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Romance inédito de Céline publicado em França

Escrito por em 10/05/2022

Milhares de páginas de manuscritos perdidos pelo escritor francês Louis-Ferdinand Céline, que apareceram em circunstâncias misteriosas, estão a ser exibidos em Paris e conduzirão à publicação na quinta-feira de uma obra inédita, “Guerre”, que tem entusiasmado os críticos literários.

O anúncio foi feito pela editora Gallimard, que fez um trabalho quase de ourivesaria para passar da escrita furiosa dos manuscritos de Louis-Ferdinand Céline para, quase 90 anos depois, uma edição de “Guerre”, um romance surpreendentemente realizado, noticia a AFP.

São 6.000 folhas não publicadas, que foram recuperadas no ano passado, depois de terem sido roubadas da propriedade do controverso escritor durante a Segunda Guerra Mundial, quando este deixou o país em 1944 para evitar repressões pela sua estreita relação com os nazis na Paris ocupada.

Entre esses manuscritos encontra-se “Guerre”, um romance autobiográfico que completa a obra do autor e a lenda negra que o rodeia: quando denunciou o roubo destas páginas, que incluíam também o romance “Casse-pipe” e “Londres”, entre outros, muitos pensaram que o escritor tinha perdido o juízo.

Recuperados por combatentes da resistência cujos nomes permanecem em segredo, os papéis caíram nas mãos de um antigo jornalista, Jean-Pierre Thibaudat, nos anos 2000, que os entregou à polícia e aos herdeiros do escritor, que, por sua vez, os revelaram no Verão de 2021.

A editora Gallimard publica agora este romance de cerca de 150 páginas, com ilustrações e anexos, sobre o qual a imprensa tem sido unanimemente elogiosa. “Guerre” terá sido escrito em 1934, pouco depois do escândalo do primeiro romance de Céline, “Viagem ao fim da noite” (1932), e permaneceu durante dez anos nos arquivos do romancista, no seu apartamento no distrito de Montmartre.

Em junho de 1944, sentindo o vento mudar, o colaboracionista deixou Paris à pressa e fugiu para a Alemanha, mas não pôde levar consigo as obras não publicadas. O assumir da postura antissemita, pela qual o escritor nunca se arrependerá, data de 1937, com a publicação do panfleto “Bagatelles pour un massacre”.

Agora que a controvérsia desapareceu, o reaparecimento da “Guerre” e de “Londres” permite celebrar uma obra importante da literatura francesa do século XX, consideram os especialistas.

“Estes manuscritos chegam na altura certa ou por uma surpresa divina, para que Céline volte a ser um escritor: o que importa, de 1932-1936”, disse Philippe Roussin, um investigador especializado em Céline, entrevistado pela AFP.

A exposição que acompanha a publicação deste romance inédito, “Céline, les manuscrits retrouvés” (“Céline, os manuscritos recuperados”), que está patente de 06 de maio a 16 de julho na Galeria Gallimard, mostra o seu trauma como um “poilu” (soldado que lutou na Primeira Guerra Mundial), que foi gravemente ferido, e o seu frenesim criativo nos anos 1930.

Algumas folhas são emolduradas, incluindo a primeira de “Guerra”, que termina com o que deveria ser uma citação de Céline, emblemática do martelar obsessivo do canhão na história: “Apanhei a guerra na minha cabeça. Está trancada na minha cabeça”.

“Há cenas de antologia e desta presença constante da morte, do horror dos combates que hoje nos fazem lembrar a guerra na Ucrânia, mas também do sexo… Para um primeiro esboço, o texto é extremamente forte”, disse o historiador Pascal Fouché, que preparou a edição, à AFP.

Outros documentos mais íntimos, como cartas, impressões e fotografias dos arquivos do escritor, estão também expostos. Os documentos “lançarão luz sobre as fontes biográficas da obra literária de Céline”, especialmente sobre as ligações entre o escritor e os seus pais, sobre o seu período militar em Rambouillet e quando foi ferido na guerra, explicou a Gallimard, num comunicado de imprensa.

As medalhas militares, assim como o diário de marcha do seu regimento, fornecido pelo Historial do Serviço da Defesa em Vincennes, e o seu livrete militar, guardado no Arquivo de Paris, também contextualizam esta exposição.

A Gallimard está determinada a publicar as obras inéditas antes de todo o trabalho de Céline cair no domínio público, em 2032. “O trabalho deve ser realizado de uma forma muito escrupulosa”, disse o diretor executivo da editora, Antoine Gallimard.

“Guerre” é o primeiro da série a ser lançado. Na cronologia do narrador e protagonista, esta sequela de “Mort à crédit” (1936) precede a mais longa, “Londres”, prevista para o outono.

O livro conta a história de Ferdinand, um francês ferido durante a Primeira Guerra Mundial, e mistura ficção com memórias do que o escritor descreveu como um “matadouro internacional”.

Romance escuro, nervoso e cru, “Guerre” abre com o despertar do brigadeiro Ferdinand, de 20 anos, milagrosamente vivo num campo de batalha em Poelkappelle (Bélgica), uma noite em 1915.

O escritor relata depois como um soldado inglês o salva, a sua convalescença não muito longe da frente de combate em Peurdu-sur-la-Lys (na realidade Hazebrouck, em França), e finalmente uma partida apressada para Inglaterra.

A permanência do outro lado do Canal é objeto do romance “Londres” a outra obra inédita, e mais longa, a ser publicada no outono. Antes de entrar em venda, “Guerre” já está no topo dos títulos mais vendidos em França, com uma primeira tiragem excecional de 80.000 exemplares.

“Com a visão de hoje, diríamos que ‘Guerre’ é a história de uma síndrome pós-traumática”, diz o biógrafo de Céline, Émile Brami, no jornal Le Monde. Céline, que foi ferido no braço em 1914 em Poelkapelle, Bélgica, baseia-se na sua própria experiência e no mês que passou em Hazebrouck (norte de França), hospitalizado e a sofrer de alucinações auditivas, que persistiram ao longo da sua vida.

Depois da publicação de “Londres”, a Gallimard publicará outro manuscrito inédito, “A Vontade do Rei Krogold”, baseado numa lenda celta, e em 2023 sairá “Casse-pipe”. Posteriormente, o conjunto será republicado como parte integrante da prestigiosa coleção “La Pléaide” de Céline.


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