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Refugiados sobem ao palco para contar uma história bizarra

Escrito por em 09/04/2022

Um espetáculo em que os atores são refugiados em Portugal, oriundos de nove países e falantes de oito línguas diferentes, sobe ao palco do Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, para contar a história bizarra de quem foge para sobreviver.

“Une Histoire Bizarre” reúne migrantes e refugiados de nove países: Síria, Afeganistão, Paquistão, Irão, Iraque, Nigéria, Gâmbia, Moçambique e Ucrânia, além de portugueses.

Apesar de contar com uma atriz que exercia a arte da representação de uma forma profissional na Nigéria, o grupo é composto por amadores que vão falar também em português, tendo para isso recebido formação.

Esta história começou a 4.350 quilómetros de Sintra, onde no dia 23 estreia a peça, nomeadamente em Lesbos, no maior campo de refugiados da Grécia. Em 2019, o diretor artístico e de projeto Sebastião Martins, médico de profissão, encontrava-se em Lesbos a fazer voluntariado médico, experiência que o marcou e que esteve na origem da ideia. “Percebi a importância na vida das pessoas de ter alguém a quem contar a sua história”, disse à jornalista Sandra Moutinho, da Lusa.

E houve uma história, a primeira, que tocou o clínico em particular: “Foi a de uma mulher que vinha dos Camarões e que, quando perguntei como é que eu a podia ajudar, ela, depois de um silêncio prolongado, disse: ´Je vais vous raconter mon histoire bizarre` (vou-lhe contar a minha história bizarra)”.

E contou, pela primeira vez, a história da sua vida e de como tinha chegado à Europa. No final, agradeceu por ter um sítio onde pudesse contar a sua história, porque estava a precisar disso.

A história desta mulher viria a repetir-se inúmeras vezes nos relatos de quem passou por “vivências traumáticas de vários tipos – de familiares, pessoas próximas que acabaram por falecer ou foram vítimas de tortura; ou até dos próprios, abusos sexuais, abusos físicos, pessoas que vieram de cenários de guerra e que tiveram que sair com uma mochila às costas, com pouca coisa e muita solidão”.

Àquele “palco” chegavam sobretudo pessoas que fugiam da violência no Afeganistão, Paquistão, República Democrática do Congo e Eritreia. Sebastião Martins começou então a alinhavar a ideia de criar em Lisboa “um espaço de liberdade e de partilha de histórias, histórias de vida, de pessoas e partilhá-las depois, também com o público”.

E continuou a amadurecer a ideia quando passou para o campo de refugiados no Bangladesh, o maior do mundo, que acolhe os refugiados Rohingya, que fogem da violência em Myanmar. Os dois campos alojam histórias semelhantes, mas perspetivas futuras diferentes.

“Na Grécia estavam de passagem e isso dava-lhes um conforto. No Bangladesh, eles estavam há dois anos no campo e não tinham perspetiva de dali saírem e, infelizmente, assim continuam”, disse.

“Todas estas pessoas são, no fundo, pessoas como nós que tiveram o azar de nascer num sítio complicado ou de serem invadidas por um conflito ou uma perseguição, a que elas são alheias”, referiu.

E acrescentou: “São pessoas que têm obviamente os seus objetivos, os seus sonhos, as suas vivências, além das experiências traumáticas”. “É isso que nós vemos aqui também no teatro – são pessoas que, agora que chegaram, estão de facto a tentar viver, a resistir e a olhar para a frente, a pensar no futuro e a sonhar”, disse.

Para Júlio Martin, um encenador com vários anos de experiência, também foi uma novidade, pois “nunca tinha trabalhado com uma população em que se fossem faladas oito línguas diferentes”. Mas as óbvias dificuldades foram sendo ultrapassadas com outras formas de comunicação, como o corpo, com a dança, e o canto.

“Eles muitas vezes contavam as suas histórias e depois eram traduzidos por pessoas que dominavam a sua língua original e o inglês. Felizmente vão dizer várias coisas em português, que era um objetivo nosso desde o início”, disse Sebastião Martin, sublinhando a importância da aprendizagem do português, ainda que “de uma forma mais informal”.

Com estes autores, estarão também em cena as memórias boas que têm dos seus países, e que mostram no palco através da dança e da música, por exemplo, o que os ajuda a estar “mais em paz, mais tranquilos com esse seu passado”.

“É uma história de pessoas e sempre foi o objetivo do projeto falar das pessoas, além do rótulo. Curiosamente, quando chegámos ao fim do guião apercebemo-nos que as palavras migrantes e refugiados não são ditas uma única vez”.

O espetáculo tem estreia nacional a 23 de abril, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, estando a 1 de maio no Auditório Senhora da Boa Nova, da Fundação Luís I, em Cascais, e a 7 e 8 de maio no Auditório Santa Joana Princesa, em Lisboa. Em 11 de junho, “Une Histoire Bizarre” sobe ao palco do Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Carnaxide (Oeiras).

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