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Bia Ferreira vê na violência “maior entrave”

Escrito por em 29/07/2022

A cantora brasileira Bia Ferreira, que dá voz à comunidade LGBTQIA+, contra o racismo e a xenofobia, diz que a violência é o seu “maior entrave”, mas acredita que a sua música serve para “despertar o sentido critico” do público.

“As pessoas estão muito habituadas a apenas consumirem aquilo que já é mastigado para elas, não conseguem mastigar e falar qual o sabor que tem. E como as pessoas estão habituadas a só engolirem o que é dado, é muito difícil que se crie um sentido crítico”, alertou.

Numa conversa que concedeu à agência Lusa, depois de um concerto no Festival Músicas do Mundo (FMM), que termina no sábado, em Sines (Setúbal), a voz do conceito “Música de Mulher Preta” (MMP), destacou a importância de se combater a disseminação das ”’fake-news’”.

“Acho que as ‘fake-news’ têm sido disseminadas de uma forma onde as pessoas, com menos informação, acreditam naquelas notícias e as pessoas com mais informação são as que manipulam essas informações para que elas sejam passadas falsamente”, defendeu.

Este é, de resto, um dos fenómenos que tem criado contratempos na mensagem que a artista pretende passar, dando o exemplo de “pessoas que são resistentes” ao seu discurso e que têm “dificuldade em entender” que “as opiniões diferentes” podem ser debatidas.

“As pessoas que normalmente não concordam partem para a ignorância e a violência. Então, sofro muitas ameaças, sofro ataques nas redes sociais, sofro ataques públicos; em concertos já aconteceu das pessoas quererem jogar coisas para o palco e de pessoas não concordarem mesmo com o que eu digo”, relatou.

A “falta de acesso à informação deixou as pessoas ignorantes e as pessoas partem para a violência com uma facilidade muito grande, então acho que a violência é o maior entrave que tenho para continuar fazendo o que faço, embora eu não tenha medo, continuo fazendo”, garantiu.

“Nessa minha vinda para Portugal me deparei com uma realidade diferente de várias pessoas que não conheciam o meu trabalho, passaram a conhecer por conta de matérias de jornais, e começaram a atacar-me, a ameaçar a minha segurança e a tentar amedrontar-me, até de sair à rua, em Lisboa”, denunciou.

Para a compositora e multi-instrumentista, ainda vivemos num mundo “preto e branco”, porque “a diferença, ainda é gritante, a desigualdade ainda é gritante, as mortes ainda são gritantes” e, no Brasil, este ambiente intensificou-se com a eleição de Jair Bolsonaro.

“Legitima esse tipo de discurso, legitima o ódio, legitima a violência, legitima o preconceito, faz com que as pessoas percam o medo de destilarem o seu preconceito. Ter uma pessoa no cargo máximo do executivo brasileiro faz com que as pessoas se sintam livres para praticar violência”, justificou.

O “desgoverno” que se vive no Brasil “vai-nos dar muitos problemas”, admitiu a cantora ativista, apoiante de Lula da Silva, que se referiu a Bolsonaro, no passado, vincando que o país “vai demorar muito tempo para recuperar os quatro anos de atraso”.

“Ele [Bolsonaro] nunca me representou, nunca foi presidente. O Brasil vive um desmando desde que esse homem assumiu. Então nós vivemos um desgoverno, não há governo no Brasil desde que ele assumiu, então agora a gente está buscando um espaço onde” seja possível “reconstruir as ruínas que foram deixadas nestes últimos quatro anos”, argumentou.

No entanto, reconheceu que o futuro não será fácil e afiançou que o Brasil “ainda vai ter de lidar com esse fanatismo”, porque “vai haver resistência” na viragem “dessa página”. “A gente ainda vai ter de lidar com esse fanatismo, com as pessoas que saem armadas nas ruas, com as pessoas que são violentas, com as ‘fake-news’, com os ‘robots’ da internet, ainda temos muito para lutar, mas acho que a partir do momento em que a gente vira essa página, encontramos um pouco mais de repressão a esse tipo de discurso genocida e preconceituoso”, adiantou.

A artista elogiou ainda o público do FMM, onde diz ter dado “um dos ‘shows’ mais bonitos” desde que atua em Portugal, e onde conseguiu reunir “várias pessoas dispostas a encontrar informação na arte”.

“Espero que tenham saído daqui transformadas, assim como eu saí. Acho que foi um dos shows mais bonitos que fiz, de todas as minhas vindas para Portugal. Desde 2018 venho todos os anos para fazer concertos e este foi, de longe, um dos mais bonitos que já fiz. Estou saindo daqui muito feliz, alimentada, com o coração cheio de esperança, para construir e continuar construindo este tipo de arte que faço”, concluiu.

Bia Ferreira vai regressar a Portugal em setembro, para três concertos no âmbito da sua digressão europeia, atuando no palco do B.Leza, em Lisboa, em 10 de setembro. Antes, dia 04, estará na Festa do Avante!, no Seixal), e no Mou.co, no Porto, no dia 05.

Bia Ferreira surpreendida com deturpação de discurso por ir à Festa do Avante!

A cantora brasileira Bia Ferreira, que vai atuar na Festa do Avante!, em setembro, mostrou-se “surpreendida” com a “deturpação” do seu discurso, assumindo que luta todos os dias pela “emancipação” dos povos em guerra e pela paz.

“Surpreendida pela deturpação do que digo e do meu discurso”, disse a artista, “que dá voz à comunidade LGBTQIA+, contra o racismo e a xenofobia”, minutos depois da sua atuação no Festival Músicas do Mundo, que está a decorrer, em Sines, no distrito de Setúbal, em declarações à Lusa.

Além de assumir que “não esperava esse tipo de retaliação”, a cantora e ativista esclareceu que não responde “por um partido político”, mas apenas e só pela sua “arte” e pela sua “vivência”.
“Só respondo pela minha arte, pelo que falo e pelo que vivo, mas muito me espantou o incómodo das pessoas, me responsabilizando inclusive pela guerra” na Ucrânia, lamentou.

Ao reagir, nas redes sociais, contra as vozes que a criticam por participar na Festa do Avante!, em setembro, a também compositora e multi-instrumentista, quis explicar que é “totalmente contra a guerra” na Ucrânia, mas que também vive num conflito desde que nasceu.

“Quando me posicionei não estava dizendo que não estou nem aí para a guerra, estava dizendo que a Ucrânia está em guerra, que sou totalmente contra a guerra, mas que vivo numa guerra desde que nasci na favela, no Brasil”, frisou.

Para Bia Ferreira, “acordar com um corpo no beco, com bala de ‘fuzil’ na porta de casa, não é normal para um país que não está em guerra, então estou em guerra desde que nasci” e, por isso, “falo da minha vivência”.

“Se a morte das minhas pessoas no Brasil não incomodam, vou estar aqui para falar por elas. Não posso falar pelo povo ucraniano, enquanto o meu povo está morrendo, embora lute também pela emancipação dessas pessoas, para que a guerra acabe, porque a paz é o que a gente conseguiria pensar, utopicamente, o nosso ideal”, defendeu.

Questionada sobre os palcos onde atua, Bia Ferreira é perentória: “Se um bolsonarista me chamasse para tocar, não sei se iria. Não depende do palco, não. Mas, entendendo que embora o partido [PCP] tenha vários posicionamentos que a gente possa questionar”, houve lutas a que não pode ser indiferente.

“Entendo que o direto ao casamento LGBT aqui aconteceu por conta do PCP [que votou a favor no Parlamento com PS, BE e PEV], que o acesso do trabalhador a vários direitos também veio a partir dessa luta, então não posso anular isso também. Gostaria de deixar registado que não sou comunista, mas acredito na emancipação do proletariado, das pessoas pobres, a partir da cultura, da informação e do afeto, e qualquer aspeto que me possibilite falar com essas pessoas, eu vou ocupar”, defendeu.

Insistindo que luta “pelas pessoas que têm a [mesma] vivência”, a artista das causas reconheceu que não pode “influenciar ou interferir na guerra que há entre a Rússia e a Ucrânia”, mas pode “fazer a diferença” para o seu país e para “as pessoas que se parecem [consigo], que estão morrendo”.

“Se for interessante noticiar o genocídio da população preta no Brasil, podem me chamar que eu vou falar, porque se você pesquisar no Google vai ver que a morte de civis e policiais no Brasil é maior do que civis e policiais na Ucrânia ou na Rússia, mas não geram a mesma comoção”, vincou.

E deixou a mensagem: “Que as pessoas que se comovem com a guerra na Ucrânia, também se comovam com a guerra que há na Palestina, se comovam com a guerra que há nos países do continente Africano, se comovam com as pessoas que fogem de Ruanda, se comovam com esses emigrantes todos que estão procurando um espaço seguro para criar seus filhos”.

“Se a sua comoção for seletiva, for só com pessoas que têm olhos claros e a cor da pele clara, então a sua comoção não é pela guerra, você está-se comovendo por outra coisa que posso não falar, mas eu vou falar: é racismo”, concluiu.

Fotografia de capa por Mário Pires (FMM Sines).

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