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Bienal Anozero começa no sábado em Coimbra

Escrito por em 07/04/2022

A bienal de arte contemporânea Anozero é inaugurada às 00:00 de sábado, em Coimbra, numa edição que, apesar de ter como mote a “meia-noite”, não quer iluminar ninguém, antes fazer com que as pessoas aprendam “a ver no escuro”.

A bienal volta a ter como lugar central o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, onde se procura dar voz e visibilidade a outras formas de conhecimento, que não o europeu, branco e masculino. “A ideia de iluminar, que é uma coisa muito europeia, não nos interessa nada. Queremos talvez, a partir destas obras e destes artistas, aprender a ver no escuro. Aprender a ver de uma outra maneira”, afirmou à agência Lusa Filipa Oliveira que, juntamente com a francesa Elfi Turpin, asseguram a curadoria da presente edição.

Neste ano, três mulheres assumem-se como os pilares da exposição no Mosteiro, Aurélia de Sousa, artista portuguesa do início do século XX, que marca a entrada no espaço, com uma fotografia sua vestida de Santo António, a francesa Sarah Maldoror e a sua primeira curta-metragem, em que adapta um conto do escritor José Luandino Vieira sobre a tortura nas prisões coloniais de Angola, e a senegalesa Seni Awa Camara, com um conjunto de esculturas em terracota, que se assumem como “repositórios de histórias pessoais”, mas também de mitos.

Pelo Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, será possível encontrar obras que procuram derrubar uma linguagem estabelecida pelo patriarcado, uma máquina de fumo de ervas com efeitos hormonais, uma conversa intimista entre um filho e a sua mãe que fugiu de Angola, questões de um jovem poeta nigeriano que abandona a arte para lutar na Guerra do Biafra, uma artista que questiona a ausência de personalidades negras nas representações da cena parisiense do início do século XX, uma instalação que troca o papel por betão para sinalizar o peso da burocracia ou uma obra em que se fala dos efeitos de colonialismo na língua.

Pelo espaço, ainda não completamente pronto, a Lusa encontrou Ru Kim, da Coreia do Sul, que finaliza a sua obra, em que fala do uso da água, elemento que o ser humano entende como algo passivo, sobre o qual pode “agir e usar sem consequências”.

A intervenção divide-se em três momentos que confluem no mesmo espaço, um sobre uma ponte em Seul onde muitas pessoas se suicidam, outro sobre o Mar Mediterrâneo, transformado num “cemitério” face à política de migrações da Europa e, por último, uma referência às minas de lítio em Portugal e à contaminação de água que estas podem causar. “Queria perceber como podemos pensar a água de forma diferente”, disse Ru Kim.

A bienal estará também no Teatro da Cerca de São Bernardo, na Estufa Fria do Jardim Botânico e ainda nos dois edifícios do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), cujo edifício-sede recebe várias obras de Lastenia Canayo, artista de uma comunidade da Amazónia, cujas pinturas representam espíritos vegetais e animais.

Uma parte significativa dos artistas presentes nesta bienal é originária do hemisfério sul ou tem lá raízes, algo que não foi uma preocupação da equipa curatorial, mas que se tornou natural a partir do momento em que se quis dar visibilidade “não ao conhecimento europeu, branco, masculino, mas a esses outros saberes e práticas”, explicou Filipa Oliveira.

“Há uma preocupação de olhar para outras formas de saber e, se calhar, elas não estão aqui, estão maioritariamente fora. Esse sul global aparece por isso”, acrescentou. Segundo Filipa Oliveira, as duas curadoras montaram esta exposição a partir da sua perspetiva – com “óculos feministas” -, o que não remete apenas para questões em torno da desigualdade de género, mas para todo o tipo de desigualdades e de “vozes silenciadas e que são tornadas invisíveis”.

Nesse sentido, o tema da noite acaba por frisar essa intenção, como uma altura ou lugar em que as fronteiras se tornam “mais fluidas” e onde se esbatem questões como a cor, a raça ou o género. Também à noite, é quando os morcegos vagueiam pela Biblioteca Joanina e se alimentam de insetos, ajudando a preservar os livros, apesar de os mesmos animais “não quererem saber do património”, notou.

“Queríamos explorar esta relação dos morcegos com os livros e ver a noite como um espaço onde se encontram outras formas de vida, onde os nossos sentidos se podem desenvolver e onde estamos mais disponíveis para outras entidades e espíritos”, acrescentou Elfi Turpin.

Pelo Mosteiro, passam muitos artistas que serão expostos pela primeira vez em Portugal, como Ru Kim, Seni Awa Camara ou Vivian Suter, numa bienal em que o próprio edifício é também uma “ferramenta, um ator e uma atriz”, frisou Filipa Oliveira. A bienal decorre até 26 de junho.


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