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“Orgia”, de Pasolini, em abril na Culturgest

Escrito por em 14/03/2022

“Orgia”, de Pasolini, que se estreia a 9 de abril na Culturgest, em Lisboa é, para o encenador Nuno M. Cardoso, um “poema requiem”, numa polifonia que conjuga ideia de morte, com um sentido de liberdade e de vida.

“É um requiem polifónico deste Homem, desta Mulher e desta Rapariga, que traz uma espécie de luz, de liberdade e de vida, que os faz entrar em contacto precisamente com a finitude e com a morte”, acrescentou o encenador à jornalista Cláudia Páscoa, da Lusa, a propósito da peça que dirige e com a qual ingressa, pela primeira vez, na obra do realizador, poeta e dramaturgo italiano, cujo centenário de nascimento se assinala este ano.

Um texto “poético e trágico de uma exigência muito elevada, não apenas nos conteúdos como na forma”, que obrigou o encenador a “maturar” um desejo de há muito, o de trabalhar a obra de Pasolini, mas que só agora se concretizou, porque era fundamentá-lo fazê-lo com a equipa atual, precisou.

“Orgia”, que reflete as inquietações que marcaram a carreira de Pasolini, é uma tragédia sobre os impulsos violentos e obscuros que movem o ser humano. Uma peça na qual a crise da sociedade é representada através da obsessão individual e na qual o problema da identidade pessoal se encontra com a obsessão do sexo que é, em simultâneo, objeto de culpa e um meio de conhecimento.

Para Nuno M. Cardoso, “Orgia” tem como tema principal a relação entre as pulsões de vida (Eros) e de morte (Thánatos) e o que elas acarretam nas relações de “luta, de potência e de transformação”.

“Toda esta dimensão sobre a diferença e a aceitação da diferença, ou não aceitação. Por isso é que se trava aqui este enorme conflito pessoal e funcional com a própria sociedade que este Homem nos propõe e também toda a carga poética da escrita que Pasolini tem neste texto”, frisou.

A ação da obra passa-se na altura da Páscoa e centra-se nas emoções sadomasoquistas de um casal pequeno-burguês e da fuga-suicídio da Mulher, ‘esposa, amante e escrava’, e da devastação do marido após se encontrar com uma rapariga (ela).

Um ele (interpretado pelo ator Albano Jerónimo) que, durante a noite, juntamente com uma ela (Beatriz Batarda) intenta um lugar único onde ambos, através da descoberta da linguagem do corpo, tentam edificar um espaço para os dois e para a relação.

Um lugar que a voracidade da sociedade acaba por apagar com o nascer do sol. Já o conflito marcado pela pulsão do desejo não concretizado vivido pela Mulher acaba por colocá-la perante o suicídio (assim como perante a morte dos filhos que são referidos, mas não estão presentes no espetáculo), que acaba por servir a personagem da Rapariga (Marina Leonardo), que representa a procura de uma substituição por parte do Homem.

Em palco, a busca da felicidade pelo Homem e pela Mulher são concretizados num enorme círculo de argila onde ambos vão trabalhando rituais ancestrais de preparação, purificação e de sacrifício, que remetem para um paraíso perdido.

Numa busca pela sociedade que lhes é sempre negada pela própria sociedade, o Homem acaba também por se sacrificar e martirizar-se no final da peça, em que Pasolini propunha o enforcamento.
Um “ritual sacrificial” que, para Nuno M. Cardoso, consiste numa proposta de transformação, num espetáculo que “é mais para se ouvir do que propriamente para se ver”.

Até porque “a carga poética e filosófica é o centro” de “Orgia”, com a qual Pasolini assinou o manifesto do Teatro da Palavra contra o teatro burguês. Com duas sessões às 21:00 (nos dias 7 e 8 de abril) e uma às 19:00 (dia 9), “Orgia” tem tradução de Pedro Marques, instalação de Ivana Sehic, luz de Rui Monteiro e é uma produção conjunta da Oficina e do Centro Cultural Vila Flor (Guimarães) e do Teatro Viriato (Viseu).

O poeta, dramaturgo e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini nasceu a 05 de março de 1922, em Santo Stefano, Bolonha, e foi assassinado em 02 de novembro de 1975, em Ostia, na região de Roma.
“Who is me – Poeta das Cinzas”, numa edição Barco Bêbado, e a antologia “A poesia é uma mercadoria inconsumível: poemas e recensões”, das edições Sr. Teste, são dois dos mais recentes livros de Pasolini, publicados em Portugal.

“Empirismo hereje”, “Uma Vida Violenta”, “Escritos corsários cartas luteranas: uma antologia” (Assírio & Alvim), “A nebulosa” (Antígona), “Afabulação” (Cotovia) estão entre outros títulos de Pasolini publicados no mercado livreiro português. “Orgia” encontra-se publicado nos Livrinhos de Teatro dos Artistas Unidos, à semelhança de “Pocilga”, “Besta de Estilo”, “Calderón” e “Pílades”.


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