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“Censura” revela primeiros boletins de cortes à imprensa

Escrito por em 22/04/2022

Uma “grande investigação” sobre os primeiros boletins da censura à imprensa em Portugal, que revelam o país de então e a forma como o Estado Novo construiu essa arma política, vai ser publicada em livro no próximo mês.

“Censura. A construção de uma arma política do Estado Novo”, de Júlia Leitão de Barros, vai ser editado no dia 5 de maio pela Tinta-da-China, a partir da coleção do arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira.

“A Coleção Ephemera revela aos leitores os primeiros boletins semanais de cortes à imprensa, produzidos em 1932, ainda sob a Ditadura Militar. Abre se assim caminho a uma nova interpretação — mais profunda e rigorosa — da vida social, política e económica do país num momento em que a vitória do Estado Novo era tudo menos incontestada”, descreve a editora.

Este livro é um complemento da exposição “Proibido por inconveniente”, que está patente no edifício Diário de Notícias, em Lisboa, até 27 de abril. Trata-se de um livro que “mostra como se construiu essa arma política do Estado Novo, destinada a garantir ‘que só existe o que se sabe que existe’, como dizia Salazar. E, usando os boletins de cortes da imprensa iniciados nos anos 30, revela que o país que ‘existia’ não podia ser conhecido”, descreve Pacheco Pereira no prefácio da obra.

Naquela época, “nem mesmo a oposição mais tenaz contra a ditadura podia ‘ver’ esse país real em toda a sua dimensão: o Portugal das fraudes, da pedofilia, das violências anticlericais, das disputas mortais pelas águas ou pelos baldios, do nepotismo e da corrupção dos poderosos, das cunhas, dos espancamentos, das torturas, dos assassinatos, da guerra. O país que não tinha ‘brandos costumes’”, acrescenta.

O lançamento do livro está marcado para 27 de abril, às 17:00, no Edifício do Diário de Notícias, e marca o encerramento da exposição, que está patente desde dia 07, e da qual a autora do livro é uma das curadoras, juntamente com Carlos Simões Nuno.

“Proibido por inconveniente” é uma mostra de vários testemunhos da censura que amordaçou o país durante 48 anos de ditadura, que tem a intenção “pedagógica” de mostrar o que é a liberdade, pela sua negação.

A censura – instaurada logo após o golpe de 28 de maio de 1926 e que se estendeu até 1974 – exerceu-se sobre a imprensa, a literatura, a arte, a publicidade, todos os meios de comunicação e expressão artística, com o objetivo de silenciar críticas e pensamentos discordantes do “bem comum”, criando a imagem de um país ideal, bem diferente do país real, aquele “que não podia vir a público”, segundo os organizadores.

Resultante de uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa, a EGEAC e a Ephemera, a exposição está dividida em vários núcleos temáticos, que mostram as várias faces da censura: da prévia à que atuava ‘a posteriori’; da que censurava, mas fazia critica literária, à elitista; da que atuava através de diversos organismos à que se fazia de invisível.

Para esta mostra foram reunidos materiais diversos que testemunham a atuação da censura e que passam por jornais, livros, revistas, discos, autos, relatórios e publicações clandestinas, todos oriundos da biblioteca e arquivo de Pacheco Pereira.

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