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“Novas Cartas Portuguesas” devia estar “mais nas escolas” – Inês Pedrosa

Escrito por em 11/03/2022

Portugal “omitiu” as “Novas Cartas Portuguesas” e devia agora pôr a obra “mais nas escolas”, celebrando os 50 anos da sua publicação, considerou a escritora Inês Pedrosa, à margem do Fórum pela Igualdade, em França.

“Devia pôr-se [a obra] nas escolas”, instou Inês Pedrosa, notando que “a percentagem de obras de mulheres […] nos programas de ensino, a todos os níveis, desde a infância” vai “piorando à medida que se avança na literatura, porque na infância ainda há as mulheres que escrevem para crianças, que é um clássico, mas a partir daí quase desaparecem”.

Admitindo que a obra de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – que ficaram conhecidas como as Três Marias – “pode ser considerada difícil”, a também jornalista e editora não vê por que não possa ser analisada “nos últimos anos de escolaridade”.

Inês Pedrosa participou no Fórum pela Igualdade, que decorreu na cidade francesa de Angers, no âmbito da presidência francesa do Conselho da União Europeia e integrado na Temporada Portugal-França 2022, e que prestou homenagem às “Novas Cartas Portuguesas”.

Publicada em abril de 1972, há quase 50 anos, a obra – recordada como “um livro-marco na história do feminismo e da literatura portuguesa” – foi banida pelo regime e as suas autoras levadas a julgamento (que acabaria suspenso com o 25 de Abril de 1974).

“França sempre reconheceu mais [a obra]”, compara Inês Pedrosa. “Portugal omitiu. Nem é não reconhecer… […] o livro nem levou tareia, nem leva tareia, simplesmente não existe”, lamenta, fazendo um paralelo com a sua própria obra literária, que sempre foi alvo de críticas por ser “irritantemente feminista”.

Na altura, as três autoras “levaram tareia de muitos lados” e Inês Pedrosa recorda que, mesmo nos países “mais modernos” à época, as críticas foram duras, exemplificando com um artigo no The Washington Post que classificou o livro, numa crítica, como “pornografia estrangeira”.

As “Novas Cartas Portuguesas” devem ser celebradas, “agora que fazem 50 anos, com comemorações não exatamente académicas, mas mais populares”, propõe a escritora. É uma “obra literária de uma grande força”, que “brilhantemente” consegue “dar a ver o que é a sociedade” da altura e onde é possível encontrar “tudo”, ficção, cartas, ensaios, poemas, “textos que são um misto disso tudo”.

Sobre o rótulo de “obra proibida”, Inês Pedrosa – que conheceu e privou com as três autoras, das quais apenas Maria Teresa Horta continua viva – encontra explicação no feminismo, que “tem boa imprensa hoje em dia, porque está na moda, mas na verdade não é considerado credível nem sério”.

Há outro fator que agravou, e agrava, a sua “invisibilidade”: o erotismo, “em particular ser um erotismo que objetificava o homem”. “É um livro contra os espartilhos, um livro de uma beleza extraordinária”, tanto que “é difícil de traduzir”, e com “uma carga erótica fortíssima”, enaltece.

“Falar do corpo da mulher, das pernas longas, dos seios e não sei quê, tudo bem. Falar do pénis do homem é que já não está tão bem, e continua a não estar tão bem”, apontou, considerando que, “ao nível do inconsciente, os homens não gostam de ser objetificados como objetificam as mulheres”.

Para Inês Pedrosa, as “Novas Cartas Portuguesas” são “um livro muito experimental e muito atual”, desde logo porque assume que “os homens também podem ser vítimas do machismo”. “São todas escritoras muito boas”, nota, realçando que não percebe a razão para que Maria Velho da Costa seja “mais considerada do que as outras”, o que pensa ser sobretudo injusto em relação a Maria Teresa Horta, que “foge mais do cânone e nunca deixou de o enfrentar”.


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