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“The Ziguais” mostram que ser desigual é importante

Escrito por em 02/04/2022

Os “The Ziguais” nasceram há 20 anos como uma banda de rock, e depois de um CD e alguns espetáculos estreiam-se num documentário para que todos percebam que ser desigual é importante e que os autistas também fazem música.

Os “The Ziguais” é a banda da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e do Autismo (APPDA Lisboa), mas apesar de o grupo existir desde 2002, o nome surgiu em 2019, na sequência de um prémio para o setor social.

Segundo a coordenadora pedagógica da APPDA-Lisboa, Inês Neto, o nome resultou de um processo criativo feito através de uma agência de comunicação, que conseguiu criar para uma “banda de estrelas” o nome que ela merecia, e que assentou que “nem uma luva” porque demonstra a heterogeneidade dos membros do grupo, que em comum têm o autismo.

“The Ziguais faz sentido, no sentido em que somos desiguais. O ser diferente é importante na sociedade, aceitar os outros como são e isso é também uma aprendizagem que as pessoas têm de fazer”, explicou à jornalista Susana Venceslau, da Lusa, o professor de música.

A banda tem onze elementos, mas no dia em que a Lusa assistiu a um dos ensaios estavam seis músicos: Duarte Aranha, vocalista, Catarina Loureiro, bateria, Fernando Seabra, caixa de percussão, Jorge Calçarão, também percussão, Rui Gonçalves ou Ruizinho, pandeireta, e Amílcar Mahala, mais conhecido como Micas, viola baixo.

A coordenar tudo isto está o professor de música Rui Pais, para quem o principal desafio neste projeto é alertar a sociedade, despertar a consciência das pessoas através “de um simples projeto que é a música e fazê-las refletir também”.

“As pessoas não é por serem diferentes que não fazem música, ou arte e expressam-se. Isto tem um lado terapêutico, mas também um lado de sensibilização”, apontou. Inês Neto, por outro lado, destacou que o autismo das pessoas que compõem a banda “é pouco retratado”.

“Falamos de pessoas com muitas dificuldades de comunicação, com muitas dificuldades em contar a sua história na primeira pessoa e o que este documentário fez foi ouvir familiares, amigos, profissionais que trabalham com eles”, explicou.

Apesar das dificuldades em comunicarem, quatro dos elementos quiseram falar com a Lusa e, cada um a seu modo, contar a importância que a banda tem para si. “Gosto muito de cantar porque o canto é o meu forte”, disse Duarte Aranha, 22 anos, o vocalista principal da banda.

A bateria é da responsabilidade de Catarina Loureiro, 17 anos, que contou que também canta, que foi um tio que a ensinou a tocar bateria e que já deu muitos concertos. “Fui ao cinema São Jorge [em Lisboa] cantar os parabéns à APPDA, fez 51 anos. Gostei muito”, disse.

Fernando Seabra, 48 anos, mais conhecido por Nando, toca tambor, mas também sabe tocar piano. “Gosto da música dos Queen. Já toco há muito tempo. Gosto de tocar”, contou, sorridente. Amílcar Mahala, tratado por Micas entre os amigos e responsável pela viola baixo, aproveita, enquanto a equipa da Lusa apronta os meios técnicos, para tocar e cantar a célebre música de Cesária Évora “Sodade”. Toca viola baixo e piano. “Gosto mais da viola baixo”, disse.

“Este grupo de pessoas gosta de participar, sentem-se bem porque sentem que têm voz. Estamos a trabalhar a autoestima evidentemente e isso é bom para eles”, explicou o professor. Inês Neto apontou, por outro lado, que cada um tem um papel muito bem definido, todos sabem o que fazer, o que cada um gosta e sabem interagir entre eles.

“É muito interessante vê-los na banda e fora da banda. O comportamento muda completamente, sobretudo em palco, com plateia, eles transformam-se completamente e é muito interessante ver o impacto que a banda ‘The Ziguais’” tem na vida destas pessoas”, referiu.

Deu como exemplo o caso do Duarte, um rapaz bem-disposto, “mas muito focado nos seus interesses”, como os filmes da Disney, e pouco interessado em tudo o que saia disso, mas que no ensaio até dançou.

“Coisa que é muito rara nele, estava mesmo a abanar a anca porque ele interioriza mesmo este papel de vocalista e de líder da banda, como ele gosta de dizer”, destacou Inês Neto. Acrescentou que a banda “dá-lhes um palco onde eles se sentem capazes e onde sentem que o seu desempenho é reconhecido, e que às vezes noutras áreas da vida não sentem esse reconhecimento”.

A banda começou como quarteto, primeiro mais focado no rock, depois no jazz, entretanto entraram mais membros. A banda foi crescendo, ganhou nome e fez concertos. Tinha até uma tournée prevista para 2020, no exato momento em que chegou a pandemia de covid-19. A opção foi, por isso, gravar um documentário – o primeiro sobre autismo em Portugal – que permitisse levar o autismo a outros públicos e mostrar à sociedade “este autismo que é invisível”, e que estreia hoje, na Fundação Oriente, em Lisboa.

O professor Rui Pereira confidenciou ainda que gostava que estas pessoas fizessem parte do mercado da música, juntamente com outras pessoas que não são autistas, à semelhança do que já acontece noutros países, admitindo que, para isso, seria necessário haver escolas de música especializadas no ensino destas pessoas, o que ainda não acontece.

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