criação da CHRP e da sua renovação, até 2029, “embora a Câmara de Cascais seja a proprietária do acervo, não pode vender nenhuma das suas obras”, inicialmente composto por 535 gravuras e desenhos, e ao qual a própria pintora fez mais doações, nomeadamente de 28 gravuras, em 2019.

No acordo inicial, “não havia pinturas [no acervo], porque não estava previsto, mas Paula Rego foi bastante generosa ao oferecer gravuras e desenhos, que são únicos”, salientou o presidente da Fundação D. Luís I, entidade responsável pela gestão logística, administrativa e financeira da Casa das Histórias, cujo financiamento também é da autarquia presidida por Carlos Carreiras.

A Casa das Histórias “foi sempre exatamente aquilo que Paula Rego e a família quiseram: um lugar dedicado ao estudo, investigação e divulgação da obra da pintora, e não um museu com uma coleção permanente”, sustentou, acrescentando que algumas obras emprestadas regressaram a Londres, “antes que endurecessem os processos aduaneiros com o impacto do Brexit”.

No entanto, reiterou que o quadro da programação da CHPR vai ter continuidade, nomeadamente em outubro deste ano, “com empréstimos de mais obras da coleção da família” de Paula Rego, que possui cerca de 120 pinturas e 2.000 desenhos da artista, números indicados por Nick Willing à Lusa.

O filho de Paula Rego avançou ainda que em 2023 estão previstas 22 exposições dedicadas à obra de Paula Rego, um pouco por todo o mundo, onde serão apresentadas obras da coleção da família e do acervo da Casa das Histórias.

“Não é verdade que a Casa das Histórias está em risco ou a ser esvaziada de obras”, refutou Nick Willing, acrescentando que o museu “nunca esteve tão bem, com cerca de 200 visitas diárias e 400 ao fim de semana”.

Também sublinhou que a CHPR “não foi criada como um museu, com coleção permanente, justamente para evitar que os portugueses vão conhecer uma vez e não voltem: o objetivo inicial era, e continua a ser, a realização de duas grandes exposições por ano completamente novas”.

Por seu turno, Teles de Menezes indicou que na CHPR estão ainda em depósito 14 obras de Paula Rego pertencentes a colecionadores privados, garantindo que “é o lugar com condições ideais para acolher as obras da artista, sejam de colecionadores privados, sejam do Estado”.

Ao longo dos anos, a CHPR tem recebido vários pedidos de cedência de obras de Paula Rego para exibição em exposições, nomeadamente na Europa e nas Américas. Entre os pedidos, estão instituições de referência no estrangeiro como a Pinacoteca de S. Paulo, no Brasil, o Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, no México, a Tate Britan e a House of Illustration, em Londres, Reino Unido, o Musée d’Arts Contemporaines, em Marselha, e o Musée de L’Orangerie, em Paris.

A Fundação D. Luís I é a entidade responsável pela gestão dos equipamentos culturais da câmara de Cascais, um conjunto que também inclui o museu dedicado a Paula Rego, cuja área artística é da responsabilidade da coordenadora da Casa das Histórias, Catarina Alfaro.

Cabe à curadora preparar a programação e as exposições, e de apresentar o seu plano a uma comissão paritária composta por Nick Willing, filho de Paula Rego, e do próprio presidente da Fundação D. Luís I, Salvato Teles de Menezes.

Nascida em Lisboa, a 26 de janeiro de 1935, numa família de tradição republicana e liberal, Paula Rego começou a desenhar ainda criança, um talento que lhe foi reconhecido pelos professores da St. Julian’s School, em Carcavelos, e partiu para a capital britânica com 17 anos, para estudar na Slade School of Fine Art.

Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, para fazer pesquisa sobre contos infantis, em 1975, e, em Londres, conheceu o futuro marido, o artista inglês Victor Willing, cuja obra Paula Rego exibiu por várias vezes na Casa das Histórias.

A Casa das Histórias, que abriu em Cascais em 2009, num edifício construído de raiz, com projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura, tem vindo a realizar uma programação de exposições do trabalho da pintora e de outros artistas, sobretudo portugueses, com quem a pintora tinha afinidades.

Na sua obra, Paula Rego abordou temas políticos, como o abuso de poder, e sociais, como o aborto, entre outros do universo feminino. O seu trabalho foi influenciado pelos contos populares e pela literatura, nomeadamente a escrita de Eça de Queirós, que a levou a pintar quadros inspirados em livros como “A Relíquia” e “O Primo Basílio”.

Em 2010, foi ordenada Dama Oficial da Ordem do Império Britânico pela rainha Isabel II e recebeu, em Lisboa, o Prémio Personalidade Portuguesa do Ano atribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

Paula Rego recebeu, em 1995, as insígnias de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 2004, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e, em 2011, o doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade de Lisboa, título que possui de várias universidades no Reino Unido, como as de Oxford e Roehampton. Em 2019, foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura.

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