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Teatro Experimental de Cascais estreia “Beatrix Cenci”

Escrito por em 08/11/2021

Uma história real de incesto e parricídio está na base da peça “Beatrix Cenci”, que o Teatro Experimental de Cascais (TEC) estreia no sábado, no Teatro Municipal Mirita Casimiro, nesta vila, assinalando o 56.º aniversário da companhia.

Inspirada na tragédia do poeta Percy Shelley (1792-1822), a peça gira em torno de uma família renascentista de um grande patriarca poderoso de Roma, o conde Francesco Cenci, que durante anos violou e abusou da filha, Beatrice, que acabou por matar o pai.

Beatrice Cenci (1577-1599) foi decapitada a 11 de setembro de 1599 a mando do Papa Clemente VIII. A partir dos factos, que ao longo dos tempos inspiraram vários autores e que transpuseram a história para a ópera, cinema e teatro, Graça P. Corrêa, dramaturga e encenadora que com frequência colabora com o TEC, construiu um espetáculo que segue a matriz “gótico-romântica”, disse a própria à Lusa.

Graça P. Corrêa conferiu, todavia, uma dimensão “mais feminista” à figura de Beatrice Cenci, pois preferiu centrar o espetáculo na personagem feminina, optando por lhe dar o nome de Beatrix, que na etimologia latina tem a ver com “felicidade e alegria da vida”, observou.

Além disso, a personagem configura “o princípio da luminosidade. De quem nasce para o bem sem nenhuma mancha, enquanto o pai personifica as forças do obscurantismo e é de uma violência muito grande”.

A dramaturga e encenadora optou, porém, por conceber duas personagens para a protagonista: a principal e uma segunda Beatrix, que funciona como espetro e aparição daquela. Graça P. Corrêa quis também acrescentar uma “dimensão social a toda a história”, pelo que a peça acaba por falar também da opressão patriarcal, não apenas em relação à diferença de género, mas também da opressão patriarcal em relação às etnias e a tudo o que é diferente, disse a autora.

Por isso, convidou a atriz Soraia Tavares para interpretar Beatrix, enquanto a aparição de Beatriz é personificada por Carolina Faria. “Acho que estamos em altura de falar também dessa violência que atravessa várias situações, não é só a diferença entre homem e mulher”, frisou a autora e encenadora a propósito da escolha de uma atriz de origem cabo-verdiana para protagonizar a peça.

Baseada na história de Beatrice Cenci, Graça P. Corrêa carregou também para a peça elementos contemporâneos, nomeadamente sobre o incesto, lembrando que não existe qualquer lei que proíba o incesto em Portugal desde que as pessoas sejam maiores de idade.

No lugar da família, “que devia ser de grande proteção e de grande ternura”, acaba por existir uma “grande violência que continua a perdurar ao longo dos tempos e que é terrível”, alertou. A dramaturga e encenadora acrescentou que pretendeu imprimir humor na peça, inspirando-se em Harold Pinter, nomeadamente no absurdo de Beatrice Cenci acabar por ser condenada.

“Está-se a condenar uma vítima” que bastas vezes apelou aos cardeais e ao Papa informando-os dos abusos reiterados de que foi vítima, dado que o pai chegou a encerrá-la numa fortaleza e a sujeitá-la a uma relação continuada de abusos sem nunca ter sido julgado por esses factos, referiu.

Além disso, quando Beatrice foi decapitada – na sequência de ter matado o pai juntamente com a madrasta e dois irmãos – os bens da família Cenci foram todos confiscados, ficando à guarda do Vaticano.

O movimento #MeToo e o incesto na atualidade são outros dos quadros que Graça P. Corrêa introduziu na peça. A interpretar a peça estão Renato Godinho, Luiz Rizo, Luciana Ribeiro, Marco Sá Pedroso, João Fialho, Leandro Paulin, Renato Pino, Sérgio Silva, Flávia Gusmão, Francisco Monteiro Lopes e Teresa Côrte-Real. A cenografia e figurinos são de Fernando Alvarez, o desenho de luz de Fernando Baranda e o desenho de vídeo de José Teresa Marques. A peça vai estar em cena até 12 de dezembro, com récitas de quarta-feira a sábado, às 21:00, e, aos domingos, às 16:00.


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