Faixa Atual

Título

Artista

Background

Crónica de uma guerra anunciada com dia marcado

Escrito por em 06/03/2022

Alexandre, o Grande, segurava-a pela mão e perguntava:

– De onde és? Para onde vais?

– Não sei. Não sei!

Ela olhava-o em tom de desafio, com aquele ar de quem sempre soubera olhar os imperadores nos olhos.

Para a conhecer, na paz ou na guerra, no mundo ou em casa, teria de enfrentar uma menina, na puberdade da terceira idade, aos 14 anos.

– Não sei. Não sei!

No suicídio do único segurança que um dia lhe guardara os sonhos ou no aborto do desejo de quem lhe houvera estendido uma faca para que apenas pudesse chegar mais longe.

– Não quero. Não quero!

E ria-se, na cara dele, trocando o Olimpo por zombaria.

Ela, que nunca se interessara pela imortalidade dos homens.

Como a transição entre o dia e a noite, sabia apenas que um dia iria morrer.

Em breve tudo morreria. Como o segurança dos seus antigos sonhos ou o desejo de renunciar aos parentes.

– Não sou apenas uma mulher. Sou livre como o soldado que ficou esquecido a afundar-se na lama da trincheira.

E como que colhendo do chão que pisavam uma flor morta, apagada e murcha, pensava que talvez o problema fosse dos imperadores que apenas só desejavam ser amados por Deus.

– Não sei. Não sei!

[Como poderia uma criança cheia de pecados um dia chegar ao céu?]

E assumiu a responsabilidade do índio que morreu sozinho ao tentar salvar a última árvore da Amazónia.

E do pai que depois de executado, caiu por cima do filho para dentro da vala comum, cobrindo-o de morte só para o salvar.

– Não quero. Não quero!

E imaginou-se morta como os meninos da praia do Bilene que, com a fome, lhe costumavam aparecer por detrás das árvores só para lhe comerem os restos da carne por entre as coxas, para ao mínimo sinal de carinho se começarem a agredir, como animais.

Estariam mortos? Estariam vivos?

[Ou apenas conseguiriam chegar ao céu através do estilhaço da bomba atómica?]

– Não sei. Não sei!

[Colocou os auscultadores nos ouvidos e escolheu uma música de 1992, enquanto chorava ao imaginar o Primo Levi a atirar-se da janela. “If this is a man?”]

– Não quero. Não quero!

E trocando a sua entrada triunfal na Liga de Delos pelo bilhete de viagem para a fronteira, esperou, entre a luz e a sombra, pela humanidade à beira da guerra com dia marcado, numa retórica hegeliana de aborto, de suicídio e de homicídio de massas entre irmãos.

Tick-tock, tick-tock…

(Filipa, 6.3.2022)


Opnião dos Leitores

Deixe uma resposta