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CMVFX lamenta demissão de diretora do museu

Escrito por em 02/05/2022

A Câmara de Vila Franca de Xira (CMVFX) tem “em curso a operacionalização da nova estrutura orgânica” dos serviços municipais e anunciará um novo diretor científico para o Museu do Neo-Realismo, “no seguimento” da demissão da sua diretora.

Em resposta às questões enviadas pela Lusa ao município, sobre a demissão da historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, diretora do Museu do Neo-Realismo, o gabinete de imprensa enviou um comunicado indicando que “o município lamenta” esta demissão, “reiterando agradecimentos pela colaboração, trabalho e contributos prestados desde 2017”.

“Está em curso a operacionalização da nova estrutura orgânica dos serviços municipais, publicada em Diário da República no dia 11 de abril”, acrescenta o município. E diz ainda que, “no seguimento dessa decisão [de Raquel Henriques da Silva], a Câmara Municipal irá oportunamente anunciar o novo diretor(a) científico(a) para o Museu do Neo-Realismo”.

A professora catedrática e curadora tinha afirmado hoje, à jornalista Ana Goulão, da Lusa, que se demitiu do cargo depois de o seu gabinete ter sido ocupado pelo novo diretor municipal de Cultura, o historiador de arte David Santos.

De acordo a antiga diretora do Instituto Português de Museus, foi-lhe comunicado por telefone, a 19 de abril, que o seu gabinete seria ocupado por David Santos, que pediu em abril a exoneração do cargo de curador da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE).

A notícia da demissão foi avançada hoje pelo jornal Público, que cita a historiadora de arte e David Santos, e também uma carta enviada por Raquel Henriques da Silva à deputada socialista Maria da Luz Rosinha, antiga presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (CMVFX) – que a tinha convidado para o cargo – descrevendo os acontecimentos. A Lusa também contactou o novo diretor municipal de Cultura, David Santos, que se escusou a fazer qualquer comentário.

“A doutora Raquel Henriques da Silva tomou a decisão pessoal de cessar em abril a sua colaboração com o Museu do Neo-Realismo, decisão essa que o Município lamenta”, lê-se na mensagem enviada à Lusa, acrescentando que estão em curso mudanças orgânicas.

No caso do Museu do Neo-Realismo, “e, em traços gerais, no que respeita à estratégia de desenvolvimento cultural para o município, mantêm-se os critérios de qualidade e exigência que têm vindo a caracterizar a atuação desta autarquia”, acrescenta ainda.

Contactada pela Lusa, a diretora demissionária do museu vilafranquense não quis comentar a situação, mas divulgou a carta enviada a Maria da Luz Rosinha, datada de 24 de abril, com a descrição das circunstâncias da demissão, e do seu trabalho à frente do museu desde 2017, onde justifica a saída pela forma como foi tratada.

“Fui liminarmente posta na rua, de forma brutal que sinto como um ato de terrorismo”, conclui, na missiva, sobre o contexto dos acontecimentos no Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira (MNR).

Raquel Henriques da Silva relata que, no dia 19 de abril, foi contactada pela vereadora Manuela Ralha, a comunicar-lhe que David Santos tinha sido nomeado diretor de Cultura da autarquia, e que o historiador de arte e curador, nesse dia, já se tinha instalado no MNR, ocupando o gabinete que lhe fora atribuído em 2017, enquanto diretora, onde tinha “livros e arquivos, e o computador” que usou desde essa altura.

“Perante a minha indignação, que me levou a anunciar de imediato a minha demissão, ela [vereadora] apressou-se a lamentar e a concordar comigo porque não havia, cito, ‘mais nada a fazer'”, relata, na carta.

Raquel Henriques da Silva ressalva que a missiva dirigida à deputada, embora tenha sido “grosseiramente destratada” nesta situação, e de não ter conseguido concluir o trabalho a que se comprometera de renovar a exposição permanente no museu, até outubro de 2022, “não é uma queixa, nem um lamento”.

“É fundamental que haja espaço para o debate, para o confronto, que se respeitem compromissos assumidos, ainda que informalmente, e que não se interrompa violentamente desempenhos de qualidade que têm marca autoral. O problema de fundo reside, afinal, naquilo que eu quis confrontar desde 2017: um museu como o MNR tem de ter um diretor, escolhido em concurso e com o escrutínio de um júri especializado”, defende.

“Não sendo assim, continuarão a existir abusos, aqui concretizados na ideia de que há alguém a quem o lugar pertence e que não olha a meios para o ocupar, com o apoio e cumplicidade dos mais altos responsáveis pela governança da cidade e do seu concelho”, acrescentou.

A entrada da também antiga diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado no MNR aconteceu no final de 2017, quando foi contactada pelo próprio David Santos, e depois pela presidente de Câmara de Vila Franca, agora deputada, convidando-a para diretora científica do museu, depois da saída de António Pita, que assegurara o lugar desde a saída de David Santos para diretor do Museu do Chiado.

“(…) aceitei, motivada, em primeiro lugar, por um desígnio que prossigo há muito tempo: que os museus autárquicos tenham diretor, escolhido com autonomia em relação ao mando político”, recorda, acrescentando que assumiu formalmente o convite “sobre uma promessa: ficaria um ano e, nesse período, o presidente da CMVFX comprometia-se a abrir o lugar de diretor do MNR, através de concurso externo e com júri qualificado”.

Entrou para o cargo de diretora científica através de um protocolo celebrado entre a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, com a intenção de levar a cabo a “urgente renovação da exposição permanente, imóvel desde 2007, e muito envelhecida (na museografia e sobretudo nos conteúdos)”.

No entanto, indica que, apesar das diligências da autarquia foram “esbarrando em impossibilidades administrativas”, voltou a fazer nova proposta de se manter “com duas condições que foram entregues por escrito: primeira, o museu iria ter meios para fazer uma coleção de fotografia internacional, e assim afirmar-se numa área do colecionismo, em que tal era possível”.

A segunda condição era “começar a trabalhar, com a equipa do MNR e com colaboradores externos, para substituir a exposição permanente”, comprometendo-se a “ficar no cargo até à sua inauguração, então prevista para 2021”.

Recorda que, ainda em 2021, foi possível inaugurar a primeira fase da nova exposição permanente – “Representações do Povo” – “com uma abertura intencional das questões centrais da cultura neo-realista à História da Arte, do passado e do presente”, e a segunda fase, prevista para abrir em outubro deste ano, “está, neste momento, com o programa museológico quase concluído e com o programa museográfico em fase de orçamentação de alguns equipamentos”.

Contactado pela Lusa, o novo diretor municipal de Cultura, David Santos escusou-se a fazer qualquer comentário sobre a demissão, e remeteu qualquer resposta para a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

A 19 de abril, o Ministério da Cultura tinha anunciado que o então curador da CACE pedira a exoneração das suas funções, “evocando motivos de ordem pessoal”, com “efeitos a 11 de abril último”.

Depois de ter deixado o cargo de subdiretor-geral do Património Cultural, que ocupava desde 2016, na tutela da Cultura de Graça Fonseca, David Santos assumiu funções na CACE em março de 2020, nomeado pela então ministra, e o seu mandato como curador, para três anos, foi aprovado em Resolução de Conselho de Ministros, e publicado em Diário da República em maio de 2021.

Historiador, com um doutoramento em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, David Santos foi também diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado e curador-geral da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, em 2016, e responsável pelo Museu Do Neo-Realismo entre 2007 e 2013.


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