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Morreu o autor de teatro de revista Gonsalves Preto

Escrito por em 11/03/2022

O autor de teatro, cinema e televisão Gonsalves Preto morreu na madrugada de quinta-feira, em Lisboa, aos 85 anos, disse à Lusa fonte próxima do realizador de “As Deambulações do Mensageiro Alado”.

Nascido no Funchal, em 28 de novembro de 1937, Edgar Reinaldo Sousa Gonsalves Preto escreveu e dirigiu para cinema e televisão, mas foi sobretudo no teatro de revista e na comédia que se destacou, em produções como “Há Petróleo no Beato”, “Pides na Grelha” e “Tudo a Nu”.

Era “um homem bom”, escreve o crítico e historiador do cinema português Jorge Leitão Ramos, na sua página na rede social Facebook, dando conta da morte do autor. No Dicionário do Cinema Português, Jorge Leitão Ramos recorda o percurso de Gonsalves Preto, nomeadamente a frequência do curso de Direito, em Coimbra, onde chegou em 1958, e o início da atividade no Cineclube Universitário, assim como na escrita para a antiga revista Imagem.

Foi assistente de realização em “Dom Roberto”, de Ernesto de Sousa (1962), que abriu caminho ao Novo Cinema português, tendo assumido igual função em “Le Pas de trois”, de Alain Bomet (1964), e “Le Grain de sable”, de Pierre Kast (1964). Foi operador de som em “O Cerco”, de António da Cunha Telles (1970).

A estreia na realização de Gonsalves Preto aconteceu em 1969, com a curta-metragem “As Deambulações do Mensageiro Alado”, curta-metragem que conta com uma rara aparição do poeta Herberto Helder, que se interpreta a si mesmo. Trata-se de uma fantasia sobre Lisboa, cidade então mergulhada na ditadura, em que o Mensageiro Alado (Carlos Paulo) tenta concretizar um milagre, ao longo de um dia, sem o conseguir, cruzando-se, porém, com o poeta de “Passos em Volta”.

Nos primeiros anos da década de 1970, Gonsalves Preto combinou o trabalho em publicidade com o magazine cinematográfico “VIP – 87”, da Cinegra. Em 1972, estreou-se no teatro de revista, com “Dura Lex Sed Lex”, no Teatro ABC, do Parque Mayer, que assinou sob o pseudónimo Thomas Genebra.

Seguiram-se “É o Fim da Macacada”, com Francisco Nicholson, Mário Alberto, Nicolau Breyner e Rolo Duarte, “É pró Menino e prà Menina”, também com Nicholson, Alberto e Nicolau Breyner, cujo sucesso acabou por ditar a prevalência do teatro de revista no seu percurso, ao longo de mais de 20 anos.

O nome de Gonsalves Preto aparece assim associado a revistas como “Pides na Grelha”, “A CIA dos Cardeais”, “A Grande Cegada”, “A Paródia”, “Ó Calinas Cala a Boca”, “Ora Vê Lá Tu”, “Fardos e Guitarradas”, “Noves Fora Nada”, “Querias mas não Te Dou”, “Chiça, Este É o Bom Governo de Portugal” e “Tá Entregue à Bicharada”, que marcaram a companhia Teatro Adóque, surgida após o 25 de Abril.

No Parque Mayer, nos anos de 1980, o nome de Gonsalves Preto está também entre os autores de revistas e comédias como “Há Petróleo no Beato”, “Chá e Porradas”, “A Grande Festa” e “Lisboa Meu Amor”, um dos seus últimos trabalhos no teatro musical, já na década de 1990.

A sua autoria, sempre em parceria, estendeu-se igualmente a palcos mais pequenos como o Memorial Bar e o Cabaret Maxime, em produções como “É sempre a Aviar” e “O Preto no Branco”. O trabalho no teatro não o afastou, porém, do cinema e da realização, como destaca Jorge Leitão Ramos, no “Dicionário do Cinema Português”.

Dirigiu “A Ronda dos Meninos Maus” (1977) e produções televisivas como “É de Noite Que Eu Me Lembro”, “Feira Que Ladra não Morde” e “Tudo Brinca Minha Gente”, e “Por Favor não Comam os Signos” e “Lá Vem o Ano Macaco”, para séries como “Temos Festa” e “Zodíaco”, do final dos anos de 1970.

Colaborou nos diálogos e foi assistente de realização de “A Santa Aliança”, de Eduardo Geada (1977), foi co-argumentista, com Eduardo Guerra Carneiro e Monique Rutler, de “Jogo de Mão”, de Monique Rutler, realizadora com quem voltou a trabalhar na escrita de “Solo de Violino” (1990), a par de Cesário Borga.

Jorge Leitão Ramos recorda que o derradeiro trabalho em cinema de Gonsalves Preto foi a colaboração no argumento de “Até Amanhã, Mário”, de Solveig Nordlund (1993). “Os seus trabalhos como realizador nunca se alcandoraram a mais que a uma tocante fragilidade”, escreve o crítico sobre o autor. “Se há palavra que os defina, outra não encontro senão ‘ternura’: ternura pela noite, pelos humilhados e ofendidos da cidade, pequena gente sem voz, que Gonsalves Preto olha com afável compreensão, como se deles irmão avisado – que não conselheiro – fosse”.

“Um olhar desarmado e solidário”, presente no que dirigiu, acrescenta Jorge Leitão Ramos, no “Dicionário do Cinema Português”, na ‘entrada’ que agora transcreveu para a sua página no Facebook. O funeral de Gonsalves Preto realizou-se hoje de manhã para o cemitério do Lumiar.


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