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“Novas Cartas Portuguesas” sempre foram ignoradas em Portugal

Escrito por em 16/04/2022

Maria Teresa Horta, uma das “Três Marias” que escreveram as “Novas Cartas Portuguesas”, afirma que o livro sempre foi desconsiderado em Portugal e confessa-se “perplexa” com o interesse que parece suscitar agora, 50 anos depois da sua primeira publicação.

A escritora não compreende como pode esta obra ser estudada em várias universidades estrangeiras e ser objeto de diversos estudos internacionais, enquanto em Portugal é praticamente ignorada, considerando que o país continua atrasado em relação à atualidade do livro.

“Novas Cartas Portuguesas”, escrita por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, a partir das cartas de amor dirigidas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, constituiu-se como um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril, que denunciava a guerra colonial, as opressões a que as mulheres eram sujeitas, um sistema judicial persecutório, a emigração e a violência fascista.

Começou a ser escrita em maio de 1971 e foi publicada em abril de 1972, tendo sido banida pelo então regime e as suas autoras levadas a julgamento. O livro que se assumiu como um marco na história do feminismo, da literatura portuguesa, da oposição ao regime e da luta pela liberdade, após passar o período conturbado que envolveu a sua publicação, atravessou décadas quase como uma inexistência em Portugal, considera Maria Teresa Horta, a única das “Três Marias” ainda viva, em declarações à Lusa, acrescentando não compreender esta situação.

“Ninguém ligou nenhuma às ‘Novas Cartas Portuguesas’ em Portugal, agora, de repente, enlouquece tudo”, disse à jornalista Ana Leiria, da Lusa, acrescentando: “Foram escritas há tantos anos. Depois esgotou, mas ninguém fez nada, e de repente, de súbito, de cinco em cinco minutos falam das ‘Novas Cartas’, a pessoa fica perplexa”.

A escritora percebe a importância que a obra teve na altura da sua publicação, porque o caso foi para tribunal, vivia-se numa ditadura e “não podia ser de outra maneira”. O livro foi, então, publicado com a chancela dos Estúdios Cor, que tinha direção literária de Natália Correia, a única editora que aceitou correr o risco de o publicar – como recordou Maria Teresa Horta – e que, mesmo tendo sido instada a cortar partes, insistiu em publicá-lo na íntegra.

Essa primeira edição foi recolhida e destruída pela censura, três dias após ter sido lançada no mercado – considerada de “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública” -, e as três autoras tiveram de se apresentar na polícia, onde foram sujeitas a interrogatório.

Com o adensar da situação, a pedido das autoras, um amigo da Maria Isabel Barreno que ia para França levou o livro a Simone de Beauvoir, que foi responsável pela sua divulgação internacional.

“Foi no estrangeiro que as coisas se precipitaram e fizeram das ‘Novas Cartas’ aquilo que as ‘Novas Cartas’ são, quanto a mim, lá fora, porque, aqui dentro, nunca vi que ninguém se preocupasse muito com as ‘Novas Cartas Portuguesas’, é uma coisa estranhíssima, eu até perguntei várias vezes se as pessoas não entendem o que está lá escrito”, afirmou.

“Penso que as pessoas leram as ‘Novas Cartas’ um bocado ao lado, nunca entenderam bem o que nós quisemos dizer. De repente, passado 50 anos, ‘olha escreveram as Novas Cartas, as Novas Cartas são portuguesas’”, ironizou.

O impacto internacional da obra deu-se logo pouco depois da sua divulgação pela escritora Simone de Beauvoir e pelo conhecimento público do processo de que as “Três Marias” estavam a ser alvo, com a cobertura do julgamento feita por meios de comunicação internacionais (entre os quais Le Monde, Times, New York Times, Nouvel Observateur e televisões norte-americanas), manifestações feministas em várias embaixadas de Portugal no estrangeiro e a defesa pública da obra e das autoras por várias personalidades internacionais (como Marguerite Duras, Doris Lessing, Iris Murdoch ou Delphine Seyrig).

Estas ações fizeram com que o caso fosse votado, em junho de 1973, numa conferência da National Organization for Women (NOW), em Boston, como a primeira causa feminista internacional, recorda Ana Luísa Amaral, na nota introdutória de uma edição da obra de 2010.

O significado político e estético do livro, que faz dele uma obra que permanece “fundamental”, “teve um reconhecimento além-fronteiras que nunca foi devidamente assinalado, nem estudado em Portugal, reconhecimento evidente no número espantoso de traduções para outras línguas, que o coloca entre os livros portugueses mais traduzidos no estrangeiro”, sublinha Ana Luísa Amaral.

Ainda hoje, a obra é ensinada num grande número de universidades estrangeiras e é objeto de estudo, de dissertações, ensaios e artigos de imprensa internacionais, o que – segundo Maria Teresa Horta – não acontece na mesma medida em Portugal.

“No ensino, os professores portugueses não querem ensinar nada que esteja perto das ‘Novas Cartas’, acho eu, mas enfim, querem que as mulheres continuem… se comportem muito bem, um bocadinho mais modernas do que dantes, mas não muito”, criticou.

A escritora reconhece que hoje há “uma grande diferença” em relação ao que era a realidade feminina no Estado Novo, “mas não tão grande como nas ‘Novas Cartas’”. Mas não é só no meio estudantil que o livro não tem sido acolhido como lá fora, também entre estudiosos e académicos: Maria Teresa Horta lança o desafio de procurar “textos, artigos, ensaios sobre as ‘Novas Cartas’”, garantindo que em Portugal quase não há, “no estrangeiro sim”.

Segundo Ana Luísa Amaral, o escândalo que rodeou a publicação do livro trouxe como “consequência perversa” a ideia, “sobretudo generalizada em Portugal”, de que se trata de uma obra datada, com uma visão ultrapassada e um feminismo fora de moda.

No entanto, contesta esta perspetiva, que tem dividido opiniões, afirmando que as “Novas cartas portuguesas” podem ser hoje lidas “à luz das mais recentes teorias feministas, ou ‘queer’”.

Quando a primeira edição do livro foi apreendida, as autoras tiveram de se apresentar na polícia, onde foram interrogadas juntas e em separado, para que revelassem quem tinha escrito os textos, em particular as partes consideradas de maior atentado à moral.

Até hoje as três recusaram-se a revelar e ninguém conhece individualmente a autoria de cada texto, como salientou à Lusa Maria Teresa Horta, que contesta uma ideia algo difundida de que a maioria seria obra de Maria Velho da Costa.

“Foram escritas pelas três. Ninguém vai dizer [quem escreveu cada texto]. Elas já estão mortas e eu nem morta nem viva digo quem escreveu, porque nós fizemos uma jura”, afirmou.

“Na família, amigas, amigos, ninguém sabe da minha boca quem escreveu o quê das ‘Novas Cartas’” e assim se manterá para sempre, porque “esta posição faz parte da construção do livro, faz parte principal, até, da construção do livro”.

As “Novas Cartas Portuguesas” começaram a ser escritas em maio de 1971, e durante nove meses as autoras reuniram-se todas as semanas, uma noite por semana, em casa de Maria Teresa Horta, levando consigo os seus textos.

As “Três Marias” chegaram a ir a julgamento, que teve início a 25 de outubro de 1973, e só não foram condenadas porque, após sucessivos incidentes e adiamentos, deu-se a Revolução de 25 de Abril de 1974.

“Novas Cartas Portuguesas” são “forma de dizer a pessoa humana” e mantêm-se atuais

As “Novas Cartas Portuguesas”, publicadas há 50 anos, “inauguraram um novo tempo na corrente literária do neofeminismo”, constituindo-se como “uma forma nova de dizer a pessoa humana e o seu modo de estar no mundo”.

Esta tese é defendida por Maria de Lourdes Pintasilgo, no pré-prefácio e prefácio da terceira edição da obra, publicada em 1980, e corroborada pela poeta Ana Luísa Amaral, estudiosa da obra, que confirma a sua contemporaneidade mais de meio século depois de ter sido escrita.

A obra “Novas Cartas Portuguesas” foi escrita em 1971 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, partindo das cartas de amor dirigidas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, e nela as autoras denunciavam a guerra colonial, as opressões a que as mulheres eram sujeitas, um sistema judicial persecutório, a emigração e a violência fascista.

O livro, que se assumiu como um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril, foi publicado em abril de 1972, e banido três dias depois pelo então regime, por “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”.

A obra só conheceria uma segunda edição em 1974, após a Revolução de 25 de Abril, prefaciada por Maria de Lourdes Pintasilgo, que seis anos depois, em 1980, assinaria o pré-prefácio e o prefácio da terceira edição.

Engenheira química, política e única mulher que desempenhou o cargo de primeira-ministra em Portugal (julho de 1979 a janeiro de 1980), Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) considerou que “é tal a rotura introduzida pelas ‘Novas Cartas Portuguesas’ que a sua primeira abordagem só pode ser feita à luz do que elas não são”.

Não são uma coletânea de cartas, nem um conjunto de poemas, nem um romance, “são talvez um pouco de tudo isso. E ainda mais: uma nova forma de dizer a pessoa humana e o seu modo de estar no mundo”, escreveu Maria de Lourdes Pintasilgo.

Um ensaio “que toca as raízes do ser, um contributo inédito para a antropologia social”, no que “recolhe de vida, de sensações, de comportamentos singulares universalizados”, acrescentou.

Esta ideia é igualmente defendida por Ana Luísa Amaral – responsável pela elaboração de uma edição anotada da obra, com o texto original de 1972 revisto, e com os prefácios de Maria de Lourdes Pintasilgo -, que sublinha a atualidade da obra, classificando-a como um “clássico”.

“As ‘Novas Cartas Portuguesas’ tratam de situações humanas básicas quer no campo do social, quer no campo literário. Essas situações humanas básicas são a discriminação, a desigualdade de género, a guerra, só para citar algumas. A desigualdade em termos de classe ou de raça. Esta questão também é levantada nas ‘Novas Cartas’, são situações que dizem respeito ao ser humano”, pelo que “embora tenha sido publicado em 1972, é completamente atual”, disse, em declarações à Lusa.

Referindo como exemplo a guerra na Ucrânia, a vida das mulheres em países como a Arábia Saudita ou o aumento da violência doméstica durante a pandemia, a poeta e professora universitária assinala que “estas questões existem nas ‘Novas Cartas’ e transitam para o nosso tempo”.

“Do ponto de vista literário, eu não conheço livro em lado nenhum do mundo que tenha sido escrito a seis mãos, que tenha sido escrito por três mulheres e sobre o qual permaneça o mistério sobre quem escreveu que partes”, acrescentou.

Também Maria de Lourdes Pintasilgo fez uma referência a este aspeto quando disse que a irmandade anteriormente anunciada por outras escritoras feministas, como Simone de Beauvoir, “nunca atravessou o limiar da obra criadora” até 1971, “até que 3 mulheres portuguesas, escritoras, se põem a fazer um livro”.

E juntando a sua voz à de Maria de Lourdes Pintasilgo, Ana Luísa Amaral afirma que “Novas Cartas Portuguesas” “não desafia só a questão do género enquanto categoria sexual socialmente construída, mas desafia também o próprio conceito de género literário”, na medida em que não pode ser catalogado.

O livro consiste em 120 textos que entrecruzam cartas, poemas, relatórios, textos narrativos, ensaios e citações, escritos coletivamente por aquelas que chegaram a ser definidas como “três aranhas astuciosas”.

Para a também professora universitária de literatura, esta obra “faz explodir o conceito e a estabilidade” dos géneros”. Já Maria de Lourdes Pintasilgo escreveu que as ‘Novas Cartas’ “rompem” e “extravasam”.

Pegando especificamente na frase de Pintasilgo que descreve a obra como “uma nova forma de dizer a pessoa humana”, Ana Luísa Amaral subscreve que “realmente é um convite que nos é feito para dotar novamente a pessoa humana de dignidade”.

Por isso, há cartas em que se simula a voz de um soldado na guerra colonial, que poderia ser um soldado noutra guerra qualquer, mas que aqui “adquire uma densidade mais interessante, porque tem a ver com a raça”.

“A pessoa humana não são só as mulheres. Isto não é um livro feminista. É um livro feminista, claro, mas é um livro sobretudo sobre os direitos humanos, sobre o humano, e isto é muito importante”, de que são exemplo essas cartas de soldados “que se mostram profundamente vulneráveis”.

A obra não se esgota nessa dimensão de tratar a condição das mulheres – do que lhes é consentido e negado, do cerco ideológico que as retém prisioneiras – e, por extensão, do ser humano.

Existe também a “universalidade da obra”, que, na altura em que foi escrito o prefácio, já estava traduzida para 10 línguas, era objeto de teses de doutoramento e era levada à cena em versões adaptadas por grupos de teatro em Nova Iorque e em Paris.

“Elas inauguram um novo tempo na corrente literária do neofeminismo contemporâneo”, escreveu Lourdes Pintasilgo. No entanto, até hoje, “Novas Cartas Portuguesas” é uma obra muito mais estudada no estrangeiro do que em Portugal, o que Ana Luísa Amaral atribui ao “incómodo” que causa na sociedade portuguesa, não só porque “mudou profundamente a ideologia então vigente, mas porque fala contra o racismo, contra o sexismo, contra o fascismo, é um libelo contra a guerra colonial”.

“É claro que tem de incomodar a direita, mas incomoda também as ideologias instaladas da esquerda”, porque “essas ideologias viram, a seguir ao 25 de Abril, como muito mais importante a construção de uma nação”, e a questão das mulheres não interessava, o que interessava era a luta de classes, “como se fosse possível pensarmos numa sociedade justa se as mulheres forem vistas com um estatuto de menoridade”, defendeu.

Para a escritora, ainda há muito por fazer em relação às mulheres, e consequentemente em relação à igualdade, à justiça e, num sentido mais amplo, em relação à sociedade. Maria de Lourdes Pintasilgo escreveu que as “Novas Cartas Portuguesas” atingiram um “nível simbólico em que se reconhecem mulheres de todos os continentes e classes sociais” e que o corpo da mulher, como lugar preferencial da denúncia da opressão das mulheres, “funciona como metáfora de todas as formas de opressão escondidas e ainda não vencidas”.


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