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Tintin passa a ‘falar’ também cabo-verdiano

Escrito por em 08/06/2022

O famoso repórter Tintin passa a partir de hoje a ‘falar’ também o crioulo cabo-verdiano, com o lançamento do primeiro livro daquela banda desenhada traduzido para a língua de Cabo Verde, com o título “Tintin na Tibeti”.

Com livros da coleção da obra de George Remi (1907-1983), conhecido como Hergé, publicados em cerca de 130 idiomas e dialetos em todo o mundo, a primeira tradução de Tintin para o crioulo cabo-verdiano será apresentada hoje na Universidade de Cabo Verde, na Praia, e foi feita por Nicolas Quint e Aires Semedo, anunciaram os autores.

“É interessante ver como não só não perde como eu até diria que ganha, porque cada tradução também acrescenta e traz particularidades dessa nossa língua que aparece naquele texto, que no original não tem. Porque a nossa língua tem outros recursos para dizer as mesmas coisas. Enriquece e torna ainda mais bonita a obra, a meu ver”, afirmou ao jornalista Paulo Julião, da Lusa, a linguista cabo-verdiana Karina Moreira, docente da Universidade de Cabo Verde.

“Tintim no Tibete”, na versão em português, é o vigésimo álbum da coleção de banda desenhada franco-belga “As aventuras de Tintim”, produzida pelo belga Hergé e publicado pela primeira vez em 1958.

Nicolas Quint, diretor de pesquisa no Centro Nacional de Investigação Científica de França, e Aires Semedo já tinham traduzido anteriormente o clássico da literatura francesa “O Principezinho”, do aviador aristocrata francês Antoine de Saint-Exupéry, para cabo-verdiano, com o título “Prispinhu”.

Nicolas Quint, recordou Karina Moreira, é um dos mais respeitados estudiosos da língua cabo-verdiana, autor de diversas obras de linguística daquela língua, incluindo gramáticas, dicionários e manual de aprendizagem, e com publicações em várias línguas.

“É um trabalho que nos chega de um renomado linguista francês, há muitos anos a trabalhar sobre a língua cabo-verdiana, trabalhos linguísticos mas também na área da tradução, que por um lado reforça essa componente investigativa – porque há essa ideia que as línguas crioulas, e o cabo-verdiano, são línguas menores, que não têm todos os recursos -, fazendo a tradução desses clássicos vemos que não, que perfeitamente pode ter-se o Tintin em cabo-verdiano, o principezinho em cabo-verdiano”, acrescentou a docente.

Um grupo de quase 200 personalidades cabo-verdianas, que lançou uma petição também nesse sentido, incluindo Karina Moreira, pediu em novembro passado apoio ao do chefe de Estado para a promoção da língua e anunciou que pretende criar uma associação em prol do crioulo, não só para a sua oficialização como língua nacional, como para ensino e padronização.

Daí que, para Karina Moreira, a publicação do primeiro livro de banda desenhada da coleção de Tintin em cabo-verdiano represente um passo importante neste processo: “Mostra que assim como todas as línguas, elas [línguas crioulas] têm recursos para expressar tudo o que a capacidade humana da linguagem exige ou permite expressar. Então, isso é também mais uma forma de legitimar a língua [cabo-verdiana], de mostrar que é uma língua de pleno direito pelo valor, assim como qualquer outra”.

O artigo 9.º da Constituição da República de Cabo Verde, de 1992, define apenas o português como língua oficial, mas também prevê que o Estado deve promover “as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa”.

Segundo Karina Moreira, há uma “dinâmica” de projetos de tradução de obras publicadas que está em curso em Cabo Verde. É o exemplo também do livro “Ku ki Vos/Com que Voz”, resultado da tradução feita para a língua cabo-verdiana por José Luiz Tavares de 65 sonetos de Luís de Camões.

Contudo, a linguista cabo-verdiana identifica a necessidade de “incentivar a produção de literatura em prosa”, na língua crioula cabo-verdiana. “Já que em poesia sempre tivemos. Na prosa é que temos poucas obras, pouquíssimas mesmo”, reconheceu.

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