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Sapatos, vestidos e outras peças de Amália em mostra inédita

Escrito por em 23/03/2022

Os museus do Calçado e da Chapelaria, em São João da Madeira, têm patente até agosto uma mostra inédita sobre o vestuário da fadista Amália Rodrigues (1920-1999), incluindo vestidos, joias e pares da sua coleção de 219 sapatos.

Resultando de uma parceria com a Fundação Amália Rodrigues e com curadoria de Joana Galhano, Sara Paiva e Tânia Reis, a exposição reúne cerca de uma centena de peças da coleção privada da artista que, consciente da sua feminilidade, a explorou com um particular sentido de moda e “inventou a figura da fadista vestida de negro, posicionada à frente dos guitarristas e atuando com as mãos juntas, em oração”.

A mostra “Amália Mulher” combina assim peças de vestuário e acessórios de moda com fotografias, notas biográficas, citações, poemas e letras de canções, dando a conhecer o que Joana Galhano considera os contrastes da cantora. Trajando desde o negro integral aos grandes padrões floridos e exóticos, a imagem cuidada da cantora ajudou, por um lado, “a que a elevassem a Rainha de Portugal” e “diva dos palcos”, e, por outro, a que se preservasse também a sua “meninez”, a postura de “mulher humilde e devota”.

Das cerca de 100 peças dispostas pelos dois museus, destacam-se alguns dos 17 pares de sapatos que Amália adquiriu especificamente para aumentar a sua figura em palco, já que a artista media apenas 1,58 de altura e procurava disfarçar esse aspeto. “Criados especialmente para ela pela marca Mabel, esses sapatos teriam entre 15 e 17 cm de altura, pelo que quem a via em palco tinha sempre a ideia, graças ao seu ‘calçado-plataforma’, de que era uma mulher alta”, explica Joana Galhano.

Nos eventos formais, a cantora usava marcas de alta-costura como Prada, Versace, Salvatore Ferragamo e Yves Saint Laurent; em contexto mais informal, adotava o estilo de mulher independente, com o qual se distinguiu sobretudo nos anos de 1950.

Para Joana Galhano, tratava-se de uma vantagem proporcionada pelo seu estatuto de lenda viva e desafiava os cânones conservadores impostos pela ditadura: “Divorciada, usava calças, fumava, divertia-se como bem lhe aprazia, ignorava as más-línguas, sentia-se bem na sua pele”.

Descrita como usando sempre cabelo arranjado, sobrancelhas bem definidas, olhos delineados a preto e lábios em batom vermelho, Amália “tinha uma maneira de estar na moda muito própria” e, pelos dois museus, há citações em que ela própria comenta as suas opções.

“Estar bem vestida é quando uma pessoa olha para o espelho e se sente bem. Mesmo que seja fora de moda”, defende a cantora, citada num dos painéis da exposição. “Gosto tanto de coisas que brilhem que chego ao fundo da escada e tenho de voltar para trás, porque olho para mim e acho que é demais”, refere noutra zona da mostra.

Para Joana Galhano, o certo é que os vestidos, chapéus, sapatos e joias de Amália Rodrigues se tornaram “fragmentos de uma história de vida dedicada à Cultura”, contribuindo para o “ícone internacional” – de música, arte, política, religião e beleza – que ainda hoje inspira gerações de novos fadistas e outros criadores.

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