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Marion Kaplan pede valorização dos refugiados

Escrito por em 05/04/2022

Os refugiados devem ser “valorizados” como pessoas com passado ou com experiência profissional “apesar de terem perdido tudo”, considera a historiadora norte-americana Marion Kaplan, que investigou a fuga dos judeus através de Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial.

Numa altura em que a Europa vive a sua pior crise de refugiados desde a II Grande Guerra devido à invasão da Ucrânia pela Rússia, a autora do livro “Os Refugiados Judeus de Hitler – Esperança e Ansiedade em Portugal” observou, em declarações à agência Lusa, que a questão dos refugiados e de como são tratados “acontece ao longo da História”.

“As pessoas perdem o ‘estatuto como pessoas’, passam a ter apenas ‘estatuto de refugiado’ e isto é muito doloroso”, declarou Marion Kaplan. “Tento explicar que os refugiados são pessoas com passado, os judeus durante a Segunda Guerra Mundial ou recentemente os sírios ou os ucranianos eram ou são pessoas da classe média, tinham uma profissão, família e bens materiais e que, de repente, perderam tudo”, disse.

Marion Kaplan citou o caso de uma refugiada judia em Londres durante os anos 1940 que devido às circunstâncias trabalhou como empregada de limpeza numa casa com um “fantástico” piano de cauda.

“A refugiada diz à dona da casa ‘eu sou pianista e costumava tocar em concertos e recitais’. A dona da casa, tentando ser simpática, responde: ‘Temos um piano na cave. Pode usá-lo. A dona da casa trata-a como uma refugiada não como pianista”, explicou.

Na obra “Os Refugiados Judeus de Hitler”, traduzida recentemente em português, a historiadora norte-americana disse procurar perspetivas diferentes através de fontes “ainda pouco exploradas” como a correspondência ou os diários pessoais em que os locais de refúgio são mencionados e – o que “é mais importante” – onde as pessoas em fuga descrevem os sentimentos. 

“Procurei os lugares e a forma como esses locais provocam emoções como uma fronteira, um café, uma pensão ou local de acolhimento e comecei a aperceber-me da complexidade de sentimentos em que a pessoa se encontra como refugiada de guerra”, precisou, referindo-se aos relatos dos judeus perseguidos pela Alemanha nazi em trânsito por Portugal.

“Os dias dessas pessoas eram preenchidos pelo medo e pela ansiedade, mas também pela esperança. São uma série de emoções diferentes e muito complicadas sendo que, às vezes, determinam uma decisão. Foi isso que eu quis explorar no livro”, explicou Marion Kaplan, sublinhando que nos anos 1940 a “situação legal” dos refugiados não estava determinada e as comunicações nos países em conflito eram extremamente difíceis ou inexistentes. 

Mesmo considerando que “algumas das coisas são expectáveis”, a historiadora lembrou: “os judeus durante a Segunda Guerra Mundial tiveram de atravessar muitas fronteiras e de forma incerta: para França, para Espanha e finalmente para Portugal. Muitos deles não tinham a documentação necessária e isso provoca medo. Há experiências terríveis, de abuso, nas fronteiras, mas também de grande ajuda”. 

De acordo com as fontes consultadas, os sentimentos dos judeus que passavam por Lisboa em trânsito para os Estados Unidos, por exemplo, eram de perda total e desconhecimento face ao acolhimento oficial num país “neutro”, mas que vivia sob o jugo da ditadura do Estado Novo e que dispunha de uma polícia política.

“A posição de Salazar contrastava fortemente com a da Primeira República portuguesa, que mostrara interesse em povoar Angola com colonos – nesse caso judeus”, escreveu a investigadora para contextualizar a posição do Estado Novo.

Marion Kaplan recorda que com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o regime português opôs-se não só à fixação, mas inclusivamente ao trânsito pelas colónias. “Portugal sob Salazar mostrou maior antipatia em relação a refugiados a entrarem nas suas colónias do que àqueles que entravam em Portugal continental”, escreveu.

No livro, além dos inúmeros relatos da passagem dos refugiados por Lisboa, Porto ou Ericeira, é quantificada a passagem das pessoas em fuga do genocídio nazi, que matou milhões desde os anos 1930, na Europa.

A investigação aprofunda também as questões relacionadas com a documentação para pessoas apátridas, os designados Passaportes Nansen, que começaram a ser emitidos pela Sociedade das Nações a partir de 1922 e que ajudaram sobretudo cidadãos russos e arménios na década de 1920.

A obra refere também a Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados das Nações (1951) e para analisar a evolução da legislação internacional recorre às palavras de Warsan Shire, poetisa britânica de origem somali nascida em Nairobi no Quénia em 1988, que resumiu no século XXI a condição das pessoas em fuga. 

“Ela (Warsan Shire) diz que ‘ninguém sai de casa a não ser que a casa se transforme nas garras de um tubarão’ e que ‘ninguém põe os filhos num navio a não ser que a água seja mais segura do que terra firme’. Isto aplica-se aos refugiados judeus (durante a Segunda Guerra Mundial) mas também aos refugiados sírios e infelizmente aos ucranianos”, disse Kaplan.

Segundo os dados mais recentes da ONU, 4,2 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia desde que a Rússia invadiu o país a 24 de fevereiro. Para a historiadora, o obstrucionismo burocrático “afligiu” os refugiados na década de 1940 e continua “a fazê-lo hoje atormentando aqueles que fogem da guerra sem documentos de cidadania, vistos ou outros documentos semelhantes”.

“Então, tal como agora, os refugiados aprenderam que os documentos eram – e são – muito mais importantes que os indivíduos. E todos eles partilham a angústia e o tédio de esperarem que burocratas desconhecidos decidissem o seu destino”, declarou a historiadora.

Marion Kaplan nasceu em Londres em 1946, mas tem cidadania norte-americana, sendo professora na Universidade de Nova Iorque e autora de uma série de livros sobre refugiados e vítimas do nazismo. Foi distinguida três vezes com o National Jewish Award.

O livro “Os Refugiados Judeus de Hitler – Esperança e Ansiedade em Portugal” (editora Temas e Denates, 439 páginas), inclui fotografias e foi lançado este mês.


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