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Troy Kotsur: “Os ouvintes negligenciaram os surdos”

Escrito por em 28/03/2022

Troy Kotsur, que fez história esta madrugada ao ser o primeiro homem surdo a vencer o Óscar de Melhor Ator Secundário, disse que a comunidade surda tem histórias ricas para contar que não devem ser ignoradas. 

“No geral, os ouvintes negligenciaram os surdos e alhearam-se da cultura surda”, afirmou o ator nos bastidores da cerimónia, após receber o Óscar pelo seu papel em “Coda – No Ritmo do Coração”. 

“Nós temos talento e há muitas formas de contar uma história de diferentes perspetivas e com diferentes jornadas”, continuou, pedindo “mais espaço” em Hollywood para a diversidade de contadores de histórias. 

“Temos uma história tão rica na comunidade surda, na comunidade de portadores de deficiências, na comunidade Coda”, sublinhou. “Isto é só o princípio”. Visivelmente entusiasmado com a vitória, Troy Kotsur fez alguns gracejos e disse que uma das melhores partes do sucesso e do papel em “Coda”, no qual interpreta o pai surdo de uma adolescente que consegue ouvir, foi poder usar palavrões em linguagem gestual. 

“Finalmente”, exclamou, “esta é a vulgaridade. Vocês podem provar disto também, e é um sabor tão bom”, continuou. “Conseguem aprender a riqueza do nosso vocabulário?”
 
Kotsur disse que a linguagem gestual “salvou” a sua vida e explicou que o motivo pelo qual usa sempre um chapéu é porque as luzes nas cerimónias são tão fortes que precisa dele para poder ver bem o seu intérprete. 

Na sala de entrevistas, por onde passaram os vencedores dos Óscares a noite toda, a Academia teve pela primeira vez intérpretes de linguagem gestual. “Hollywood está pronta para o próximo passo”, concluiu Kotsur, em parte como afirmação, em parte como questão. 

Na 94.ª cerimónia dos Óscares, que decorreu esta madrugada em Hollywood, o filme da Apple TV+ “Coda” consagrou-se como Melhor Filme e também deu à realizadora Siân Heder o Óscar para Melhor Argumento Adaptado.

A história centra-se numa família de surdos em que Ruby (Emilia Jones) é o único membro que consegue ouvir e falar. O acrónimo Coda designa, em inglês, filhos ouvintes de pais surdos (Children of Deaf Adults), um tema raramente abordado por Hollywood que agora venceu o Óscar de Melhor Filme. O argumento foi adaptado do filme francês “La Famille Bélier”, de 2014, o que levou Troy Kotsur a agradecer a “semente” plantada e a dizer “merci” a França.

Texto de Ana Rita Guerra, da Lusa, em Los Angeles.

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