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“A minha cabeça” revisita passado colonial no Teatro do Bairro Alto

Escrito por em 11/03/2022

Uma presa de elefante esculpida em forma de cabeça, peça herdada do colonialismo português, foi o ponto de partida da atriz Carla Bolito para a sua nova criação, “A minha cabeça”, a estrear-se no dia 12, em Lisboa.

“A minha cabeça”, que vai estar em cena no Teatro do Bairro Alto, é um trabalho baseado na história da família da atriz nascida em Moçambique, filha e irmã de “retornados”, no qual cruza elementos biográficos e ficcionais, num espetáculo que a atriz e encenadora definiu à jornalista Cláudia Páscoa, da Lusa, como “uma autoficção”.

A peça fala também do período que sucedeu ao 25 de Abril de 1974, e durante o qual muitas famílias portuguesas residentes nas ex-colónias se viram obrigados a fixar-se em Portugal, com tudo o que isso envolveu para as suas famílias, disse Carla Bolito.

“Centrei tudo nesse objeto – uma cabeça em marfim – porque esse objeto faz parte do espólio colonialista da minha família, do meu pai”, precisou. À semelhança do que muitos portugueses fizeram na altura da descolonização, quando a moeda perdeu valor nas antigas colónias, o pai de Carla Bolito comprou uma série de objetos em marfim para os vender quando regressasse a Portugal, de modo a obter algum dinheiro. Alguns desses objetos, não tinham como destino o comércio, mas antes ficarem como legado para os filhos.

Porque os seus pais não eram ricos – o pai era professor de um colégio e a mãe era “mãe” dos filhos, nas palavras da atriz – e “além do privilégio de serem brancos” numa antiga colónia regressaram a Portugal sem nada, à semelhança do que aconteceu com quase todos os portugueses que ficaram conhecidos como retornados.

E apesar de os pais de Carla Bolito nunca terem sentido “o saudosismo” de voltar ao país que tiveram de abandonar, a atriz acabou mesmo por herdar a peça que chama de “a minha cabeça”. “É a peça que desde que me lembro de mim própria, desde miúda, era a minha cabeça; era assim que o meu pai se dirigia àquele objeto e dizia ´olha a tua cabeça, a tua cabeça. Esta é a tua cabeça não te esqueças de levar esta cabeça para a tua casa`”, frisou.

Por isso, a nova criação da atriz consistiu na “busca do que era essa cabeça” já que sempre fora confrontada com o facto de a ter ou assumir. Até porque, à semelhança de outras pessoas da sua geração ou de outras que nasceram lá [nas ex-colónias], Carla Bolito afirmou não se “rever, de todo, neste tipo de objetos e símbolos nem do que representam […], como a discriminação racial, a exploração, a escravatura ou a opressão de um povo sobre outros povos”. Como tal, não queria ser dona desta cabeça, nem assumi-la, nem tê-la em sua casa.

Uma atitude típica da forma como se lida com o “colonialismo”, que é “escondendo-o”, sublinhou. Ao invés de o esconder, Carla Bolito resolveu “tirar esse esqueleto do armário”, assumindo-o como uma herança “com a qual tem que lidar”, acabando também por tornar o espetáculo numa “homenagem” ao pai que morreu “há muito pouco tempo”.

Ao mesmo tempo, Carla Bolito descobriu que para possuir aquela escultura tinha de ter uma certificação do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas a que a legislação obriga para a criação do registo das peças de marfim com mais de quarenta anos.

Seguindo o rasto do marfim que providenciou os recursos económicos da família de Carla Bolito no regresso a Portugal, a atriz confronta narrativas do passado onde não faltam alusões à cultura maconde e do presente.

Como para obter o processo de certificação da cabeça, Carla Bolito necessitava de duas testemunhas, que atestassem que o objeto tem mais de quarenta anos, que não fossem familiares diretos, optou por construir o espetáculo com mais dois atores que acabam por funcionar como testemunhas, disse.

Optou também por escrever o texto com o ator, encenador e dramaturgo moçambicano Venâncio Calisto, que reside em Portugal desde 2019, referiu. Juntos desenvolveram três versões possíveis para aquela cabeça, tantas quantas as personagens da peça que, segundo Carla Nolito são também a sua “família fictícia e fabricada”.

Em cena até 1 de março, com sessões de sábado a quinta-feira (exceto à segunda), às 19:30, “A minha cabeça” conta com interpretação de Carla Bolito, Daniel Martinho e Kimberley Ribeiro.
A cenografia é de Marcello Urgeghe, o desenho de luz de Daniel Worm, a sonoplastia de Rui Dâmaso e os figurinos de Ricardo Preto.


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