Faixa Atual

Título

Artista

Background

Meridional e José Luís Peixoto apelam ao absurdo em parábola sobre atualidade

Escrito por em 16/03/2022

A peça “Vida inversa”, que se estreia hoje no Teatro Meridional, em Lisboa, é uma parábola sobre a atualidade, através de cinco personagens que procuram concretizar um projeto num mundo absurdo, tão cheio de lógica como do seu oposto.

Resultado do desafio lançado pelo Teatro Meridional ao escritor José Luís Peixoto, já durante a pandemia, como a encenadora Natália Luiza explicou à jornalista Cláudia Páscoa, da Lusa, “Vida Inversa” concretiza-se numa “parábola sobre o que se estava a viver”, dentro de um certo contexto distópico.

As cinco personagens da peça procuram reunir as melhores ideias para realizar um projeto do município de Bucareste, num ambiente disfuncional, simultaneamente lógico e ilógico, remetendo de imediato para o teatro do absurdo e para o universo do seu mestre, o dramaturgo franco-romeno Eugene Ionesco.

Com texto de José Luís Peixoto e encenação de Natália Luiza, “Vida Inversa” constroi-se com as personagens a expoerem as suas relações, os seus sonhos, equívocos, a forma como entendem o futuro, sem esquecer o presente e o passado, ao mesmo tempo que vão equacionando perguntas e problemas para os seus projetos, que as máquinas não conseguem resolver.

Que mundo será então este que as cinco personagens vivem em palco e que, no fundo, acaba por ser tão parecido com o mundo em volta, atual? A questão atravessa aliás toda a peça, como disseram à imprensa José Luís Peixoto e Natália Luiza, no final de um ensaio parcial do espetáculo.

Depois de, em 2005, o Teatro Meridional ter posto em cena “Amanhã”, também de José Luís Peixoto, Natália Luiza desafiou o escritor, numa altura em que Portugal já se confrontava com a pandemia de covid-19, a voltar a escrever uma peça para a companhia que dirige com Miguel Seabra, o Teatro Meridiona, que este ano celebra trinta anos.

O objetivo era obter “um texto que tivesse uma dimensão distópica, mas que, ao mesmo tempo, pudesse ser uma parábola sobre o que se estava a viver”, como recorda o escritor que, como recorda, foi entretanto escrevendo e mostrando o texto à encenadora.

“E fomos avançando assim numa espécie de ‘pingue-pongue’ criativo até há bem pouco tempo, porque o texto só ficou fixado já durante os ensaios”, sublinhou José Luís Peixoto. O texto tem muito de teatro do absurdo, no sentido da aparente falta de sentido e de propósito das ações humanas, e tem a ação a decorrer na Roménia – país de origem do Nobel da Literatura Eugene Ionesco, cuja obra constitui um dos expoentes do género -, sobretudo por a grande maioria da peça ter sido escrita neste país, durante uma residência literária de José Luís Peixoto, em Timisoara.

A tecnologia, aliada às circunstâncias do tempo presente, que “nos fazem pensar o próprio tempo e olhar para princípios essenciais”, é uma das temáticas da peça, disse ainda o escritor
Para que fosse retomada “uma ideia do absurdo inicial”, e das suas primeiras representações em palco, o texto recorre mesmo ao conceito de Patafísica, a ‘ciência’ das soluções imaginárias ou da unidade dos opostos, como concebida pelo dramaturgo francês Alfred Jarry, autor de “O Rei Ubu”.

Não falta mesmo um Patafísico em palco, um dos seres concebidos por Jarry, que insistem que nada é sério, sobretudo a Patafísica. A cartomancia é outra das ‘ciências’ posta em cena, consubstanciada na leitora de sinas que, com o Patafísico, remete para o futuro.

Num texto que, segundo Natália Luiza, apresenta “uma série de interrogações e reflexões, mas não responde a nada”, “Vida inversa” acaba por corresponder à “travessia que fazemos no momento […] com a pandemia e agora com uma guerra em curso”.

“Quem somos, como podemos ser a cada hora que passa, onde é que nós estamos e como é que nos posicionamos face à guerra e à comunicação, que é bombástica, é uma comunicação-espetáculo [que nos condiciona]?”, indicou a encenadora, apontando para outras questões latentes em “Vida inversa”.

É o caso de como uma quantidade de coisas se decidem nas redes sociais nos dias de hoje. “E de uma forma semi-aleatória que nos deixa quase impotentes”, precisou José Luís Peixoto. Num espetáculo em cujo cenário tudo é pouco funcional, desde os adereços, como mesas e cadeiras, parcialmente desfeitas ou disformes, até aos figurinos, usados em camada e sobre camada pelos atores, não faltam ainda, a determinado momento, duas máquinas – a máquina da expressão das necessidades e a máquina de expressão comunitária (que remete de imediato para as redes sociais).

Não falta também o ‘metaverso’, expressão para a terminologia de um mundo virtual que reproduz a realidade, através de dispositivos digitais, e que em “Vida inversa” adquire forma. Quando o final se aproxima, no entanto, o sítio de absurdo onde decorre a ação, e as cinco personagens-tipo, vão-se humanizando, esbatendo os seus mais ‘mecânicos’ contornos.

As personagens recuperam então algo de si próprias, da humanidade subjacente, demonstrando que os afetos uns pelos outros ainda existem, e que a regeneração afetiva não é impossível.
A interpretar “Vida inversa”, em palco, estão Ana Catarina Afonso, Margarida Cardeal, Maria João Falcão, Paulo Pinto e Renato Godinho. Em vídeo estão Alberto Magassela, Miguel Seabra, Rui M. Silva e Susana Madeira.

Com espaço cénico e figurinos de Hugo F. Matos, música original e espaço sonoro de Sérgio Delgado, e desenho de luz de Tasso Adamapoulos, “Vida inversa” fica em cena até 16 de abril, com sessões de quarta-feira a sábado, às 20:00, e, ao domingo, às 16:00. No próximo dia 27, Dia Mundial do Teatro, será lançado, no Meridional, um livro com o texto da peça, numa edição de autor, adiantou José Luís Peixoto.


Opnião dos Leitores

Deixe uma resposta