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“Cosmos” é uma viagem no tempo

Escrito por em 23/06/2022

O espetáculo “Cosmos”, que se estreia hoje no Teatro D. Maria, em Lisboa, resgata a mitologia africana e seu cruzamento com mitos europeus, para se projetar num horizonte afrofuturista, uma aventura mais ficcionada que dá continuidade a “Aurora Negra”.

Da autoria de Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema, este espetáculo procura futuros possíveis e a possibilidade de criação de um novo mundo, questionando a humanidade e o caminho percorrido até hoje, ao mesmo tempo que aprofunda as mitologias que circundam, precisamente, a criação do mundo.

“‘Cosmos’ é a segunda parte de uma trilogia que começou com a ‘Aurora Negra’, um espetáculo que se focava na nossa biografia e vivencias enquanto ‘corpas’, mulheres negras, entre Portugal e os nossos países de origem – que no caso são Angola [Nádia], Cabo Verde [Cleo] e Portugal [Isabél] – nas vivências das nossas mães, na história das nossas mães e dessa nossa biografia”, explicou à Lusa Nádia Yracema.

Com “Cosmos” começou “o desejo de começar a ficcionar, a escrever uma escrita de ficção. Este ‘cosmos’ nasceu da vontade de imaginar as nossas corpas no futuro, ou seja afrofuturista”, acrescentou.

Para Cleo Diára, “Cosmos” é uma viagem no tempo: “Andamos entre passado, presente e futuro, sempre trazendo questionamentos sobre a nossa história, sobre a posição que o corpo negro ocupa no mundo, e criamos uma utopia daquilo que gostaríamos que tivesse sido a história, mesmo honrando e respeitando a história que herdamos, mas também trazendo uma outra via e uma outra visibilidade do que seria o corpo negro se a história tivesse sido um pouco diferente”.

Um dos conceitos primordiais presentes no “Cosmos” é o “tempo espiralar”, acrescentou Isabél Zuaa. Neste espetáculo, “atravessamos os tempos e viajamos em vários tempos na mesma dimensão, no mesmo espaço”, explicou, afirmando que o passado, o presente e o futuro coabitam nas mesmas dimensões.

“Atravessamos esses tempos através da cosmologia africana, que tem o tempo espiralar como prática, e trazemos a performance no tempo espiralar”, sublinhou Isabél Zuaa. Explicando a forma com transpõem para palco estes conceitos de tempo e espaço, as três criadoras afirmam que, por um lado, é em diálogo permanente com a cenografia e a música do espetáculo, e por outro, é através das suas vontades, dos seus tempos e da forma como sentem que estão na vida.

“Surge sempre através das vontades do que queremos ver em palco, do que queremos falar, daquilo que nos toca, do tempo, de como estamos na vida, fazemos uma lista e a partir dessa lista vamos tentando encontrar referências, vamos estudando e vamos construindo o texto, que é um objeto vivo e está sempre em mutação, como nós, como a vida”, considerou Cleo Diára, acrescentando: “É um processo que surge a partir do sonho das vontades do que gostaríamos de ver em palco. Nesse cruzamento das três vontades, vamos cosendo e vamos falando com a equipa”.

Isabél Zuaa destaca que, apesar de as três terem origens de países africanos e de viverem em Portugal, são “múltiplas e diversas” e carregam “contradições e complexidades”. “Trazemos contradições no corpo, na voz, na forma como nos comunicamos e aglutinamos isso de todas as culturas que nos atravessam, e trazemos referências artísticas, políticas, científicas, literárias, de pessoas que nos inspiram dentro do continente africano e na sua diáspora”.

Na prática, em “Cosmos” existem três universos distintos, três lugares de passagem, que, consoante os acontecimentos em cada um deles, o que vem a seguir se vai modificando, explicou Nádia Yracema.

Sobre a cenografia, a artista angolana adiantou que em palco haverá um embondeiro, ou baobá, “árvore sagrada de África” que é uma “árvore mítica que faz a ligação entre possibilidades de realidade: o que é mais profundo e passado, o presente e o futuro”.

“Carrega uma simbologia em relação ao tempo e à possibilidade de viagem no tempo, porque à volta dessa árvore há sempre uma história a ser contada: é uma árvore sagrada onde se enterrava os griôs, onde existe a reunião de pessoas à volta para se conversar, para se ensinar, é uma árvore que carrega memórias”.

Além das três criadoras deste espetáculo, vão estar em palco ainda Ana Valentim, Ângelo Torres, Bruno Huca, Luan Okun, Mauro Hermínio, Paulo Pascoal e Vera Cruz. “Cosmos” estreia-se hoje no Teatro Nacional D. Maria II (TNDM) e vai estar em cena, na Sala Garrett, até dia 3 de julho.

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