Faixa Atual

Título

Artista

Background

Instalação permite perceber a importância do som na arquitetura

Escrito por em 15/03/2022

Uma instalação sonora que explora a forma como o som modela a perceção de um espaço é inaugurada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, para mostrar que a arquitetura é tridimensional e também sensorial.

“Sound it. Rádio Antecâmara” é o nome da instalação sonora de João Galante, com curadoria de Alessia Allegri e Pedro Campos Costa, que tem por detrás uma rádio, que explora novos significados da arquitetura e abre novas perspetivas sobre o ambiente construído, através de histórias pessoais e investigações realizadas por um conjunto de profissionais.

A escolha da rádio como “mediador” prende-se com a necessidade de “abrandar” nestes tempos corridos em que “estamos constantemente a ser bombardeados com imagens”, explicaram os curadores durante uma visita à imprensa, no espaço Garagem Sul, do CCB.

“A palavra, ao contrário da imagem, implica uma paragem, um abrandamento, ir mais devagar para ouvir. A arquitetura é uma arte generalista, muito para além da simples arte de construir espaços. É a voz que representa as necessidades das pessoas que lá vivem e convivem”, afirmou Alessia Allegri.

Segundo Pedro Campos Costa, “o espaço é tridimensional, mas também sensorial e isto é muito importante”. “Só nos apercebemos, por exemplo, quando vamos a um restaurante com uma acústica péssima. É muito importante o som para o conforto que o espaço nos dá”, acrescentou.

A instalação consiste, assim, num corredor escuro construído em cartão – material escolhido porque “reverbera, mais do que absorve, o som” -, em torno de um espaço central ocupado por um estúdio de rádio.

O visitante percorre esse corredor escuro, com alguns pontos de luz, e vai ouvindo fragmentos de conversas, a várias vozes, sobre arquitetura entremeadas por música. “Não há qualquer imagem visual. A ideia é que possamos imaginar, criar uma imagem visual na cabeça, só ouvindo as vozes”, disse a curadora.

Por detrás desses sons está a rádio Antecâmara e o programa radiofónico “Vertigem das Listas”, de Pedro Campos Costa, que “roubou” o nome a uma obra de Umberto Eco, e que consiste em convidar, por exemplo, um arquiteto, que escolhe um edifício e através de uma ‘playlist’ tenta concretizar esse edifício.

É, pois, por meio de diálogos entre arquitetos, artistas, designers, e nas conversas com poetas ou paisagistas, entre os interlúdios feitos de sons e de música, que a Rádio Antecâmara observa mais de perto a contemporaneidade.

Nesse corredor construído para a exposição, são as ressonâncias, os ecos, os silêncios e os significados das palavras extraídos do programa radiofónico e recompostos numa nova partitura, que ecoam, criando sensações.

Esse percurso elíptico desenrola-se em torno de um espaço performativo ocupado por um estúdio, onde vão decorrer ao vivo conversas com convidados sobre arquitetura e um determinado tema.

Trata-se de uma residência, com a programação de rádio, que “transforma o espaço expositivo passivo num espaço expositivo interativo”, especificou André Tavares, responsável da programação da Garagem Sul.

“Árvores sem raízes”, conversas sobre a construção da paisagem contemporânea; “Livros Pedidos”, reflexões sobre literatura, cinema e arquitetura; “Vídeo did Not Kill de Radio Star”, debate com jornalistas sobre o papel da rádio e dos novos conteúdos sonoros nas comunidades atuais; “As cidades invisíveis”, uma leitura sonora a partir da obra de Italo Calvino para descobrir o que torna uma cidade visível, são algumas das sessões radiofónicas previstas.

Outros programas são “Territórios de transgressão”, em que arquitetos e juristas debatem a construção de territórios; “When Socrates was an Architect”, uma aula aberta sobre o ensino de arquitetura através de ondas de rádio; “Cinediálogos”, conversas sobre cinema e arquitetura; “Fora de pé”, sobre o percurso profissional alternativo que a formação em arquitetura permite; “Tela habitada”, sobre a relação da arte com a arquitetura.

A exposição recebe ainda “Another brick in the wall”, pensamentos sobre a arquitetura a partir dos materiais de construção; “Na cozinha do conselheiro Ayres”, um almoço na Garagem Sul em que se fala da forma como o que escolhemos comer transforma a paisagem; “A arquitetura do ‘novo’ mundo”, uma conversa sobre as infraestruturas aparentemente invisíveis por detrás das grandes transformações.

Os restantes programas radiofónicos são “Post Scriptum”, para compreender a razão por que arquitetos publicam livros; “Pensamentos construídos em áudio: narrativas não convencionais e outros podcasts”, reflexão sobre como estes géneros tiveram impacto na arquitetura; “erosÃo”, peças sonoras que refletem sobre os espaços cosntruíddos; e “(In) certos Contextos”, discussão sobre o legado deixado pela arquitetura brasileira”. A exposição vai estar patente até ao dia 4 de setembro.

Propostas inovadoras de novas gerações de arquitetos em exposição no CCB

“Os Novos Novos” é uma exposição que abre hoje ao público no CCB, dedicada a projetos de ateliers que trazem novas propostas de relação com a arquitetura, mostrando ideias inovadoras e caminhos de invenção, de “coisas que não existem”.

São cinco ateliers de arquitetos portugueses — rar.studio, fala, Diogo Aguiar Studio, Ponto Atelier, Barão-Hutter — que trabalham em Lisboa, Porto, Funchal e St. Gallen, na Suíça. Estes arquitetos apresentam uma variedade de propostas para transformar os lugares habitáveis, construindo um retrato das preocupações, objetivos e processos de trabalho de hoje, diferentes de arquitetos e arquiteturas de gerações anteriores.

“É uma exposição que procura buscar ideias novas, estratégias de projetos, novas formas de pensar a cidade”, sublinhou André Tavares, curador da exposição e responsável da programação da Garagem Sul, onde a mostra vai estar patente até dia 4 de setembro. Cada atelier contribuiu com uma obra construída e um projeto ainda não construído.

O projeto do Diogo Aguiar Studio apresenta “House over the hills, Paredes, 2008-2021” e “Protótipo, 2022”, com base em modelos prefabricados de madeira, para mostrar “uma prática arquitetónica não tão consumidora como o betão armado”, contrariando a tradicional indústria da construção, que é um dos principias contribuintes para a ‘pegada ecológica’.

O segundo atelier, Barão-Hutter, apresenta dois projetos – “Antigo picadeiro, Aarau, 2012-2021” e “Universidade de St. Gallen, 2019” – em que “os próprios edifícios têm elasticidade para servir várias coisas”, explicou André Tavares.

“Pensa não só na forma, mas em ser uma infraestrutura para atividades do quotidiano”: ‘hardware’ e ‘software’, estrutura material e infraestrutura imaterial, conjugam-se em novos modos de construir e habitar.

Os projetos do ‘atelier fala’, “24 obras, 2008-2021” e “Hipótese de projeto, 2022”, exploram o uso de “material resistente em condições de construção resistente e de baixo custo”. Apesar do baixo orçamento, desenvolve construções com um “pragmatismo alegre”, que resultam “numa arquitetura irónica, desconcertante e sofisticada”.

Este atelier “não prescinde do vigor do projeto e de mostrar que a arquitetura não são quatro paredes brancas a fecharem-nos num espaço”, destacou o curador. O rar.studio apresenta-se com os projetos “Edifício Manchester, Lisboa, 2017-2020” e “Banco de Portugal, Lisboa, 2022”, “uma arquitetura que preserva as qualidades fundamentais do que já existe”, reconstruindo “a partir da transformação sucessiva dos lugares e das coisas”.

A opção é a de não transformar radicalmente a estrutura dos edifícios, recusando a demolição e tirando o máximo partido da “energia acumulada na construção existente”, com o objetivo não só de reduzir a pegada ecológica, mas também de estabelecer linhas de continuidade.

O Ponto Atelier tem dois projetos de construção nas ilhas do Atlântico, num “confronto potente com a natureza”: “Inbetween, Ponta Delgada, 2020” e “Jasmineiro, Funchal, 2021-…”. São arquitetos que “trazem a componente biológica e geológica ao projeto”, nos casos concretos, a geologia açoriana e a vegetação madeirense.

A obra em Ponta Delgada descarnou um relvado num campo de golfe desativado, para revelar o substrato geológico do lugar e “mostrar que são ilhas selvagens e não uma paisagem de relva fofa”, afirmou o curador.

No projeto para o pavilhão de habitações no Jasmineiro, os pisos abrem-se para o exterior, “para ser o jardim que constrói a arquitetura à volta do pavilhão”. As espécies vegetais da ilha definem uma cortina biológica que inverte a prioridade convencional do arquiteto: a parede é substituída pela vegetação. Segundo André Tavares, esta é uma exposição que “pensa o potencial que existe nas novas gerações de arquitetos”.


Opnião dos Leitores

Deixe uma resposta