Faixa Atual

Título

Artista

Background

“O beijo da mulher aranha” no Trindade mostra atualidade da peça

Escrito por em 11/04/2022

A necessidade de aceitar a diferença é, para o encenador Hélder Gamboa, a “mensagem mais forte” de “O beijo da mulher aranha”, peça que dirige e estreia no dia 14, na sala Estúdio do Teatro da Trindade, em Lisboa.

Nos dias de hoje, “falar de alguém por ser homossexual ou alguém que tem valores políticos diferentes dos nossos ainda não é aceite”, pelo que o tema permanece atual e deve ser alvo de reflexão, disse o ator e encenador à jornalista Cláudia Páscoa, da Lusa.

“Temos de aceitar os outros como são, os que pensam diferente de mim, das minhas ideias”, acrescentou, sublinhando que, no texto do autor argentino Manuel Puig, está muito patente a necessidade de “nos sentarmos e ouvirmos o outro, para perceber que, se calhar, não somos tão diferentes como pensamos”.

“O beijo da mulher aranha” é o título de uma obra do autor nascido perto de Buenos Aires, em 1932, que em 1973 se exilou no México, por motivos políticos. Escrito e editado em 1976, o livro foi de imediato proibido na Argentina. Em março desse ano, um golpe militar colocou o país sob regime ditatorial (1976-1983), depondo a presidente María Estela Peron e colocando no poder o general Jorge Rafael Videla.

“O beijo da mulher aranha”, com adaptações um pouco por todo o mundo, incluindo na Broadway, tornou-se célebre depois do filme homónimo realizado em 1985, por Hector Babenco. A história centra-se em Valentín Arregui e Luís Molina, papeis desempenhados no cinema, respetivamente, por Raul Julia e pelo recém-falecido William Hurt, com o qual conquistou, entre outros, um Óscar de Melhor Ator e os prémios de Cannes e da Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA).

A ação situa-se numa cela, num país sob um regime ditatorial, onde estão encarcerados Molina, um homossexual – “uma mulher presa no corpo de um homem, como tantas que ainda existem e que a sociedade discrimina”, nas palavras do encenador -, e Valentín Arregui, um revolucionário e organizador de uma greve.

De ideais e origens sociais diferentes, “estes dois homens, quando finalmente conversam, quando finalmente olham nos olhos um do outro, percebem que, afinal, não são assim tão diferentes”, frisou.

Na adaptação para palco, Hélder Gamboa reduziu o texto a nove cenas, cada uma correspondendo a um dia de cativeiro e a um lado diferente das personagens. O cenário conta com uma cela assente numa placa giratória.

Com diferenças em relação ao filme do realizador nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, que “não viu, nem quis ver”, como o faz “sempre que põe em palco um texto que já foi posto em cinema”, Hélder Gamboa optou pela morte de um dos protagonistas no final da peça, deixando em aberto ao público o destino da outra personagem.

“Aqueles dois homens foram presos apenas por terem valores diferentes dos da sociedade vigente, um por ser homossexual, outro por valores políticos, e por isso, assustavam”, disse Gamboa à Lusa.

Ser diferente “é bonito quando copiamos coisas para colocar no Instagram e no Facebook”, mas, depois, “na realidade, ainda hoje temos medo do que é diferente”, acrescentou. “E muito pouca coisa mudou ainda nos dias de hoje”, mesmo em regimes democráticos, sobretudo “na voracidade da sociedade espetáculo em que vivemos” em que as redes sociais “aumentaram a facilidade de destilar ódios”, afirmou o encenador.

O espetáculo resulta de um convite pessoal do diretor artístico do Trindade, Diogo Infante, ao responsável da Tenda Produções, e o dia da estreia coincide com o 18.º aniversário da companhia.

Quatro anos depois de, também a convite de Diogo Infante, ter levado à mesma sala uma peça com duas mulheres – “Boa noite mãe”, de Marsha Norman -, Hélder Gamboa congratula-se pelo regresso ao Trindade, quando “a Tenda atinge a maioridade” – porque “continua a não ser fácil” fazer teatro em Portugal e, por se tratar do Teatro da Trindade, e por o espetáculo resultar do convite do “profissional e ser humano de excelência” que é Diogo Infante.

Produzido em conjunto pelo Trindade e pela Tenda, “O beijo da mulher aranha” é interpretado por Diogo Mesquita (Valentín) e João Jesus (Molina). Está em cena até 05 de junho, com sessões de quarta-feira a domingo, às 19:00, e, no final do espetáculo de 01 de maio, haverá uma conversa com o público.

A peça, em que participa André Ramos, tem desenho de luz de Paulo Graça, cenografia e figurinos de Rui Filipe Lopes, música de Luís Pinto Lucena e participação vídeo de José Raposo. Com versão portuguesa e dramaturgia de Ângela Pinto, que assiste na encenação, e Hélder Gamboa, a “O beijo da mulher aranha” terá um ensaio solidário, na véspera da estreia.

A receita reverterá na totalidade a favor do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), que tem como missão “acompanhar, servir e defender” os refugiados deslocados à força e todos os migrantes em situação de particular vulnerabilidade.


Opnião dos Leitores

Deixe uma resposta