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Angústias e sonhos em mais de 100 obras de “Atravessar a Noite”

Escrito por em 11/03/2022

O imaginário da noite, com angústias, medos e sonhos, percorre mais de 100 obras de 84 artistas, selecionadas em função desta temática para a exposição “Traverser la Nuit/Atravessar a Noite”, que é inaugurada hoje, em Lisboa.

O conjunto de obras faz parte da coleção privada de Antoine de Galbert, colecionador francês que veio à capital portuguesa para a inauguração da mostra nas instalações da Central 1, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), no âmbito da Temporada Cruzada Portugal-França 2022.

Desenho, pintura, escultura, instalação e vídeo são os suportes da criação de artistas de várias nacionalidades e gerações, como Hervé Di Rosa, Christian Boltanski, Constantin Brâncusi, Man Ray, Gilbert & George, Otto Piene, Alexander Tsikarishvili, Didier Faustino e Lucio Fontana.

Obras de artistas portugueses, como Jorge Molder, em fotografia, e uma escultura de Sara Bichão também podem ser encontradas nesta primeira exposição da nova temporada do MAAT, desenhada já pelo novo diretor, João Pinharanda, que estará patente até 29 de agosto na Central 1 e na Sala do Cinzeiro.

“A ideia foi fazer uma exposição internacional com uma das mais prestigiosas coleções de arte privadas de França”, explicitou o diretor do MAAT durante uma visita de imprensa à mostra, onde é também possível ver peças de artistas como Joan Fontcuberta, Raoul Hausmann, André Kertész, Thomas Ruff, W. Eugene Smith e Francesca Woodman.

Uma das peças que recebe o visitante no interior é do artista francês Jerôme Zonder – “Are you There?” (2011) – um dos criadores mais representados na coleção privada de Antoine de Galbert, que no, seu conjunto, ascende a 2.600 peças.

“É uma coleção extraordinária porque Galbert compra o que gosta, muitas vezes sem saber quem é o artista e o seu currículo”, comentou Pinharanda, acrescentando que as escolhas das obras surgem de um “coupde foudre”, expressão francesa que significa “amor à primeira vista”.

O diretor do MAAT sublinhou ainda a “grande diversidade” de obras, gerações de artistas e representação de movimentos estéticos e artísticos na coleção privada, que a tornam “exemplar”, comentou, sobre a atividade do colecionador nascido em Grenoble, França, em 1955, e conhecido por quebrar barreiras e criar diálogos entre a arte contemporânea, as artes populares e a arte bruta na sua coleção.

Figura reconhecida do mecenato do seu país, criou uma fundação com o seu nome, e inaugurou, em 2004, La Maison Rouge, um centro de arte privado, em Paris, cuja programação marcou a paisagem cultural da capital francesa até ao seu encerramento, em 2018.

Desde então continua a promover e a apoiar a criação artística e investigação em História de Arte, edição de publicações, doações e aquisições para fundos museográficos. A opção da temática da noite para esta exposição foi inspirada na história e na função original do local de exposição: o antigo Museu da Eletricidade, uma estrutura erigida no início do século XX para fornecer eletricidade a Lisboa e arredores.

No interior, as obras foram dispostas por diversos núcleos que seguem temas específicos: “No limiar da noite”, “Quando cai a noite”, “Os náufragos da noite”, “Entre cão e lobo”, “Esculturas da noite”, “Sonho da noite”, e “O coração”, montado em torno da peça “Le coeur” (2005), de Christina Boltanski, artista recentemente falecido, aqui alvo de homenagem.

Na Sala do Cinzeiro foi criado um núcleo dedicado à fotografia, composto por uma seleção de cerca de 60 retratos de artistas, tais como Marina Abramović, Patti Smith, Francesca Woodman, Olivier Blanckart, Annie Leibovitz e Man Ray.

Jorge Molder é aqui o único artista português representado por “Curta-metragem” (2000), uma série com dez fotografias. Por seu turno, o curador Noelig Le Roux chamou a atenção para as diferentes leituras que a exposição pode suscitar, desde a travessia da noite pelo contexto atual da pandemia e da invasão da Ucrânia.

“As facetas da escuridão passam por muitas questões da realidade e da vida, desde o sonho, o imaginário, a cegueira, a expectativa da morte, os fenómenos migrantes, os refugiados, os exilados, a cegueira do obscurantismo, o medo de não compreender o que se vê”, apontou.

Nas mais de uma centena de obras de arte que percorrem o século XX e XXI, os questionamentos acabam por ser muito semelhantes, nas perguntas filosóficas, políticas, sociais, ecológicas e científicas, sobre liberdade e transgressão, apontou o curador Noelig Le Roux, comissário de exposições independentes e antigo responsável das exposições em La Maison Rouge.

“A arte é um longo rio que flui”, comparou o colecionador Antoine de Galbert em declarações à agência Lusa, questionado sobre as origens da sua paixão pela arte, surgidas ainda muito jovem, quando também pensou em ser artista, dedicando-se depois à atividade numa galeria.

“Este é o meu trabalho, a minha coleção, e estou muito feliz por apresentá-la aqui em Portugal”, disse. Obras como “Concetto Spaciale” (1967), um óleo sobre tela do artista argentino Lucio Fontana, “Lamentable” (2006), do francês François Morellet, construída com lâmpadas de néon vermelho, “Chinese” (1978), do alemão Otto Piene, em guache e fuligem, “Lonely in the Corner” (2018), do russo Alexander Tsikarishvili, e “Body in Transit” (2018), do luso-descendente Didier Faustino, estão igualmente entre as obras que podem ser vistas em “Traverser la Nuit/Atravessar a Noite”, que abre ao público a partir das 11:00 de sábado, no MAAT.


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