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“Andrea Chénier” em cena no S. Carlos

Escrito por em 23/06/2022

A “ideia de liberdade sobrepõe-se à história de amor” na ópera “Andrea Chénier”, de Umberto Giordano, que na sexta-feira sobe à cena no Teatro Nacional de S. Carlos, em Lisboa, realçou a encenadora Sarah Schinasi.

A ópera abre com o grito “Liberdade”, dado por um mordomo, Carlo Gérard, papel desempenhado pelo barítono Claudio Sgura, na nova encenação a apresentar no teatro lírico português.

Uma decisão da encenadora Sarah Schinasi, que quis marcar “uma posição”, salientar o sentido de fraternidade, e que entende como uma lição para os dias de hoje, como disse à agência Lusa, sublinhando que a ópera termina com as palavras “Vivei, amigos! Vivei em Paz”.

“Mais contemporâneo do que isto não podemos encontrar”, declarou Sarah Schinasi. O elenco da ópera é liderado pelo tenor Marco Berti, como Andrea Chénier, e pela soprano Elisabete Matos, atual diretora artística do teatro, como Maddalena di Coigny, que se estreia neste papel.

A produção desta ópera, que não é apresentada em S. Carlos desde 1967, assinala a estreia da italiana Sarah Schinasi, em Lisboa. “É a primeira vez que enceno neste magnífico teatro e estou encantada, nomeadamente com o profissionalismo do coro – como [os seus elementos] sabem estar em cena e fazer a contracena”, disse Sarah Schinasi.

“O Coro do Teatro de S. Carlos foi dos melhores coros com que já trabalhei”, sublinhou. Schinasi referiu as dificuldades de colocar em cena esta “ópera intimista, num grande teatro”, e o facto de trabalhar com “personagens que historicamente existiram”.

“Toda a narrativa e a história, com contornos reais, é delicada, é tudo muito intimo”. A ação de “Andrea Chénier” desenrola-se “em cerca de cinco anos”, desde a eclosão da Revolução Francesa, em 1789, até ao consulado “de pleno terror” de Robespièrre.

A ópera “Andrea Chénier” foi apresentada pela primeira vez no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) em 1898, dois anos depois da sua estreia no Teatro alla Scala, em Milão. O seu compositor, Umberto Giordano, é apontado como um seguidor de Giuseppe Verdi, e “exemplar na forma como transmite atmosferas contrastantes através da música, enriquecendo um enredo de ópera complexo”, segundo o texto de apresentação do teatro lisboeta.

Para a encenadora italiana, “a ideia de Liberdade” expressa na ópera “é muito mais importante que a história de amor”. O libreto de “Andrea Chénier” é de Luigi Illica, que colaborou regularmente com outro destacado compositor do drama, Giacomo Puccini (1858-1924), e o enredo é baseado na vida do poeta francês André Chénier, bascido em Constantinopla, em 30 de outubro de 1762, executado em 25 de julho de 1794, dois dias antes de Robespièrre.

Chénier arrisca a vida devido ao amor impossível que sente por Maddalena di Coigny, uma jovem nobre francesa, que é igualmente objeto de desejo do ex-empregado dos Coigny, Gérard, entretanto tornado líder na Revolução e, que, por amor, desiste de Maddalena, papel desempenhado por Elisabete Matos.

“Todas as personagens têm de ultrapassar obstáculos, lutam contra a situação em que se encontram”, disse a encenadora, que realçou “a evolução social das personagens” ao longo do drama.
Carlo Gérard, de mordomo dos Coigny, torna-se num “importante político” revolucionário, “muito graças às leituras a que teve acesso”, referiu a encenadora à Lusa.

Andrea Chénier, “não sendo um aristocrata, cresceu nesse meio, é um humanista, e um verdadeiro cosmopolita – a mãe era grega, o pai francês, exerceu funções consulares em Londres, viajou por Itália, era jornalista e, julgo, terá sido o primeiro jornalista político da história, além de um grande poeta que morreu muito cedo, e deve-se ao escritor Victor Hugo ter sido recuperado”.

“Nesta produção, quis evidenciar como esta gente lutou para viver, como qualquer um nós hoje em dia. Todas as personagens que vemos em palco existiram mesmo, viveram e lutaram”, disse Sarah Schinasi.

Os cenários e os figurinos remetem para o final do século XVIII, pretendendo “referenciar as mudanças sociais” em França, e que se refletiriam mais tarde na Europa. O cenário é de William Orlandi e, os figurinos, de Jesús Ruiz.

Em palco é reproduzido “o magnífico projeto” de Étienne-Louis Boullée (1728-1799), para a Biblioteca Nacional de França, que não chegou a ser construído, salientou Sarah Schinasi à Lusa.

Além de Marco Berti, Elisabete Matos, “talvez a maior cantora lírica portuguesa”, segundo nota do S. Carlos, e de Claudio Sgura, fazem ainda parte do elenco Maria Luísa de Freitas, Cátia Moreso, José Corvelo, Christian Luján, Luís Rodrigues, Sérgio Martins e João Oliveira.

A direção musical é do maestro Antonio Pirolli, titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa, contando ainda com a participação do Coro do TNSC, muito elogiado pela encenadora. A ópera está em cartaz na próxima sexta-feira, às 20:00, domingo às 16:00 e, na próxima terça-feira, às 20:00.

O despacho governativo relativo à nomeação de Elisabete Matos, como diretora artística do teatro, em 2019, determina um limite máximo de duas participações que a soprano pode ter nas produções por si programadas por temporada.

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