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TunetRádio Cultura Primeiro
NAKT ou (como Herberto Helder escrevia)
DECECIONAR É GARANTIR O MOVIMENTO
A discriminação só se pode compreender quando passamos por ela?
Ou a discriminação está fadada a ser sentida por aqueles que sempre observaram a sua existência?
Por quem observa.
Como ignorar o grande monstro de que fazemos parte, uma vez observado?
Uma grande amiga dedicou-me um dia o “Cântico Negro” do José Régio. Oferecia-me uma caixa de sapatos de quando em vez, quando fazia anos, forrada, e com coisas lá dentro. Só nós as duas compreendíamos o significado.
Como as conversas que tínhamos nas escadinhas que ficavam perto da ribeira.
A filosofia nasce nos intervalos da escola, em escadinhas do subúrbio, junto à ribeira.
“Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.”
Escrito por Deus, que só sabe ser poeta, e pela caligrafia dos nossos melhores amigos.
“Hás de chegar aos 90 anos cheia de dúvidas.”
Aos 90?
Ao caminho retorcido, a que não se sabe virar a cara, a cada segundo, minuto, hora, dia, mês, ano e década que passa.
Até aos 90?
“Sim, sendo aquilo que sempre quiseres ser.”
Mas e se eu não quiser ser nada?
E se eu só quiser ser sábio?
Velhinho, de barba branca e comprida, que só sabe coisas que mais ninguém quer saber?
“Talvez em História aprenderei as coisas que mais ninguém sabe!”
90.
E tudo aquilo que jamais saberemos, mais ainda o que não sabem aqueles a quem nunca lhes disseram tudo aquilo que pudessem querer ser.
“Não sejas ingénua, miúda. Cada um traça o seu destino, por muito que desejes fazer a diferença.”
Miúda. Chamam-me, hoje, sem poesia ou caixa de sapatos forrada.
A discriminação está fadada a ser sentida somente por aqueles que observam a sua existência.
Mas, como dizia o poeta,
“Eu nunca principio nem acabo,
eu nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.”
Em pandemia, também.
Filipa, 27.6.2021
Escrito por Filipa Matos