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Empatia e espiritualidade na voz de Gonçalo Serras

Escrito por em 10/06/2022

Daniela Azevedo conversa com o cantor Gonçalo Serras (Fritz Kahn and The Miracles) sobre o EP “Jonah, the Whale” (2021) e o single “Kyao´s River” (2022).

Como se pode adivinhar pelo nome, “Jonah, the Whale” é uma referência histórica à lenda de Jonas e a Baleia. Jonas seguia num navio em alto mar, quando é acusado pela tripulação de ser a causa de uma fortíssima tempestade. Jonas aceita a culpa, e é atirado borda fora. Mas é quando se debatia já nas fortes vagas, prestes a morrer, que é engolido por uma baleia, no estômago da qual passa três dias e três noites, até ser expelido numa praia deserta.

Apesar da referência bíblica, o álbum procura apenas traduzir, através do conceito da Baleia e de Jonas, como a música é um veículo de salvação, emocional, espiritual e mesmo física. Simbolicamente falando, a Baleia representa também todo o mistério do fundo do mar, das profundezas espirituais, donde terá surgido a inspiração para este trabalho, depois de uma longa ausência do compositor.

A baleia representa também o regresso a casa, ao Entroncamento, depois de uma vida intensa em Lisboa, regresso esse feliz já que Fritz Kahn foi recebido como filho pródigo. O álbum reflete as profundas mudanças na vida do compositor, estando distante na sonoridade das suas primeiras canções, sendo que a inocência dos primeiros temas foi substituída por um som mais maduro, melancólico e sentido, assumindo por vezes formas épicas graças às excelentes orquestrações de Tiago Machado.

«Foi na casa da minha tia que eu ouvi pela primeira vez o Rão Kyao, quando era uma criança curiosa e gordinha à procura de sons, de leituras, e de doces. A minha tia não era uma tia qualquer. Era daquelas pessoas que consegue perfeitamente viver sozinha, sem agonia e até com prazer, desde que tenha boa música e boas leituras.

Tal como o Rão Kyao não era um músico qualquer. Mas para mim, naquela altura, era apenas a imagem de um senhor de olhos azuis sonhadores na capa de um álbum, e os sons que ecoavam pela casa fora em Campo de Ourique. Anos mais tarde, tive um choque. Ia conhecer o Rão Kyao, em pessoa. Um convite que muito me honrou. Numa entrevista para a RDP Internacional, iam pôr-nos à conversa um com o outro, no programa “Passado ao Presente” conduzido pelo João Carlos Callixto.

A mim, um ilustre desconhecido, e uma lenda da música portuguesa. Durante duas horas. Foi nessas duas horas que eu compreendi que o verbo e a música do Rão Kyao são a mesma coisa; que se traduz na serenidade capaz de afirmar, como Gandhi, que “Não há caminho para a Paz, a Paz é o caminho.”

Tinha acabado de lançar um álbum (em 2021), chamado “Jonah, the Whale”. Se é que há segredo para o sucesso, em Fritz Kahn and The Miracles convidamos sempre grandes músicos a colaborarem connosco, como foi o caso do Mário Delgado (guitarrista jazz e produtor). Pensei que não podia perder a oportunidade de convidar o Rão Kyao, através das minhas assessoras de imprensa.

Mas faltava um tema, no nosso reportório, que falasse de paz. No meu humilde entendimento, penso que o tempo traz sempre a paz, até porque todos morremos. Sendo eu crente em Deus, acredito que por mais difícil que seja a vida de uma pessoa, encontrará sempre momentos, ou o momento, para a Paz. Imaginei por isso um rio, o rio do tempo, que corre para a paz, a que carinhosamente e em jeito de tributo chamei “Kyao´s River” – o Rio de Kyao. E disso trata esta música, que vos convido a escutar com atenção.» (Gonçalo Serras no texto de apresentação de “Kyao´s River”)

Agradecimento especial:
Bonito by Trincanela, Entroncamento


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