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Editora americana lança álbum que vai à “essência” da música de Cabo Verde

Escrito por em 13/03/2022

A editora Ostinato lançou “The Strings of São Domingos”, um álbum que reúne os “discípulos” do compositor Ano Nobo e que imagina a música cabo-verdiana tocada sem grandes filtros e sem recurso a estúdio, no seu ‘habitat’ natural.

O álbum duplo, com selo da americana Ostinato Records, reúne quatro artistas cabo-verdianos que, ao longo de 15 faixas, com cinco interlúdios, tocam num ambiente informal, numa homenagem à viola enquanto peça central da música do seu país e também ao compositor Ano Nobo, que dá nome ao quarteto, formado por três dos seus filhos e um ‘discípulo’ (uma espécie de “filho emprestado”).

“Queria que alguém, ao ouvir o álbum, enquanto se vai de uma canção para a outra, ouvisse esta música como as pessoas em Cabo Verde a ouvem, enquanto bebem grogue e vão parando para falar e depois retomam. Não queria nada muito profissional ou rígido, mas sim transportar as pessoas para Santiago e apreciar a música tal como ela é tocada, como seria se presenciassem uma ‘jam’ na casa de alguém”, contou ao jornalista João Gaspar, da Lusa, Vik Sohonie, responsável pela editora.

A necessidade de o álbum apresentar uma paisagem sonora específica levou a que o disco fosse gravado em três locais distintos, que remetem para a identidade sonora da ilha de Santiago, seja o ambiente de montanha, onde se ouvem pássaros, seja na praia, com o som do Atlântico de fundo.

“Queríamos capturar o som do mar e ao mesmo tempo o som da terra, do solo”, salienta. O álbum, admite Vik Sohonie, foi em parte provocado pela pandemia, com a editora à procura de um projeto musical que não implicasse na altura um grande grupo para gravar e que pudesse ser feito “com o mínimo de tempo e equipamento”.

Nesse momento, recordou-se de um vídeo que tinha visto no Youtube há uns dez anos e que sempre o tinha fascinado – três músicos, entre os quais Pascoal di Nha Bebé, tocam junto à praia a coladeira de Ano Nobo “Badia di Fora”.

“Pensei logo nesse vídeo e decidimos ir à procura dos músicos, que pensávamos que eram apenas três”, afirma Vik Sohonie. “É um mistério que só Deus sabe”, diz à agência Lusa Pascoal di Nha Bebé, recordando que não é artista profissional – está reformado depois de uma carreira nas Forças Armadas cabo verdianas.

“Não faço parte dos artistas que andam por aí, não faço vídeos, não tenho Facebook nem sequer correio eletrónico. Toco de vez em quando num ou noutro restaurante e não sei como isto aconteceu”, recorda o ‘discípulo’ de Ano Nobo que forma o quarteto com os três filhos do compositor que lhe ensinou quase tudo o que sabe de música.

O vídeo que levou ao encontro entre os músicos e a editora americana é uma captação de um padre português, Firmino Cachada, que deixou Cabo Verde no final dos anos de 1960 e, numa das muitas viagens que fez ao arquipélago, já no século XXI, decidiu fazer a tal gravação que Vik Sohonie viu, explica Pascoal.

“[Vik Sohonie] viu aquilo, gostou, falou com os Pilon [grupo que editou no passado] e foi através deles que conseguiu falar comigo. Não andava à procura e aceitei que não podemos brincar com a sorte. Dois raios não caem nunca no mesmo lugar”, recorda.

Foi na igreja e pela mão do mesmo padre que Pascoal conseguiu convencer a mãe a deixá-lo tocar guitarra. “A minha mãe não aceitava a história de ter um filho tocador, que o tocador, em Cabo Verde, ainda hoje sofre de preconceito, porque é considerada pessoa vagabunda. Então, comecei a tocar na missa e a minha mãe ficou muito feliz, de me ver a tocar ao lado do Ano Nobo [convidado pelo padre a dar aulas aos mais novos]. Nunca mais deixei a guitarra”, refere Pascoal, que olha para aquele compositor como um mestre e também uma espécie de pai.

No álbum agora lançado, o quarteto toca mornas, coladeiras, mas também músicas de outros países, como Angola ou Guiné-Bissau, interpretando o clássico “Tio Bernar”, de José Carlos Schwarz, além de temas do próprio Ano Nobo, como “Badia di Fora” e “Lolinha”.

No disco, fica também bastante vincado um determinado “vagar do interior” da ilha de Santiago, que Pascoal não troca por nada. “Trabalhei na Praia, mas todos os dias voltava para o interior. Toda a minha vida foi em São Domingos”, frisa.

Para Pascoal, a calmaria do interior permite ouvir e tocar as mornas “de uma forma mais natural”. “Na cidade, geralmente, o pessoal toca a nível comercial. Aqui, tocamos por gosto, por amor à arte e temos conservado a morna na sua forma mais genuína”, salienta o militar reformado que ainda não acredita que aos 62 anos está em vias de ter uma carreira enquanto músico.

“É algo muito extraordinário. Sinceramente, devo dar graças a Deus, porque consegui um feito que não ambicionava. Não digo que não gostava, mas nunca tinha pensado nisso e nunca me tinha preparado para isso. É um mistério. Tanta gente com produtor e vídeos e mais não sei o quê e eu que nunca fiz nada, aqui estou. Só pode ser um desígnio de Deus”, frisa.


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