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Francis Kéré é primeiro africano a vencer Prémio Pritzker

Escrito por em 15/03/2022

O arquiteto do Burkina Faso Francis Kéré é o vencedor do prémio Pritzker 2022, tornando-se no primeiro profissional africano a conquistar o mais importante galardão da arquitetura mundial.

“Francis Kéré está a ser um pioneiro da arquitetura – sustentável para a terra e para os seus habitantes – em terrenos de extrema escassez. […] Através de edifícios que mostram a beleza, a modéstia, o arrojo e a invenção, e pela integridade da sua arquitetura e gesto, Kéré sustenta, com graciosidade, a missão deste prémio”, lê-se na nota do júri.

Entre múltiplos outros projetos, o comunicado da organização realça a escola Benga Riverside, em Moçambique, que inclui “paredes com padrões de pequenos vazios recorrentes, permitindo que a luz e a transparência evoquem sentimentos de confiança por parte dos estudantes”.

Diébédo Francis Kéré, natural do Burkina Faso, fundador e arquiteto do escritório Kere Architecture, sediado em Berlim, esteve em Portugal em novembro de 2019, quando inaugurou uma exposição na Exponor, em Matosinhos.

Na ocasião, o arquiteto, que recebeu o Prémio Aga Khan de Arquitetura em 2004, afirmou à Lusa que “a arquitetura consome imensos recursos” e que, por isso, “é importante pensar na sustentabilidade”.

“A arquitetura tem de mudar e para isso é importante juntar esforços”, sublinhou, reiterando que esta precisa “de ter em consideração todas as mudanças” que se passam no mundo, como climáticas e de limitação de recursos.

Segundo o Pritzker, foi a escola primária de Gando, no seu país natal, que cimentou a fundação da ideologia de Kéré, ao “construir uma fonte com e para uma comunidade para preencher uma necessidade essencial e colmatar as desigualdades sociais”.

“Barro indígena foi fortificado com cimento para formar tijolos com massa termal bioclimática, retendo o ar fresco ao mesmo tempo que permitia que o calor escapasse através de um teto de tijolos, resultando em ventilação sem a intervenção mecânica do ar condicionado. O sucesso deste projeto aumentou o corpo estudantil de 120 para 700 alunos”, realçou a organização do prémio.

Kéré desenhou o novo parlamento do Burkina Faso, ainda por construir “nestes tempos incertos”, sendo também o autor da assembleia nacional do Benin, atualmente em construção. Entre outros projetos, desenhou o Parvilhão Serpentine, em Londres, o Parque Nacional do Mali, e o pavilhão Xylem do centro de arte Tippet Rise, nos Estados Unidos, e o Instituto Goethe no Senegal.

Aos 56 anos de idade, Kéré mostrou-se incrédulo com a distinção, em declarações ao jornal britânico The Guardian: “Não sei como tudo isto aconteceu. Em primeiro lugar, estou feliz e assoberbado, mas o prémio também traz um grande sentido de responsabilidade. A minha vida não ficará mais fácil”.

“Consegue imaginar? Nasci no Burkina Faso, numa pequena aldeia onde não havia uma escola. E o meu pai quis que eu aprendesse a ler e escrever apenas porque podia então traduzir ou ler as suas cartas”, disse à norte-americana NPR.

Pritzker para Francis Keré reflete “novo olhar” sobre o que se faz em África – arquiteta

A arquiteta angolana Maria João Grilo elogiou hoje o vencedor do prémio Pritzker 2022, Francis Keré, primeiro africano a receber a distinção, considerando que a decisão reflete um novo olhar sobre África e a sua produção nos diferentes domínios.

“O olhar sobre o mundo e as pessoas, a importância das diferentes geografias vai mudando e prova disso são também os prémios literários de 2021 que distinguiram autores de origem africana”, disse à jornalista Raquel Rio, da Lusa, Maria João Grilo.

Para a arquiteta do Lubango (Huíla), há um olhar mais atento sobre a produção de grande qualidade e também sobre o que se faz em África, destacando valores como a sustentabilidade, os novos materiais e a relação mais próxima com as pessoas, características do trabalho de Francis Keré, assumindo ser um dos seus favoritos.

“Gosto particularmente dele, tem um olhar extremamente sensível sobre o mundo, é muito focado no que é produzir com e para a comunidade”, frisou. A nota do júri que hoje atribuiu o prémio ao arquiteto do Burkina Faso refere-se a Francis Keré como um pioneiro da arquitetura – sustentável para a terra e para os seus habitantes – em terrenos de extrema escassez.

“Através de edifícios que mostram a beleza, a modéstia, o arrojo e a invenção, e pela integridade da sua arquitetura e gesto, Kéré sustenta, com graciosidade, a missão deste prémio”, lê-se no comunicado.

Diébédo Francis Keré, natural do Burkina Faso, fundador e arquiteto do escritório Kere Architecture, sediado em Berlim, esteve em Portugal em novembro de 2019, quando inaugurou uma exposição na Exponor, em Matosinhos.

Entre múltiplos outros projetos, o comunicado da organização realça a escola Benga Riverside, em Moçambique, que inclui “paredes com padrões de pequenos vazios recorrentes, permitindo que a luz e a transparência evoquem sentimentos de confiança por parte dos estudantes”.

“Ele vive na Alemanha, mas tem uma relação muito forte com o seu país, onde tem feito muita obra. Tem trabalhado muito com as comunidades do seu país, desenvolvendo uma obra extensa e de uma enorme criatividade, mostrando também que uma obra de baixo custo não significa que não tenha uma enorme qualidade”, comentou Maria João Grilo, que foi também  professora da disciplina de Projeto de Arquitetura em universidades de Luanda e Lisboa.

“Curiosamente, o Pritzker tem dado outra atenção, tem feito uma deslocação dos ponteiros para aquilo que são os valores a defender na arquitetura e no urbanismo, cujos paradigmas, defendeu, estão em mudança”, apontou.

A arquiteta angolana, coautora do livro “Arquitetura de Luanda”, defende igualmente outra sensibilidade para olhar o mundo onde 50% do urbanismo é informal e ligada à autoconstrução. “Não se tem essa perceção na Europa que é uma bolha, por isso, há que olhar o mundo de outra forma”, afirmou.

Para Maria João Grilo, dar maior visibilidade a um arquiteto africano acaba também por gerar uma sensibilização que propicia o olhar diferente que se exige sobre um mundo em mudança acelerada, influenciada por fatores como as alterações climáticas, a transição energética, o empobrecimento.

“Antigamente, fazia-se uma coisa que saía do estirador e as pessoas encaixavam-se, mas isso ruiu, apesar de haver ainda muitas resistências, precisamos de planos mais flexíveis porque a vida se tornou muito rápida e a dinâmica das populações é enorme”, afirmou, acrescentando que é também tempo de os arquitetos exercerem de forma diferente a sua profissão.

Questionada sobre se existe uma arquitetura africana, Maria João Grilo considerou que há marcas distintivas em todas as arquiteturas pois são um reflexo da sociedade onde se vive. “As cidades europeias têm um perfil definido, tal como as americanas, as asiáticas ou as africanas”, considerou, salientando que a produção arquitetónica se adapta à vivencia local.


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