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Sandra Cóias: “Importante é a vontade de ajudar o próximo”

Escrito por em 22/05/2022

Filmes multigalardoados, incentivos à ação cívica e reações dos vencedores enviadas de vários pontos do mundo, incluindo Cannes, animaram a entrega de prémios do festival. Este domingo, o CLIT ainda visita a Biovilla, em plena Arrábida, para uma sessão Ativa-te! subordinada ao tema Educação e Natureza, voltando à cidade pelas 21h30, para se despedir do público com a estreia mundial de um documentário sobre refugiados ucranianos.

“Importante é a vontade de ajudar o próximo”

A atriz Sandra Cóias, homenageada na cerimónia de entrega de prémios do CLIT – Cinema em Locais Inusitados e Temporários, que teve lugar sábado à noite no Auditório Charlot, em Setúbal, agradeceu o reconhecimento que o festival fez do seu percurso artístico e cívico, mas considerou a solidariedade e a empatia mais relevantes do que os tributos.

“O mais importante é a vontade de ajudar o próximo, de nos preocuparmos com o que nos rodeia e de agirmos para mudar o que está errado, lutando por aquilo em que acreditamos”, declarou no discurso de agradecimento do prémio, acrescentando que “muitas outras pessoas, com mais currículo”, podiam ser ali homenageadas em seu lugar.

Salientando o “tanto que há ainda por fazer” na sociedade para criar um mundo menos desigual, um ambiente mais protegido das agressões humanas e um futuro mais promissor, Sandra Cóias apelou à “acção cívica do público” em prol de lutas justas e necessárias.

Após a sua intervenção, o festival exibiu o documentário “O Lado Negro do Azeite”, que marca a sua estreia como realizadora, ao lado de Pedro Rego, também presente na sessão.

Descobre-o! com três filmes duplamente premiados

Na secção Descobre-o!, três obras – uma longa ucraniana e uma longa e uma curta espanholas – dividiram entre si os seis prémios disponíveis, levando dois cada uma.

Valery Shaliga, autor do filme ucraniano “Eco”, ganhou o Prémio de Melhor Realizador por este trabalho “cuidado e repleto de sensibilidade”, nas palavras do júri, indo o galardão de Melhor Actriz para Olga Oleksiy, que assumiu nesta película “o difícil desafio de actuar em quase silêncio”, tendo no olhar e na expressão corporal “os pilares da sua actuação”.

O Prémio de Melhor Actor coube a Miguel Ángel Martín, pelo seu desempenho “sólido do primeiro ao último segundo” na curta-metragem “Amadores”, de Ceres Machado, que levou para o país vizinho uma segunda distinção, a de Melhor Curta-Metragem. Muito ritmado, “Amadores” é um filme que, segundo o júri, “arranca gargalhadas à audiência”.

Para Espanha foram também o Prémio de Melhor Argumento e o de Melhor Longa-Metragem, entregues a Arturo Dueñas, realizador e argumentista de “Pessoas”. De acordo com o júri, “a forma como a história se desenrola num contexto de ‘road movie’ por Cuba dá-nos um retrato atento e imparcial da sociedade daquela ilha das Caraíbas”.

Ativa-te! com um documentário que “não devia existir”

Na secção Ativa-te!, que atribui apenas dois troféus, o prémio de Melhor Curta-Metragem coube à animação “A matilha”, concebida por alunos da escola francesa Rubika. “Através de uma animação de qualidade e particularmente expressiva, baseada em simbolismos do inconsciente colectivo, o filme consegue transmitir de forma real o ambiente opressivo despertado pelo assédio normalizado, presente na cultura patriarcal e potenciado pela dificuldade de denúncia proposta pelo sistema”, assinalou o júri.

Já o galardão para a Melhor Longa-Metragem foi para “Alcindo”, por, segundo o júri, “sintetizar de maneira acessível a todos os públicos um assunto transversal à sociedade – o racismo –, propondo um confronto entre a postura real dos governantes e a ideologia ilusória do sucesso da relação entre países colonizados e o seu colonizador”. Na opinião do júri, a obra, que deve o nome ao jovem assassinado a 10 de Junho de 1995 no Bairro Alto por um grupo skinhead, “honra a vida do seu protagonista e constrói o seu legado”.

Presente na cerimónia, Miguel Dores, realizador do documentário, agradeceu a distinção recebida, mas assinalou que este seu trabalho “não devia existir”, pois ele tem como ponto de partida um acontecimento “que nunca devia ter tido lugar”.

Público com voto na matéria

E porque um festival “existe a pensar nos espectadores”, como assinalou Luís Humberto Teixeira, diretor do CLIT, na sua intervenção na cerimónia, coube a estes a atribuição do Prémio do Público, que tem o título de “Ainda bem que vim!”.

E a audiência escolheu a curta-metragem “A matilha”, que também sai, assim, duplamente premiada desta segunda edição do Cinema em Locais Inusitados e Temporários, e a longa-metragem “Fila de espera”, de João Brazão, sobre os animais da União Zoófila.

As duas obras integram a programação da secção Ativa-te!, que deste modo repete o sucesso de Outubro passado, em que também viu caberem-lhe os dois Prémios do Público.

Escolher os vencedores “não foi fácil nem imediato”

Numa coisa tanto os jurados da secção Descobre-o! como os da secção Ativa-te! estiveram de acordo: escolher quem levaria os troféus “não foi fácil nem imediato”.

No Descobre-o, o júri, composto pelos realizadores Pedro Estêvão Semedo e Renata Barreto, a actriz Graziela Dias, o jornalista Ricardo Lopes Pereira e o coordenador da comissão artística e de programação do Cinanima, Johnny Marques, apreciou três longas-metragens e 13 curtas, tendo atribuído, além dos prémios definidos, três menções honrosas.

Assentes “na qualidade do argumento, na performance de actores ou actrizes, ou na originalidade do filme”, as menções foram para as curtas “Terminus”, dos franceses Allan Merlier, Louis Bourianne e Florian Wedling, “Sunshine”, do italiano Martino, e “Herança”, do francês Matthieu Haag.

Por seu lado, na secção Ativa-te! o júri, constituído pelo actor e encenador Miguel Assis, a antropóloga Catarina Ferreira e Ilana Oliveira, programadora do Festin, avaliou oito longas e 22 curtas-metragens, atribuindo os prémios previstos e quatro menções honrosas.

“De mãos atadas”, curta-metragem da brasileira Bianca Iatallese, e as longas “Fuga”, do estudante alemão Jonas Daniels, “Dadalove”, da italiana Chiara Agnello, e “De novo em casa?”, da islandesa Dögg Mósesdóttir foram as obras contempladas.

Reações de vários pontos do mundo

A cerimónia, conduzida por Daniela Azevedo e que abriu com uma atuação do músico Renato Sousa, que interpretou à guitarra temas de José Afonso e um original seu, ainda sem título e ali tocado pela primeira vez em público, contou com um elemento surpresa.

“De meio da manhã ao final da tarde, fomos recebendo reacções de vários vencedores. Ao vermos como eram entusiastas, decidimos incluí-las na sessão”, contou Luís Teixeira. Como tal, a revelação dos premiados foi sendo intercalada com a projecção de testemunhos em vídeo enviados de locais tão distintos como Islândia, Alemanha, Espanha, Itália e França, de onde chegou, inclusivamente, uma mensagem gravada à entrada do Festival de Cannes, onde se encontravam a realizadora Chiara Agnello e Angelisa Castronovo, produtora de “Dadalove”.

A alegria contagiante dos galardoados, alguns dos quais passaram pelo CLIT ao longo da semana, os elogios a Setúbal e os votos de sucesso e longevidade para o festival ajudaram a fazer do serão no Cinema Charlot uma noite inesquecível para todos os presentes.

Último take: estreia mundial de ‘A Fronteira’

O festival prossegue este domingo com um regresso ao Charlot para apresentar o documentário “A Fronteira”, que faz em Setúbal a sua estreia mundial. Esta obra do realizador italiano Guglielmo Brancato resulta da sua deslocação à Ucrânia em Março, tendo sido filmado na zona raiana de Medyka, onde também estiveram, a prestar auxílio aos refugiados, o ex-deputado Nelson Silva e a enfermeira Sónia Sousa.

Os três são presenças confirmadas na sessão, que tem a chancela Ativa-te!, projecto uma parceria entre a Associação Cultural Festroia e o Instituto Politécnico de Setúbal, é financiado em exclusivo pelo Programa Cidadãos Ativ@s/EEAGrants, fundo gerido em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Bissaya Barreto.


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