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Irvine Welsh em Espinho para ensinar adaptação de escrita a cinema

Escrito por em 03/10/2021

O escritor escocês Irvine Welsh, autor de “Trainspotting”, vai estar no sábado em Espinho para dar uma aula sobre adaptação de livros e escrita de guiões para cinema, no âmbito do FEST – Festival Novos Realizadores Novo Cinema.

“’Masterclass’ é um pouco pomposo, é a forma errada de olhar para as coisas”, começa por explicar o autor, em entrevista à jornalista Inês Linhares Dias, da Lusa, e esclarece que “a arte, no geral, é uma coisa muito colaborativa. Pensar em alguém como mestre de algo é errado”.

Ainda assim, Welsh estará, dentro de uma semana, em Espinho, para falar sobre a adaptação de obras para cinema, algo que lhe é familiar, assim como da sua experiência com a indústria. “Vou tentar concentrar-me em adaptações. Se estou a escrever um argumento original, ou a adaptar um dos meus livros, ou outra pessoa está a fazê-lo, as relações são todas muito diferentes”, adianta.

Depois do sucesso de “Trainspotting”, quer do livro (1993), quer do filme (1996), foram também adaptadas ao grande ecrã as obras do escocês “The Acid House”, “Porno” e “Filth”. O escritor gosta de se envolver no processo, mas também de quando outros tomam as rédeas. “É fabuloso”, diz, confessando que prefere “até que sejam outras pessoas, porque trazem olhos frescos”, já que qualquer autor se torna “míope quanto ao seu próprio material”.

Abdicar do controlo tem outras vantagens: “Se escreveste um livro e outra pessoa adapta, se o filme corre bem toda a gente diz ‘wow, é um ótimo material de origem’. Se corre mal, pode dizer-se que ‘lixaram’ o meu livro”, brinca.

“Os realizadores sabem disto e tentam envolver os escritores. É por isso que muitos escritores têm aqueles títulos de produtores executivos, e recebem mais dinheiro, e isso é para os fazer calar. Porque dá jeito ter o escritor encostado”, prossegue entre risos.

As suas histórias descrevem submundos marcados pela criminalidade, pelas drogas, pela violência. Foi numa adaptação do romance “Marabou Stork Nightmares” ao teatro, quando é interpretada uma cena de violação, que Welsh sentiu o peso da violência do que tinha escrito. “Os atores estão ali no palco. É muita exposição”, justifica.

“Lembro-me do ‘The Sex Lives of Siamese Twins’, em que há uma cena lésbica de amor de cinco páginas. Quando a escrevi num argumento, pensei ‘meu Deus’, alguém terá de fazer isso em palco’”.
Para contornar a questão, escreveu “fazem amor, e o encenador e os atores podem trabalhar isso”.

“É uma coisa diferente, temos de ter em conta que as pessoas têm de encontrar a sua forma de fazer coisas, de descobrir uma forma de contornar certas questões, como cenas sexuais ou violentas. Num livro não há lá nada, então é preciso criar toda a atmosfera e a evocação”.

Questionado sobre se, depois daquele episódio, sentiu que havia um nível de violência a partir do qual era ir longe demais, Irvine Welsh assevera que “tudo é demais se não estiver enraizado na personagem e num tema”.

“Desde que a personagem esteja a comportar-se de forma consistente, pode fazer-se tudo na matriz emocional que se constrói para essa personagem. Tudo parece errado quando fazem algo completamente diferente, que nunca fariam. Sinto que os estranhos são os contabilistas que também são um James Bond. Acho isso muito ridículo e não gosto de livros, filmes, que fazem esse tipo de coisas. Prefiro que seja muito mais enraizado em algum tipo de realidade social”, concretiza.

Depois do cinema e do teatro, o escritor está agora a trabalhar na adaptação do livro “Crime” para televisão. A série, de seis episódios, será produzida e distribuída pela britânica ITV, mas também estará disponível em ‘streaming’, tendo já sido vendida a vários países europeus, avança o autor.

Além da série, que sairá em novembro, Welsh está a escrever uma sequela desse mesmo livro, que deve ser publicada em setembro do próximo ano. Irvine Welsh nasceu em 1958, em Leith, uma zona portuária a leste da capital escocesa, Edimburgo.

O seu primeiro romance, “Trainspotting”, de 1993, foi um enorme sucesso, tendo sido adaptado ao cinema em 1996, por Danny Boyle, numa versão que é ainda hoje aclamada, e que revelou atores como Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle e Kelly Macdonald.

Tem publicados 13 romances, como “Ecstasy: Three Tales of Chemical Romance” e “Glue”, quatro livros de contos e já escreveu duas peças de teatro, “You’ll Have Had Your Hole” e “Dose”, ambos de 1998.

Para cinema, soma dois argumentos, “The Acid House” (1998) e “Wedding Belles” (2007), além das adaptações de “Porno” (2002), que inspirou o filme “T2 Trainspotting”, de 2017, e “Filth” (2013).

Escritor escocês Irvine Welsh acredita que “a droga venceu a guerra contra a droga”

O escritor Irvine Welsh frisou que “a droga venceu a guerra contra a droga” e pede que “se olhe para os problemas sociais que levam à toxicodependência, sobretudo quando não estão a ser tratados”.

Para o autor, “não há nenhuma guerra às drogas, é uma guerra à juventude, uma forma de controlo social”, afirma, em entrevista à Lusa. “As drogas venceram a guerra contra as drogas”, afirma, acrescentando que “é uma guerra contra as pessoas” e “uma manifestação de um sistema económico e social que falhou em providenciar trabalho remunerado adequado e o avanço das oportunidades sociais para a maior parte dos seus cidadãos”.

Foi logo com o seu primeiro romance publicado, “Trainspotting”, de 1993, que o autor alcançou o sucesso, com a história de cinco amigos viciados em heroína a tentar sobreviver, na capital da Escócia.

A obra ganhou ainda mais visibilidade com a adaptação para cinema, que chegou em 1996, pela mão de Danny Boyle, e que ainda hoje é aclamada. O tema surge um pouco por toda a sua obra e pela sua vida, já que Welsh partiu da sua experiência enquanto consumidor de heroína para escrever o livro, um hábito que deixou, embora continue a consumir outras drogas.

“As drogas, basicamente, são divertidas, são feitas para serem entretenimento”, defende. Welsh ressalva que “não são produtos saudáveis, não vão aumentar a vida, nem nada disso”, mas, “com um uso judicioso, em certas ocasiões, vão aumentar o desfrutar da vida”.

O problema surge, considera, porque “podem substituir”, por exemplo, “o trabalho, porque não há mais nada para fazer”. É, aliás, esse o cenário que pinta o vício das cinco personagens de “Trainspotting”, que vivem num subúrbio de Edimburgo, sem grandes perspetivas de futuro.

“Não se pode culpar as drogas por tudo. Muitos dos problemas sociais levam às drogas, sobretudo quando não estão a ser tratados”.

Irvine Welsh diz que “nada é contestado hoje em dia” e critica o “pensamento uniforme”

O escritor escocês Irvine Welsh mantém-se “sempre otimista”, apesar de ver e retratar um “mundo duro”, mas lamenta que nada seja contestado hoje em dia, e que seja cultivado um “pensamento uniforme”.

“Ao contrário dos dinossauros, nós criámos a espécie que nos vai substituir. É um pouco como Deus, da nossa parte. Não há nada que ter vergonha – estamos feitos”, afirma o autor, em entrevista à Lusa.

O diagnóstico vem no seguimento da leitura que faz sobre o efeito da pandemia de covid-19, na sociedade, que parte para uma reflexão mais profunda. Para o autor, “estamos mais seguros fisicamente, mas mentalmente estamos todos a ficar malucos”.

“Temos este medo existencial da extinção da espécie, e a nossa saúde mental está a ir pela janela, as pessoas estão a saltar da janela e a atirar-se para a frente de autocarros. Até estou a olhar pela janela para ver se alguém fez isso…”

Irvine Welsh fala à Lusa por videochamada, a partir de Londres, mas mantém a câmara desligada, pelo que não foi possível confirmar se isso seria verdade, embora o tenha dito em tom de brincadeira.

“É um mundo duro. Empatizas com os mais novos, porque eles não têm nada, só videojogos”. Noutro ponto da conversa, quando se falava acerca dos efeitos sociais do desemprego e do abandono económico a que muitos são jogados, o escritor apontava as drogas como um possível refúgio, referindo que é preciso lutar contra esses problemas e não contra as drogas. Muita da sua escrita retrata esses problemas e é carregada de algum tipo de violência.

O que escreve não retrata o que está a atravessar: “Seria muito deprimente se fosse o caso”, considera. “Acho que reflete um pouco como vejo o mundo, mas não tanto onde estou na vida”, esclarece. E o que vê não é bonito: “Os robôs vão tomar conta, a inteligência artificial e formas de vida de silicone vão tornar-nos irrelevantes a todos”, assegura.

Parte do problema está nas redes sociais e no que elas permitem. “Está a afetar tudo na cultura e nas ideias, mas não acho tanto que seja uma questão do politicamente correto, é mais uma ideia de pensamento uniforme. A cultura moveu-se das ruas, da sociedade, para um lugar dos ‘media’, onde tudo é acordado (…). Nada é contestado hoje em dia”.

Acredita que, “de alguma forma, ‘Trainspotting’ não saía hoje por uma editora ‘mainstream’”. Para o escritor, a solução é simples: “Temos de ser melhores uns para os outros, tomar conta uns dos outros”. O isolamento veio amplificar o efeito das redes sociais, considera: “Estamos a ‘objetificar’ e a ‘outrizar’ demasiado’.

“Por isso é que digo para as pessoas deixarem de se preocupar com as drogas e [passarem] a preocupar-se com isto, [porque] é muito pior que qualquer droga”, defende. Apesar da visão negativa, o seu otimismo permite-lhe imaginar, para o futuro da democracia, “um paraíso anarquista, com comunidades pequenas a fazer o que querem, a correr e a escrever poesia, jogar futebol, a fazer amor e música e tudo isso”.

“É como o vejo, mas provavelmente não. [Prevalecerão] os robôs, como no ‘Exterminador Implacável’, a esmagar os nossos crânios, a matar-nos e a voar para colonizar todo o mundo e a clonar os Richard Bransons e os Jeff Bezos”.

Enquanto isso não acontecer, e porque ainda se agarra ao otimismo, que diz ser a “derradeira provocação”, o escritor espera “continuar a atirar estes ‘cocktails molotov’ para a cultura”.
Irvine Welsh falava à Lusa a propósito da sua presença no FEST – Festival Novos Realizadores Novo Cinema, em Espinho, onde vai dar uma ‘masterclass’ sobre adaptação e escrita para cinema, no próximo sábado.


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