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Santiago de Compostela celebra 50 anos de “Grândola, Vila Morena”

Escrito por em 07/05/2022

Santiago de Compostela vai cantar em galego, no dia 10 de maio, “Grândola, Vila Morena” para assinalar os 50 anos da que é encarada como a primeira interpretação ao vivo, por José Afonso, da canção símbolo de liberdade.

O concerto “histórico” de 10 de maio de 1972 vai ser assinalado pela Universidade de Santiago de Compostela (USC), com um encontro-concerto, na terça-feira, às 19:00, no Burgo das Nações, local onde há 50 anos José Afonso interpretou a canção que “é, hoje, símbolo da liberdade, da igualdade e da fraternidade nacional e internacional”.

“É uma comemoração da USC em memória da luta estudantil da altura e do papel de Zeca Afonso nessa atividade”, disse à jornalista Andrea Cruz, da Lusa, Elias Torres, presidente da Faculdade de Letras da Universidade de Santiago de Compostela.

O concerto de 1972, explicou o professor de língua, literatura e cultura portuguesa na USC, foi organizado por “um grupo de estudantes, fundamentalmente da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais contra o franquismo e pela democracia”, a que assistiram entre duas a três mil pessoas.

A canção, gravada em disco um ano antes, acabaria por ser sinal do início da revolução que derrubou a ditadura portuguesa, quando na madrugada de 25 de Abril de 1974 soou na Rádio Renascença. “A canção é, hoje, símbolo da liberdade, da igualdade e da fraternidade nacional e internacional”, sublinhou o professor universitário.

O espetáculo “histórico” decorreu num “refeitório provisório”, construído em 1965, para acolher peregrinos dos Caminhos de Santiago de Compostela, posteriormente “reivindicados” pelos estudantes, para servir, “primeiro como cantina e, depois como residência universitária”.

Nos terrenos do Burgo das Nações onde esses “barracões” estavam instalados, após a demolição nos anos 1980, ergueram-se a atual residência universitária, as faculdades de Ciências da Comunicação, desenhada por Siza Vieira, e de Filologia.

“É um lugar de memória da cidade e onde Zeca Afonso tem um espaço privilegiado. É onde está o auditório da Galiza e uma placa evocativa desse acontecimento, colocada pela Câmara Municipal”, afirmou Elias Torres.

No espaço exterior da residência “ergue-se um grande mural, feito pela Associação José Afonso na Galiza (AJA-Galiza), com as imagens de Benedicto García Villar, cantor galego que, em 1972, convidou Zeca Afonso para atuar na Galiza, e o cantautor português”.

“Mesmo em frente à residência Burgo das Nações, há um parque ao qual foi atribuído o nome de Zeca Afonso”, especificou, para justificar a importância que ainda hoje o cantautor português tem na capital da Galiza.

“O Zeca Afonso dizia que a Galiza era a sua pátria espiritual e dizia, que provavelmente, nunca foi tão bem entendido como na Galiza”, aludindo às entrevistas que o artista português concedeu e nas quais “afirmava a sua grande amizade pela terra e pelo povo galego”.

O encontro-concerto, que vai decorrer na terça-feira, intitulado “Zeca maior que o pensamento – Canta galego nos 50 anos de Grândola Vila Morena” pretende recordar a vida e obra do cantautor e reproduzir a gravação de 1972, daquela que é tida como a primeira interpretação pública da canção.

No encontro participam, entre outros, Emílio Pérez Touriño, “que apresentou o concerto de 1972 e que, quase 40 anos depois, viria a ser presidente da Junta da Galiza, Maite Angulo, estudante da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais e viúva de Benedicto García Villar, Zélia Afonso, viúva do Zeca Afonso, que também esteve presente naquele concerto, e o cantor Francisco Fanhais, atual presidente da AJA, amigo de Zeca”.

O momento será moderado por Suso Iglesias, “autor de trabalhos sobre José Afonso, jornalista e um dos participantes no concerto histórico”. A iniciativa contará ainda com a participação de duas atuais estudantes da USC: Iria, da faculdade de Ciências Económicas e Empresariais, e Claudia Pernas, residente na atual residência universitária Burgo das Nações.

As comemorações dos 50 anos da primeira interpretação de Grândola Vila Morena terminam com um concerto, com a presença de Uxia, João Afonso, Couple Coffee, Nacho Faia Lar e Maria Manuela. As iniciativas da USC, apresentadas por Carlos Blanco, têm entrada livre, mas limitada à capacidade do auditório da Faculdade de Filologia.

Galiza perpetua “emoção” da primeira interpretação de “Grândola, Vila Morena”

Maite Angulo, viúva do músico Benedicto, que organizou, em 1972, em Santiago de Compostela, Galiza, o concerto em que José Afonso interpretou, pela primeira vez, “Grândola, Vila Morena”, hoje sente a “emoção” do momento “histórico” que testemunhou.

Aos 74 anos, Maite Angulo faz questão de participar em todas as iniciativas que ajudem a “perpetuar” o “momento apaixonante” que presenciou, partilhando-o com as novas gerações. Na terça-feira, vai voltar a contar a história que viveu num encontro-concerto organizado pela Universidade de Santiago de Compostela (USC), para assinalar os 50 anos sobre a primeira interpretação ao vivo, de José Afonso, da canção “Grândola, Vila Morena”.

Maite recordou à Lusa as razões políticas, “de luta contra o franquismo e a ditadura” que motivaram o concerto de 10 de maio de 1972, no então refeitório dos estudantes “revolucionários” da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da USC.

O marido, Benedicto García Villar, com quem se casara em 1971, ele com 25 anos e ela com 24, “ouvia muito os discos de Zeca Afonso”, símbolo da resistência ao Estado Novo. O casal, mal reuniu as condições financeiras para comprar o primeiro carro, meteu-se ao caminho, de Santiago de Compostela até Setúbal, à casa de José Afonso, para conhecer o cantautor português.

“Daquela visita resultou uma relação de amizade intensa entre os dois”, observou Maite. Os acontecimentos de 10 de março de 1972, na Galiza, que marcaram para sempre a luta operária galega, puseram fim à viagem de Benedicto e Maite a Portugal.

Partem da casa de José Afonso, rumo à localidade de Ferrol, na Galiza, onde a 10 de março de 1972, dois operários, Amador Rei e Daniel Niebla, morreram durante um protesto por melhores condições de vida.

Aquele acontecimento, que é assinalado todos os anos por ser considerado o dia da classe operária galega, “gerou um grande movimento reivindicativo, que juntou as forças do trabalho às da cultura”.

De regresso a Santiago de Compostela, o casal inicia a mobilização estudantil para organizar um espetáculo com José Afonso. “Na altura, havia esse ambiente de mobilização, e os estudantes montaram o concerto na própria faculdade de Ciências Económicas e Empresariais”, contou Maite Angulo.

O palco foi o refeitório que havia, na altura, no Burgo das Nações, pensado para os peregrinos dos Caminhos de Santiago e que depois passou a acolher os “estudantes da faculdade que eram os revolucionários da cidade”.

As mesas do refeitório viraram estrado e José Afonso subiu ao palco improvisado. “A emoção já tomava o público, quando Zeca Afonso anunciou que ia cantar ‘Grândola, Vila Morena’”, recordou a também estudante da faculdade de Ciências Económicas e Empresariais.

Um folheto com a letra da canção foi distribuído pelo público, e “Zeca convidou a malta” a acompanhar. “Ele ficou surpreendido com o efeito da canção. Eram várias centenas de estudantes. A emoção de ter partilhado a canção com tanta gente, levou Zeca Afonso a convidar-nos para dançar a dança alentejana. Repetiu a canção e o recital terminou com o público em grande emoção”, lembrou.

“Vivíamos a repressão franquista, mas na USC, desde 1968, que o movimento estudantil estava mobilizado. Reforçou-se com o 10 de março, em Ferrol, e ganhou força com a atitude tão militante e a voz maravilha de Zeca Afonso. Vivemos uma emoção imensa”, insistiu.

Para quem testemunhou, na primeira pessoa, aquele período, o “tempo” que corre “não é dado a nada”. “A pandemia de covid-19, o alheamento em que vive a juventude, tão metida nas redes sociais, desmotiva-a a fazer o que quer que seja. Estamos a passar por uma época má para a mobilização social. Não vejo movimento na juventude e espero que o dia 10 de maio anime e dê vontade de fazer alguma coisa”, lamentou.

O que mudou em 50 anos, explica Maite Angulo, foi a ausência de um “objetivo claro” pelo qual lutar. “Nós tínhamos um objetivo muito claro que era derrotar o franquismo, a ditadura. Agora, as coisas são mais complexas porque não há um objetivo claro. O que queremos, que sociedade queremos”, interrogou, acrescentando: “Não temos líderes que incentivem e mobilizem as pessoas a terem objetivos mais além do que o mero consumismo”.

Amigos em vida, Benedicto e José Afonso, “ambos morreram de doenças raras”. O músico galego em 2018 e o cantautor português em 1987. “Os dois sofreram muito por não expressarem o que pensavam. Não conseguiam falar. São as crueldades da vida. Eu vivo para partilhar o momento emotivo que presenciamos”, concluiu.

Canção de José Afonso ainda entoa na ‘vila morena’ de Grândola

A canção que José Afonso dedicou a Grândola ainda entoa no coração do povo da vila, 50 anos depois, orgulhoso da relação com o autor da música que serviu como ‘senha’ da revolução do 25 de Abril.

O poema de “Grândola, Vila Morena” foi escrito por José Afonso, em maio de 1964, depois de um espetáculo que encheu o salão da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (SMFOG), sob olhar atento da Polícia de Segurança Pública.

“Foi uma noite histórica. Tínhamos a polícia à porta”, o que era normal “quando era a altura dos espetáculos”, lembrou à jornalista Helga Nobre, da Lusa, Pedro Costa, ex-presidente da sociedade musical.

O antigo dirigente recorda que, nessa noite, José Afonso teve direito a “casa cheia” e que o poema, enviado dias depois da atuação, foi visto como “um elogio, dedicado à coletividade e às gentes de Grândola”.

“Depois é que a gente foi copiar os poemas e cantava-se [por] aí, não com este cante [atual], mas com o tipo de canção alentejana”, explicou Pedro Costa. A canção foi incluída no álbum “Cantigas do Maio”, gravado em 1971, com arranjos e direção musical de José Mário Branco, e foi cantada pela primeira vez em público, em Santiago de Compostela, em 10 de maio de 1972, faz agora 50 anos.

“Foi com muito orgulho e com muita satisfação das pessoas de Grândola, da direção [da SMFOG], dos músicos, que José Afonso aqui esteve e que também cantou e se encantou pelo espírito e por toda a vivência que encontrou na sociedade e também em Grândola, onde foi muito bem recebido”, sublinhou Luís Vital, atual presidente da coletividade, conhecida como “Música Velha”.

O orgulho da população reflete-se nas múltiplas homenagens ao cantor de intervenção, como o memorial da revolução, à entrada da vila alentejana, onde estão impressas as notas musicais da canção, que se tornou no hino da liberdade.

“Não somos nada sem a nossa história e, portanto, temos o maior orgulho que, na altura, a direção tenha convidado José Afonso para cá vir tocar” e que o cantautor “se tenha inspirado para escrever o ‘Grândola’, naquela versão original”, reforçou Luís Vital.

Do poema original “cai uma estrofe”, com a referência “capital da cortesia” e, com o passar dos tempos, serão várias as versões até à canção final, gravada, em 1971, em França, explicou José Miguel Abreu, representante da Câmara de Grândola no Observatório da Canção de Protesto (OCP).

“O poema atravessa várias versões. Fica só com duas estrofes, depois, é acoplada a última estrofe e José Mário Branco sugere a José Afonso que transformem as estrofes finais em seis. E essa é a versão da canção”, realçou.

É no futuro Observatório da Canção de Protesto, cuja sede vai ficar instalada no antigo edifício da Câmara de Grândola, que vão estar reunidos vários testemunhos relacionados com a música de José Afonso.

Entre eles, uma “narrativa” que aponta para o regresso do artista à vila alentejana, em 15 de abril de 1972, onde terá cantado o “Grândola, Vila Morena”, semanas antes da atuação em Santiago de Compostela.

“Esse espetáculo é em 10 de maio de 1972 na Faculdade de Ciências Económicas de Santiago de Compostela. Porém, José Afonso regressa à SMFOG, em 15 de abril de 1972, para participar na inauguração de uma exposição dedicada a Alves Redol”, realçou.

Na sessão, José Afonso, “segundo António Mota Redol, que é um dos organizadores, terá cantado a canção e é verosímil que assim seja, porque, sendo dedicada à coletividade e vindo José Afonso a Grândola já com a canção fonograficamente registada, é verosímil que a tenha cantado”.

Para o responsável, a canção tem “muito valor” para Grândola, assim como para “todos os movimentos de contestação”. Além de ser “uma das canções com mais versões gravadas em todo o mundo” e da sua “importância fonográfica”, é “utilizada noutros meios espontâneos”.

“Não há manifestação que se faça em Portugal onde não se oiça a ‘Grândola’, ou seja, é um pouco a voz dos desfavorecidos, dos oprimidos, dos silenciados. Acaba por ter este desempenho e, é por isso, que há um Observatório da Canção de Protesto”, concluiu.

O OCP resulta da parceria entre o município de Grândola, entidade promotora, a Associação José Afonso, a SMFOG, e os institutos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa – Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança e Instituto de História Contemporânea.

Os seus objetivos são o estudo, a salvaguarda e a divulgação do património musical tangível e intangível da canção de protesto produzido durante os séculos XX e XXI, através da realização de iniciativas culturais diversas.


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