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“A Praia” encenada por João Reis explora o tédio e a melancolia

Escrito por em 05/07/2022

Um lugar de férias desinteressante, dois casais que repetidamente lá regressam e uma melancolia e disfuncionalidade que se vão revelando servem de base ao espetáculo “A Praia”, do dinamarquês Peter Asmussen, encenado por João Reis.

Com estreia marcada para quarta-feira, no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, o espetáculo vai estar em cena até dia 17 de julho. “A Praia” gira em torno de dois casais, Jan e Sanne e Benedikte e Verner, que se conhecem acidentalmente durante umas férias de verão, num hotel medíocre, isolado no litoral da costa nórdica, onde nada interessante acontece.

Jan e Sanne estiveram ali pela primeira vez no ano do seu casamento e, a partir de então, foram regressando sempre, por nostalgia, por inércia, por incapacidades várias que se manifestam na repetição da escolha e no isolamento que ela sugere.

Verner e Benedikte, por sua vez, foram parar ali por acaso, reserva de última hora, mas, tal como os outros dois, acabam por voltar sempre, como um vírus que se replica e que os quatro vão alimentando entre si.

O espetáculo começa com o som do mar e de gaivotas, e música de fundo. Em cena, um areal de praia e um hotel, representado no palco por dois quartos, em andares diferentes, e a sala de refeições no piso térreo.

Num dos quartos, um casal recorda os anos anteriores de férias naquele mesmo sítio. No outro quarto, um casal, ali de férias pela primeira vez, fala sobre o hotel e sobre a praia. É na sala de refeições que se conhecem.

“A disposição cénica e narrativa sugerida por Asmussen enfatiza bastante a intimidade dos casais, que é sinalizada nos quartos, sobretudo no início de cada ato, de cada ano, e ao mesmo tempo permite que essa intimidade seja depois enfatizada na praia, nos pequenos-almoços, nos longos passeios que fazem, nas ausências”, explicou João Reis à Lusa.

Segundo o encenador, “há uma estranha melancolia que é disfarçada de humor e de uma subtil ironia das personagens, que ao mesmo tempo que o tempo vai passando se vai adensando e se torna subitamente violenta”.

No primeiro encontro entre os casais, na sala de pequenos-almoços, uma das personagens explica a outra que naquele sítio “não se faz a ponta de um corno”, que “não há crianças, porque morrem de tédio” e que “mesmo os poucos hóspedes que aparecem são esquisitos e preferem manter-se isolados”.

É a partir deste enunciado, lançado no início da peça, que Peter Asmussen retira o pretexto para justificar a aparente afasia e disfunção das suas personagens. “No fundo são personagens um pouco à deriva, à procura de consolo. Não me canso de repetir o título de um livro de Stig Dagerman, que é um autor nórdico como o Asmussen, em que ele diz que ‘a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer’, e é um bocadinho o que eu sinto naquelas personagens, há uma necessidade de consolo impossível de satisfazer, há uma demanda, são pessoas desesperadamente à procura de ouvir alguém dizer que as ama”, afirmou João Reis, sublinhando que foi esse “jogo de equívocos, de encontros e desencontros”, que lhe “interessou explorar”.

Correspondendo à ideia que Peter Asmussen tinha desta peça, João Reis diz que não se consegue explicar bem qual o assunto da peça: é “difícil decifrar porque gira muito à volta destas pessoas um bocado desatinadas com a vida”.

O espetáculo está montado em “quatro andamentos”, que correspondem a quatro anos consecutivos de férias passadas no mesmo sítio, e começa de forma “mais ligeira e até inconsequente, em certo sentido, mas depois vai havendo um efeito de contaminação nas personagens entre si que é acentuado até pelos próprios figurinos do Nuno Baltazar: todas as peças de vestuário vão fincando contaminadas por esse desassossego”.

“É a partir daqui que me ancoro na ideia de serem quatro andamentos distintos e quatro anos completamente diferentes, no jogo entre as personagens”, acrescentou. Sobre a ideia de encenar este texto, João Reis contou que surgiu há cinco anos, numa altura em que procurava um texto que contemplasse poucos atores, quando se cruzou no Porto com Pedro Mexia, que lhe deu a conhecer o texto.

“Depois de partilhar o texto, eu imediatamente fiquei preso a ele, e a partir daí foi reunir as condições para avançar com a encenação”. Mais do que os assuntos, ou conceitos políticos ou morais, para a escolha de um texto, João Reis diz que se interessa sempre primeiro pelas pessoas, por isso esta peça lhe interessou tanto.

“Interessou-me muito a ideia de ter ali quatro pessoas, dois casais, que regressam ciclicamente ao mesmo lugar e onde vão reencontrar as mesmas pessoas e as mesmas dúvidas e onde há uma estranha melancolia que se instala”. “A Praia” conta com as interpretações de Filipa Leão, João Pedro Vaz, João Vicente e Lígia Roque.

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