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“Penélope” expõe memórias de mulheres durante a Guerra Colonial

Escrito por em 07/04/2022

Memórias de gerações marcadas pela Guerra Colonial deram mote ao espetáculo “Penélope”, centrado nas mulheres que viviam sob a ditadura, num regime moralista e autoritário, enquanto aguardavam o regresso dos homens, dos lugares do conflito, muitos deles estropiados ou mortos.

“Penélope – Adeus, até ao meu regresso”, de Patrícia Susana Cairrão, que também interpreta, e Ricardo G. Santos, é o nome do espetáculo que, no dia 25, sobe ao palco do Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra.

A peça que se estreará em Sintra é uma “viagem performativa” que levará o público por “memórias de gerações marcadas pela guerra colonial portuguesa”, como disse hoje à jornalista Cláudia Páscoa, da Lusa, Ricardo G. Santos, ator e diretor artístico da associação cultural Rugas, com sede em Sintra.

Com texto original e composição coletiva inspirada em aerogramas e cartas trocadas durante a guerra em África, a partir de testemunhos reais e de arquivos históricos, “Penélope” é uma criação da Rugas, estreada em outubro de 2021 na Casa da Cultura Lívio de Morais, em Agualva-Cacém (Sintra).

“Penélope” foi também criada com base em cartas dos pais de Ricardo G. Santos e de Patrícia Cairrão, e leva para título o nome da mulher de Ulisses que, durante duas décadas a ele se mantém leal, aguardando o seu regresso a Ítaca da Guerra de Troia, como contado por Homero, na “Odisseia”.

Que mulheres eram estas que aguardavam pelos seus homens, o que as movia e como se sentiam no contexto da Guerra Colonial que marcou as décadas de 1960 e 1970? Que danos colaterais que a guerra causou, e ainda causa?

Estas são algumas das questões levantadas no espetáculo. “Penélope” pretende ainda “exercitar” uma reflexão sobre a memória, a vida e a morte, e a condição feminina “impregnada de guerra”, marcada pela separação, pelo medo, pelo legado da perda, do desconhecido e pela espera de um regresso que podia não acontecer – situações que marcaram a vida de muita gente naquelas décadas do século XX em Portugal, acrescentou Ricardo G. Santos.

Além da criação artística que cruza a arte performativa e visual – e que a Rugas conta vir a pôr em filme -, a companhia leva também ao Centro Cultural Olga Cadaval uma exposição com perto de 100 objetos resultantes da pesquisa feita para o espetáculo, acrescentou Ricardo G. Santos.

Selos, fotografias, aerogramas e cartas que os criadores encontraram na Feira da Ladra, assim como correspondência trocada entre mães e outros familiares, noivas e soldados. A mostra resulta de uma ideia da cenógrafa e figurinista de “Penélope”, Rita Capelo, que, segundo Ricardo G. Santos, “achou interessante” aproveitar um espaço de “maior visibilidade, como é o Centro Cultural Olga Cadaval”, para mostrar ao público muito do material que reuniram na pesquisa que antecedeu a criação de “Penélope”.

A exposição é acompanhada de um registo áudio de conversas de algumas pessoas entrevistadas, que contaram a sua experiência pessoal durante a Guerra Colonial. “Vem inteiro daí”, “Cuida-te”, “Toma cuidado contigo” ou “Vem-te embora, que essa não é a tua guerra” são, segundo Ricardo G. Santos, das frases mais lidas na correspondência trocada entre mães, familiares e noivas dos soldados e que também se ouvem no espetáculo.

Da correspondência remetida pelos soldados, Ricardo G. Santos destaca, a par das descrições sobre o local e as gentes do local onde se encontravam, muitas frases onde se lê que “não podiam dizer mais, pois podiam ser presos”.

Além da exposição, Ricardo G. Santos disse ainda que a Rugas gostava também de promover uma conversa com escritoras que se tenham debruçado sobre a Guerra Colonial, iniciada em 1961, embora ainda não tenham confirmações.

“Sinais de vida”, da investigadora e realizadora Joana Pontes, com cartas da guerra entre 1961 e 1974, é uma das obras que esteve na base do trabalho de pesquisa e investigação dramatúrgica de “Penélope”, que tem composição musical e sonoplastia coletiva, design de Luís Mileu e fotografia de cena de Teresa Martins.

Além da sessão de dia 25, destinada ao público em geral, “Penélope” será também apresentada, dois dias depois, no Centro Olga Cadaval, numa sessão exclusiva para escolas.


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