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Contentores tornados arte por Rui Toscano e Carlos Bunga

Escrito por em 03/02/2022

Um contentor marítimo que alberga uma instalação original do artista Rui Toscano, e um outro transformado numa escultura por Carlos Bunga são os dois novos projetos do Centro de Arte Moderna Gulbenkian fora de portas, hoje inaugurados em Lisboa.

O Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian está encerrado há mais de um ano para obras de remodelação, tendo desenvolvido o projeto CAM em Movimento, com o objetivo de levar a arte a mais e novos públicos, através da sua fruição nos espaços públicos.

“Estes dois contentores fazem parte do projeto CAM em Movimento, um projeto que se iniciou em outubro passado com dois comboios e outro contentor. Esses dois vêm como continuação e não como algo separado, instalados em dois bairros totalmente distintos, com a ideia de chegar a comunidades distintas e tipos de públicos distintos”, disse à jornalista Ana Leiria, da Lusa, o diretor do CAM, Benjamin Weill.

A estes, vai juntar-se, na próxima primavera, um outro contentor, a ser instalado no bairro da Bela Vista, e que “vai ser parte do mesmo projeto, mas que é totalmente distinto”, adiantou. O que o CAM fez foi oferecer a dois artistas – Rui Toscano e Carlos Bunga – um contentor marítimo a cada, para que o utilizassem como quisessem, como objeto, espaço, ou qualquer outra forma.

Rui Toscano criou, dentro do contentor que lhe foi atribuído, e que está exposto na Praça do Fonte Nova, em Benfica, uma escultura original intitulada “Music Is the Healing Force of the Universe #4”.

O artista centra-se na imagem de uma pintura de uma peça de cerâmica da Grécia Antiga, na qual Dionísio toca uma lira ladeado por dois sátiros que dançam, agitando um par de castanholas. A ideia é a de uma instalação que é como uma pintura feita por Rui Toscano, a partir de uma imagem recolhida num livro antigo, e projetada com luz que vem de trás, explicou o curador francês Benjamin Weill, também crítico de arte.

Esta peça “faz parte de uma reflexão que Rui tem sobre como estamos a representar a música dentro da História da humanidade desde há muito tempo – essa ideia de como vamos representando a música sem som e como podemos imaginar a música, mas sem som”.

“Para mim é muito interessante também porque, quando vamos caminhando pela rua, vemos imagens de publicidade em caixas de luz, neste caso é uma caixa de luz que não vende nada, é apenas uma representação, não é publicidade”.

Ao mesmo tempo – destaca o curador – a investigação de Rui Toscano, que trabalha muitas vezes com imagens projetadas, incide em imagens encontradas em livros antigos, para os quais se olha cada vez menos, neste contexto da cultura do século XXI, trazendo para a atualidade representações que caíam no esquecimento.

“Muito interessante também é ver como dois artistas consideraram este objeto de maneira tão distinta”. A peça de Rui Toscano tem implícita esta ideia de “sair do espaço público para entrar num espaço privado, que não é propriamente um espaço privado, tem uma qualidade híbrida, quase como um refúgio: se está aberta esta porta, podemos entrar”.

“Esta ideia de entrar num espaço que está separado do espaço público e que ao mesmo tempo faz parte desse espaço público, abre aqui uma reflexão sobre o que é o espaço publico, neste caso, um espaço que pode abrigar, por exemplo, se estiver a chover, permite que uma pessoa entre para se refugiar e, ao mesmo tempo pode desfrutar desta imagem tão particular que Rui imaginou”, considerou.

Isto representa um “contraste completo” com o contentor de Carlos Bunga, que é uma escultura e se desfruta a partir de fora e não de dentro. “Revela-se imediatamente. Funciona como uma vitrina de uma loja. Está posto como uma escultura, tem a mesma presença física de uma estátua de um rei com o seu cavalo, algo muito clássico, com a presença forte de um objeto que é uma escultura e ao mesmo tempo é um contentor, um objeto que as pessoas que passam não encaram como um objeto artístico, mas como um contentor, algo que quase se ignora”, descreve Benjamin Weill.

Instalado junto à estação fluvial do Terreiro do Paço, o contentor convertido em escultura por Carlos Bunga intitula-se “Home”, e reflete o pensamento político, mas também poético, que o artista tem desenvolvido em torno da ideia de casa.

Carlos Bunga utiliza materiais versáteis e orgânicos, tais como cartão, fita adesiva e tintas de uso doméstico, para produzir instalações ‘site-specific’, orientadas para o processo de trabalho e construção, que surgem a partir de um diálogo com o espaço arquitetónico existente e se assemelham a maquetas de arquitetura em escala real, ou ainda a abrigos de rua, temporários.

Através do seu trabalho, o artista não só encoraja os visitantes a repensarem a sua experiência do espaço e da arquitetura, como também evoca a natureza frágil e temporária das estruturas urbanas.

“Interessante como ambos os artistas considerarem este objeto e como o integraram no espaço público, para levar a cabo um projeto artístico que está aqui, disponível, e que, ao mesmo tempo, não invade, não força um olhar”, não tem indicações sobre como deve ser entendido e interpretado, nem tem regras, considerou o diretor do CAM à Lusa, salientando que também pode captar novos públicos ou despertar o interesse em conhecer melhor o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.

Estes dois projetos vão estar expostos ao público até ao dia 30 de julho. Quanto ao projeto previsto para o bairro da Bela Vista, Benjamin Weill adiantou que é algo completamente diferente: “Convidámos dois artistas, um que se chama António Pedro e outro que se chama Nuno Varela, a trabalhar com uma comunidade de jovens no bairro da Bela Vista e a usar este contentor de maneira muito aberta, ou seja, não se sabe hoje o que vai resultar, porque não se sabe como a comunidade se vai relacionar com este projeto”.

Ainda no âmbito da programação do CAM em Movimento, o CAM e a revista Contemporânea convidaram o artista Jaime Welsh a conceber um projeto fotográfico para as páginas desta publicação, pensadas como um espaço expositivo. A sétima edição impressa da Contemporânea propõe uma aproximação à fotografia a que o CAM se associou (https://contemporanea.pt/).