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    TunetRádio Cultura Primeiro

CRÓNICAS

DECECIONAR É GARANTIR O MOVIMENTO

today28/06/2021 1

Fundo
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NAKT ou (como Herberto Helder escrevia)
DECECIONAR É GARANTIR O MOVIMENTO

A discriminação só se pode compreender quando passamos por ela?

Ou a discriminação está fadada a ser sentida por aqueles que sempre observaram a sua existência?

Por quem observa.

Como ignorar o grande monstro de que fazemos parte, uma vez observado?

Uma grande amiga dedicou-me um dia o “Cântico Negro” do José Régio. Oferecia-me uma caixa de sapatos de quando em vez, quando fazia anos, forrada, e com coisas lá dentro. Só nós as duas compreendíamos o significado.

Como as conversas que tínhamos nas escadinhas que ficavam perto da ribeira.

A filosofia nasce nos intervalos da escola, em escadinhas do subúrbio, junto à ribeira.

“Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.”

Escrito por Deus, que só sabe ser poeta, e pela caligrafia dos nossos melhores amigos.

“Hás de chegar aos 90 anos cheia de dúvidas.”

Aos 90?

Ao caminho retorcido, a que não se sabe virar a cara, a cada segundo, minuto, hora, dia, mês, ano e década que passa.

Até aos 90?

“Sim, sendo aquilo que sempre quiseres ser.”

Mas e se eu não quiser ser nada?

E se eu só quiser ser sábio?

Velhinho, de barba branca e comprida, que só sabe coisas que mais ninguém quer saber?

“Talvez em História aprenderei as coisas que mais ninguém sabe!”

90.

E tudo aquilo que jamais saberemos, mais ainda o que não sabem aqueles a quem nunca lhes disseram tudo aquilo que pudessem querer ser.

“Não sejas ingénua, miúda. Cada um traça o seu destino, por muito que desejes fazer a diferença.”

Miúda. Chamam-me, hoje, sem poesia ou caixa de sapatos forrada.

A discriminação está fadada a ser sentida somente por aqueles que observam a sua existência.

Mas, como dizia o poeta,

“Eu nunca principio nem acabo,
eu nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.”

Em pandemia, também.

Filipa, 27.6.2021

Escrito por Filipa Matos

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